Reabsorção Cervical Externa: O Que Diz a Ciência? Um dos fatores vai ter surpreender.
- Endotoday

- 24 de jun. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
🐱 Reabsorção Cervical Externa. O Que Diz a Ciência? Um dos fatores vai ter surpreender.
Por Prof. Dr. Marco Aurélio G. Borges
Publicado em: 24/06/2024
Atualizado em: 07/02/2026
Este conteúdo faz parte do Guia de Reabsorções Dentárias da EndoToday. Veja também os protocolos completos nos posts relacionados.
Atalhos clínicos (protocolos completos):
Leituras recomendadas (diagnóstico e decisão):
• Diagnóstico (CBCT × radiografia): quando a TCFC muda a conduta
• Teste de sensibilidade ao frio: o diagnóstico que o RX não revela
• Reabsorção radicular após trauma: o que esperar
Introdução
A reabsorção cervical externa (ECR) é uma condição patológica odontológica que desafia clínicos pela sua etiologia pouco compreendida e diagnóstico muitas vezes tardio. O que tem chamado a atenção recentemente é um dado inusitado: a posse de gatos pode estar associada à ocorrência de ECR em humanos. Sim, você leu corretamente. E não se trata de uma especulação isolada — a hipótese vem sendo fortalecida por dados científicos consistentes.
Neste artigo, analisamos os principais achados do estudo observacional publicado por Patel et al. (2024) no International Endodontic Journal, um dos periódicos mais conceituados da endodontia mundial.
O que é Reabsorção Cervical Externa (ECR)?

A ECR é caracterizada pela perda progressiva de tecido dentário duro (cimento, dentina) na região cervical do dente, causada pela atividade de células clásticas — os odontoclastos. Muitas vezes assintomática, essa condição pode ser detectada em estágios avançados apenas por meio de exame radiográfico, especialmente com o uso de tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT).
O Estudo: Metodologia e Amostra
O estudo foi conduzido em centros especializados em endodontia no Reino Unido e avaliou:
194 pacientes com diagnóstico de ECR
215 dentes acometidos
Intervalo de coleta: 2017 a 2022
Os autores investigaram uma lista abrangente de fatores predisponentes, incluindo trauma dental, tratamento ortodôntico, parafunções, uso de bisfosfonatos — e posse de gatos.
Principais Resultados
Os achados foram surpreendentes:
57,7% dos casos apresentaram um único fator predisponente
22,3% não apresentaram nenhum fator identificável
15,8% dos casos estavam associados à posse de gatos
Essa associação foi estatisticamente significativa (p = 0,002)
Gatos foram particularmente associados a casos de ECR em molares mandibulares

Qual seria a explicação?
A hipótese principal é baseada na possível transmissão viral entre gatos e humanos, mais especificamente o feline herpesvirus type 1 (FHV-1). Esse vírus é altamente prevalente em gatos e conhecido por induzir osteoclastogênese — o processo que leva à ativação de células que degradam tecidos mineralizados.
A teoria, inicialmente proposta por von Arx et al. (2009), sugere que esse agente viral poderia ter ação cruzada em humanos, especialmente em indivíduos suscetíveis, desencadeando processos de reabsorção dentária em regiões vulneráveis como a cervical.
Implicações clínicas
Esses achados reforçam a importância de teste de sensibilidade e de uma anamnese minuciosa em pacientes com suspeita ou diagnóstico de ECR. Incluir a pergunta:
“Você possui ou já teve gatos em casa?”pode fazer parte da nova abordagem investigativa no consultório endodôntico.
Além disso, o uso de CBCT se mostrou essencial para o diagnóstico precoce e correto da extensão da lesão.

Considerações Finais
Embora ainda não se possa estabelecer uma relação causal direta entre a posse de gatos e a ECR, a correlação estatística observada neste estudo levanta uma nova frente de investigação científica.
Fica o alerta: nem todo canal nasce de trauma ou ortodontia. Às vezes, há um gato na história.


1) O que é reabsorção cervical externa (ECR)?É uma perda progressiva de tecido dentário duro (cimento e dentina) na região cervical do dente, mediada por atividade clástica (odontoclastos), podendo evoluir silenciosamente até estágios avançados.
2) A ECR costuma causar dor?Frequentemente não. Muitos casos são assintomáticos e só são identificados em exames de imagem, o que contribui para diagnóstico tardio.
3) Por que a ECR é um desafio diagnóstico?Porque a lesão pode “mimetizar” cárie cervical, lesões cervicais não cariosas ou defeitos periodontais; além disso, a radiografia periapical pode subestimar extensão e limites. A avaliação tridimensional com CBCT tende a melhorar a caracterização.
4) O que o estudo observacional de Patel et al. encontrou sobre fatores predisponentes?Em uma amostra clínica (194 pacientes; 215 dentes; 2017–2022), a maioria dos casos apresentou um fator predisponente único; houve também uma fração sem fator identificável.
5) Qual foi o achado relacionado a “posse (prévia) de gatos”?O estudo identificou associação estatisticamente significativa entre ECR e posse prévia de gatos (no seu texto: 15,8%; p=0,002) e descreveu padrão específico em determinados grupos dentários (p.ex., maior frequência em molares mandibulares).
6) Isso prova que gatos “causam” ECR?Não. Trata-se de associação em estudo observacional; não estabelece causalidade. Há inclusive debates metodológicos e estatísticos subsequentes em cartas/comentários ao estudo, o que reforça cautela na interpretação.
7) Qual é a hipótese biológica proposta para explicar a associação?Uma linha especulativa envolve possível participação de agentes virais felinos (p.ex., feline herpesvirus type 1 / FeHV-1) com potencial de influenciar vias relacionadas à reabsorção/atividade clástica em indivíduos suscetíveis. Essa ideia foi explorada em trabalhos anteriores sobre reabsorções cervicais invasivas em humanos e felinos.
8) Já existe confirmação de transmissão viral felina levando a ECR em humanos?Não há consenso nem confirmação causal. Há relatos/hipóteses e achados sorológicos em séries antigas que sustentam a plausibilidade, mas isso está longe de equivaler a prova clínica de causa-efeito.
9) O que devo perguntar na anamnese de suspeita/diagnóstico de ECR?Além de trauma, ortodontia, parafunções e histórico médico/medicamentoso, o estudo sugere que história de posse de gatos pode ser incorporada como item adicional de triagem, sem alarmismo, como parte do raciocínio clínico.
10) Quando indicar CBCT na ECR?Quando há suspeita clínica/radiográfica de ECR e é necessário definir extensão tridimensional, proximidade/comunicação com o canal, envolvimento circunferencial e planejamento terapêutico. (O racional de melhor definição anatômica é consistente com discussões atuais sobre ECR.)
11) Como interpretar o dado “22,3% sem fator identificável”?Como evidência de que a ECR pode ter componente multifatorial e/ou fatores ainda não mapeados (genética, microtraumas, ambiente local, interação biofilme–tecidos, etc.). Estudos observacionais frequentemente deixam “resíduo etiológico” relevante.
12) Qual é a mensagem clínica mais responsável para pacientes que têm gatos?Manter foco em diagnóstico precoce e vigilância, e não em culpa ou abandono do animal: a evidência atual aponta associação, não causalidade; o valor prático é ampliar anamnese e suspeição diagnóstica quando o fenótipo clínico sugere ECR.
Referência Principal
Patel, S., Abella, F., Patel, K., Bakhsh, A., Lambrechts, P., & Al-Nuaimi, N. (2025). Potential predisposing features of external cervical resorption: An observational study. International Endodontic Journal, 58, 273–283. https://doi.org/10.1111/iej.14166
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