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Reabsorções Dentárias na Endodontia: Guia Clínico Completo de Classificação, Diagnóstico e Conduta Baseada em Evidências

Atualizado: há 21 horas

reabsorção dentárias


Introdução


Reabsorções dentárias não são um “diagnóstico único”, e sim um fenômeno biológico que pode ter origens e prognósticos distintos. O maior erro clínico é tratar “a imagem radiográfica” sem classificar corretamente o tipo de reabsorção. Este guia foi construído como página pilar (HUB) para você:

  • compreender mecanismos e classificações (interna vs externa; inflamatória vs substituição; reabsorção cervical externa),

  • definir diagnóstico com segurança (radiografia periapical, testes clínicos e quando a TCFC/CBCT muda a decisão),

  • direcionar para protocolos de conduta (posts satélites) e acompanhamento.

Este conteúdo faz parte do Guia de Reabsorções Dentárias da EndoToday. Veja também os protocolos completos nos posts relacionados.

Atalhos clínicos (protocolos completos):


1. Definições e mecanismos essenciais


1.1 O que são reabsorções dentárias na Endodontia (conceito clínico)

Reabsorção dentária é a perda patológica de tecidos mineralizados (cemento e/ou dentina) mediada por células clásticas. Clinicamente, ela se estabelece quando há quebra de barreiras protetoras (pré-dentina/pré-cemento) e um microambiente que sustenta atividade clástica (inflamação, trauma, estímulos locais).


1.2 A pergunta que define o caso: “onde começa?”

  • Reabsorção interna: inicia na parede do canal, geralmente associada a polpa vital inflamada (pode progredir até perfurar).

  • Reabsorção externa: inicia na superfície radicular externa, com subtipos e prognósticos muito distintos.

  • Reabsorção por substituição (anquilose): substituição progressiva da raiz por osso (frequente em trauma severo/reimplante).

  • Reabsorção cervical externa (RCE/ECR): inicia na região cervical externa, frequentemente preservando a polpa no início por barreira de pré-dentina.

anamnese

2. Classificação clínica e radiográfica


2.1 Classificação prática para o consultório

Organize a classificação em dois eixos:

  1. Local de início: interna vs externa

  2. Comportamento biológico: inflamatória vs substituição (quando aplicável)


2.2 Reabsorção cervical externa (RCE/ECR): por que merece capítulo próprio

A RCE é frequentemente subdiagnosticada e pode mimetizar cárie cervical/restaurações profundas. A avaliação tridimensional (TCFC/CBCT) costuma ter papel decisivo na determinação de extensão e tratabilidade. Reabsorção cervical externa (ECR): o que diz a ciência.


Classificação de reabsorção

3. Diagnóstico clínico e radiográfico


3.1 Anamnese dirigida (sem isso você erra o “porquê”)

Investigue ativamente:

  • trauma (mesmo antigo),

  • clareamento interno prévio,

  • tratamento ortodôntico,

  • cirurgia periodontal,

  • restaurações subgengivais,

  • reimplante/avulsão.


3.2 Exame clínico: sinais úteis (especialmente para RCE)


3.3 Radiografia periapical: o que ela sugere (e o que não resolve)

  • Reabsorção interna: tendência a lesão “centrada” no canal; contornos relativamente regulares.

  • Reabsorção externa: lesão não centrada no canal; contornos mais irregulares.

  • Limitação crítica: superposições podem mascarar extensão real e relação com canal, especialmente em RCE. (CBCT × radiografia periapical)

4. Diagnóstico diferencial: onde o clínico mais se perde


4.1 Reabsorção interna vs externa (dica operacional)

  • Se a imagem “acompanha” o canal e parece expandi-lo: suspeite de interna (confirmar com TCFC se dúvida).

  • Se o canal parece atravessar a radiolucidez sem se “misturar” com ela: suspeite de externa.


4.2 RCE (ECR) vs cárie radicular

  • RCE: superfície pode ser dura/irregular, sangra à sondagem, extensão tridimensional pode ser maior do que a vista no RX.

  • Cárie radicular: tecido amolecido/pegajoso, progressão típica de cárie, comportamento restaurador diferente.

diagnóstico reabsorção

5. Quando a TCFC/CBCT muda a decisão (critério de alto valor)

Solicite TCFC/CBCT quando a resposta a pelo menos uma pergunta abaixo for “sim”:

  • Eu não consigo diferenciar interna vs externa com segurança em 2D.

  • Preciso mapear a extensão e a tratabilidade de uma RCE (circunferência/profundidade/proximidade do canal).

  • Estou planejando abordagem cirúrgica ou combinada (endo + reparo externo).

  • Há suspeita de perfuração ou comunicação complexa.

Princípio: CBCT deve responder uma pergunta clínica (não ser “rotina”).

Diagnóstico por imagem (leitura obrigatória)


Tomografia na reabsorção

6. Conduta por tipo (protocolos de conduta — visão HUB)


6.1 Reabsorção interna inflamatória (não perfurante)

Objetivo: interromper o processo removendo tecido pulpar inflamatório e desinfectando o canal. Direção clínica: endodontia com desinfecção efetiva, medicação intracanal quando indicada e obturação com técnica capaz de preencher irregularidades. Protocolo completo: como tratar reabsorção interna.



reabsorção interna

6.2 Reabsorção interna perfurante

Objetivo: desinfecção + selamento biocompatível da comunicação/perfuração.Direção clínica: considerar selamento com materiais bioativos (ex.: MTA/biocerâmicos) e estratégia de reforço estrutural/restauradora. Planos de tratamento para perfuração radicular.


6.3 Reabsorção externa inflamatória (infecção-relacionada e/ou pós-trauma)

Objetivo: remover o estímulo inflamatório, frequentemente associado à infecção do sistema de canais (conforme o subtipo e o contexto). Direção clínica: endodontia com controle de infecção, medicação intracanal em casos selecionados e acompanhamento. O que esperar após um trauma dentário.


6.4 Reabsorção por substituição (anquilose)

Objetivo: planejamento e monitoramento, não “cura endodôntica”.Direção clínica: endodontia não reverte substituição; o foco é diagnóstico correto, comunicação clara do prognóstico e plano reabilitador (especialmente em jovens).

anquiloso

6.5 Reabsorção cervical externa (RCE/ECR)

Objetivo: remover/inativar tecido reabsortivo, selar o defeito e restabelecer integridade cervical. Direção clínica: abordagem externa (quando acessível), interna (se há comunicação/comprometimento pulpar) ou combinada; TCFC frequentemente é decisiva para planejar. Reabsorção cervical externa: o que diz a ciência.


Reabsorção cervical

6.6 Reabsorção apical associada a radiolucência apical (contexto infeccioso)

Objetivo: controlar infecção e inflamação periapical e monitorar reparo.Direção clínica: endodontia baseada em desinfecção e controle do selamento/restauração coronária, com proservação.

Reabsorção apical

7. Prognóstico e acompanhamento


7.1 Fatores prognósticos que realmente importam

  • tipo de reabsorção (mecanismo),

  • extensão tridimensional (quando disponível),

  • presença de perfuração e integridade estrutural remanescente,

  • acessibilidade e qualidade do selamento,

  • controle etiológico (infecção/trauma/iatrogenia).


7.2 Proservação (rotina prática)


8. Checklist prático: “o que não pode faltar”

  1. Classificação: interna vs externa vs RCE vs substituição

  2. Anamnese dirigida (trauma, ortodontia, clareamento, cirurgia periodontal, restaurações)

  3. Testes pulpares + exame clínico cervical (sondagem/tecido)

  4. RX periapical com angulações diferentes

  5. Decidir: CBCT responde qual pergunta clínica?

  6. Definir tratabilidade e via (interna/externa/combinada)

  7. Prognóstico explícito (inclusive quando desfavorável)

  8. Plano restaurador (selamento cervical/coronário)

  9. Acompanhamento definido (datas, critérios de sucesso/fracasso)

checklist

9. Decisão clínica: como eu tomo a decisão

Minha conduta segue três passos:

  1. Nome correto (classificação): sem isso, o tratamento vira tentativa.

  2. Pergunta clínica e imagem adequada: radiografia quando resolve; CBCT quando muda conduta.

  3. Biologia primeiro: reabsorção inflamatória pede controle do estímulo; substituição pede planejamento e honestidade prognóstica; RCE pede mapeamento e estratégia de acesso/selamento.


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  6. Reabsorção radicular: o que esperar após um trauma dentário

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  9. Teste de sensibilidade pulpar (frio): o diagnóstico que o RX não revela.

  10. Perfurações radiculares: etiologia e diagnóstico

  11. Perfuração radicular: diagnóstico, prognóstico e planos de tratamento.


FAQ

11. FAQ — Perguntas frequentes


11.1 Toda reabsorção precisa de tratamento endodôntico?

Não. Depende do tipo. Reabsorções inflamatórias associadas à infecção podem exigir endodontia; reabsorção por substituição (anquilose) não é revertida por endodontia.

11.2 Como diferenciar reabsorção interna de externa na prática?

Use exame clínico, testes pulpares e radiografias com diferentes angulações. Persistindo dúvida, a TCFC/CBCT costuma ser a forma mais confiável de localizar a origem (interna vs externa).

11.3 Quando a TCFC/CBCT é realmente indicada?

Quando ela muda a conduta: dúvida interna vs externa; planejamento de RCE; avaliação de extensão/relacionamento com canal; suspeita de perfuração; decisão cirúrgica/combinada.

11.4 Reabsorção cervical externa é a mesma coisa que cárie radicular?

Não. A cárie costuma ter tecido amolecido/pegajoso; a RCE tende a ter defeito irregular e pode sangrar à sondagem, com extensão tridimensional maior do que aparenta no RX.

11.5 RCE sempre exige cirurgia?

Não. Alguns casos permitem abordagem interna ou combinada; a decisão depende de extensão, acessibilidade e relação com canal (frequentemente definida por TCFC).

11.6 Reabsorção interna perfurante tem solução previsível?

Pode ter bom prognóstico se houver desinfecção efetiva e selamento biocompatível da perfuração, além de estratégia restauradora que preserve resistência radicular.

11.7 A reabsorção por substituição (anquilose) tem cura?

Em geral, não no sentido de reverter o processo. O foco é diagnóstico correto, monitoramento e planejamento reabilitador.

11.8 O que determina o prognóstico?

Principalmente: tipo (biologia), extensão, presença de perfuração, acessibilidade para remoção/selamento e controle etiológico (infecção/trauma).

11.9 Quais sinais exigem atenção imediata?

Mudança rápida radiográfica, sangramento/defeito cervical suspeito, sintomas pós-trauma, suspeita de perfuração, e casos em que o diagnóstico é incerto.

11.10 Posso apenas “acompanhar” sem tratar?

Em casos selecionados e estáveis, sim—desde que exista diagnóstico robusto, plano de acompanhamento e critérios claros de intervenção.


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