Reabsorções Dentárias na Endodontia: Guia Clínico Completo de Classificação, Diagnóstico e Conduta Baseada em Evidências
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Introdução
Reabsorções dentárias não são um “diagnóstico único”, e sim um fenômeno biológico que pode ter origens e prognósticos distintos. O maior erro clínico é tratar “a imagem radiográfica” sem classificar corretamente o tipo de reabsorção. Este guia foi construído como página pilar (HUB) para você:
compreender mecanismos e classificações (interna vs externa; inflamatória vs substituição; reabsorção cervical externa),
definir diagnóstico com segurança (radiografia periapical, testes clínicos e quando a TCFC/CBCT muda a decisão),
direcionar para protocolos de conduta (posts satélites) e acompanhamento.
Este conteúdo faz parte do Guia de Reabsorções Dentárias da EndoToday. Veja também os protocolos completos nos posts relacionados.
Atalhos clínicos (protocolos completos):
Reabsorções Dentárias na Endodontia: Guia Clínico Completo de Classificação, Diagnóstico e Conduta Baseada em Evidências.
Reabsorção apical em dentes com radiolucência apical: o que é e como tratar
1. Definições e mecanismos essenciais
1.1 O que são reabsorções dentárias na Endodontia (conceito clínico)
Reabsorção dentária é a perda patológica de tecidos mineralizados (cemento e/ou dentina) mediada por células clásticas. Clinicamente, ela se estabelece quando há quebra de barreiras protetoras (pré-dentina/pré-cemento) e um microambiente que sustenta atividade clástica (inflamação, trauma, estímulos locais).
1.2 A pergunta que define o caso: “onde começa?”
Reabsorção interna: inicia na parede do canal, geralmente associada a polpa vital inflamada (pode progredir até perfurar).
Reabsorção externa: inicia na superfície radicular externa, com subtipos e prognósticos muito distintos.
Reabsorção por substituição (anquilose): substituição progressiva da raiz por osso (frequente em trauma severo/reimplante).
Reabsorção cervical externa (RCE/ECR): inicia na região cervical externa, frequentemente preservando a polpa no início por barreira de pré-dentina.

2. Classificação clínica e radiográfica
2.1 Classificação prática para o consultório
Organize a classificação em dois eixos:
Local de início: interna vs externa
Comportamento biológico: inflamatória vs substituição (quando aplicável)
2.2 Reabsorção cervical externa (RCE/ECR): por que merece capítulo próprio
A RCE é frequentemente subdiagnosticada e pode mimetizar cárie cervical/restaurações profundas. A avaliação tridimensional (TCFC/CBCT) costuma ter papel decisivo na determinação de extensão e tratabilidade. Reabsorção cervical externa (ECR): o que diz a ciência.

3. Diagnóstico clínico e radiográfico
3.1 Anamnese dirigida (sem isso você erra o “porquê”)
Investigue ativamente:
trauma (mesmo antigo),
clareamento interno prévio,
tratamento ortodôntico,
cirurgia periodontal,
restaurações subgengivais,
reimplante/avulsão.
3.2 Exame clínico: sinais úteis (especialmente para RCE)
sondagem localizada e sangramento,
defeito cervical com tecido firme/irregular (diferente de “cárie mole”),
“pink spot” (em alguns casos),
percussão com som metálico (suspeita de anquilose/substituição),
testes pulpares (frio/ELP) como parte do diagnóstico diferencial.
3.3 Radiografia periapical: o que ela sugere (e o que não resolve)
Reabsorção interna: tendência a lesão “centrada” no canal; contornos relativamente regulares.
Reabsorção externa: lesão não centrada no canal; contornos mais irregulares.
Limitação crítica: superposições podem mascarar extensão real e relação com canal, especialmente em RCE. (CBCT × radiografia periapical)
4. Diagnóstico diferencial: onde o clínico mais se perde
4.1 Reabsorção interna vs externa (dica operacional)
Se a imagem “acompanha” o canal e parece expandi-lo: suspeite de interna (confirmar com TCFC se dúvida).
Se o canal parece atravessar a radiolucidez sem se “misturar” com ela: suspeite de externa.
4.2 RCE (ECR) vs cárie radicular
RCE: superfície pode ser dura/irregular, sangra à sondagem, extensão tridimensional pode ser maior do que a vista no RX.
Cárie radicular: tecido amolecido/pegajoso, progressão típica de cárie, comportamento restaurador diferente.

5. Quando a TCFC/CBCT muda a decisão (critério de alto valor)
Solicite TCFC/CBCT quando a resposta a pelo menos uma pergunta abaixo for “sim”:
Eu não consigo diferenciar interna vs externa com segurança em 2D.
Preciso mapear a extensão e a tratabilidade de uma RCE (circunferência/profundidade/proximidade do canal).
Estou planejando abordagem cirúrgica ou combinada (endo + reparo externo).
Há suspeita de perfuração ou comunicação complexa.
Princípio: CBCT deve responder uma pergunta clínica (não ser “rotina”).
Diagnóstico por imagem (leitura obrigatória)

6. Conduta por tipo (protocolos de conduta — visão HUB)
6.1 Reabsorção interna inflamatória (não perfurante)
Objetivo: interromper o processo removendo tecido pulpar inflamatório e desinfectando o canal. Direção clínica: endodontia com desinfecção efetiva, medicação intracanal quando indicada e obturação com técnica capaz de preencher irregularidades. Protocolo completo: como tratar reabsorção interna.

6.2 Reabsorção interna perfurante
Objetivo: desinfecção + selamento biocompatível da comunicação/perfuração.Direção clínica: considerar selamento com materiais bioativos (ex.: MTA/biocerâmicos) e estratégia de reforço estrutural/restauradora. Planos de tratamento para perfuração radicular.
6.3 Reabsorção externa inflamatória (infecção-relacionada e/ou pós-trauma)
Objetivo: remover o estímulo inflamatório, frequentemente associado à infecção do sistema de canais (conforme o subtipo e o contexto). Direção clínica: endodontia com controle de infecção, medicação intracanal em casos selecionados e acompanhamento. O que esperar após um trauma dentário.
6.4 Reabsorção por substituição (anquilose)
Objetivo: planejamento e monitoramento, não “cura endodôntica”.Direção clínica: endodontia não reverte substituição; o foco é diagnóstico correto, comunicação clara do prognóstico e plano reabilitador (especialmente em jovens).

6.5 Reabsorção cervical externa (RCE/ECR)
Objetivo: remover/inativar tecido reabsortivo, selar o defeito e restabelecer integridade cervical. Direção clínica: abordagem externa (quando acessível), interna (se há comunicação/comprometimento pulpar) ou combinada; TCFC frequentemente é decisiva para planejar. Reabsorção cervical externa: o que diz a ciência.

6.6 Reabsorção apical associada a radiolucência apical (contexto infeccioso)
Objetivo: controlar infecção e inflamação periapical e monitorar reparo.Direção clínica: endodontia baseada em desinfecção e controle do selamento/restauração coronária, com proservação.
Protocolo completo: Reabsorção apical em dentes com radiolucência apical: o que é e como tratar.

7. Prognóstico e acompanhamento
7.1 Fatores prognósticos que realmente importam
tipo de reabsorção (mecanismo),
extensão tridimensional (quando disponível),
presença de perfuração e integridade estrutural remanescente,
acessibilidade e qualidade do selamento,
controle etiológico (infecção/trauma/iatrogenia).
7.2 Proservação (rotina prática)
reavaliar em 3–6 meses em casos ativos/complexos,
12 meses como marco de reparo/estabilidade,
anual nos casos de risco (RCE extensa, pós-trauma severo, substituição).
8. Checklist prático: “o que não pode faltar”
Classificação: interna vs externa vs RCE vs substituição
Anamnese dirigida (trauma, ortodontia, clareamento, cirurgia periodontal, restaurações)
Testes pulpares + exame clínico cervical (sondagem/tecido)
RX periapical com angulações diferentes
Decidir: CBCT responde qual pergunta clínica?
Definir tratabilidade e via (interna/externa/combinada)
Prognóstico explícito (inclusive quando desfavorável)
Plano restaurador (selamento cervical/coronário)
Acompanhamento definido (datas, critérios de sucesso/fracasso)

9. Decisão clínica: como eu tomo a decisão
Minha conduta segue três passos:
Nome correto (classificação): sem isso, o tratamento vira tentativa.
Pergunta clínica e imagem adequada: radiografia quando resolve; CBCT quando muda conduta.
Biologia primeiro: reabsorção inflamatória pede controle do estímulo; substituição pede planejamento e honestidade prognóstica; RCE pede mapeamento e estratégia de acesso/selamento.
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11. FAQ — Perguntas frequentes
11.1 Toda reabsorção precisa de tratamento endodôntico?
Não. Depende do tipo. Reabsorções inflamatórias associadas à infecção podem exigir endodontia; reabsorção por substituição (anquilose) não é revertida por endodontia.
11.2 Como diferenciar reabsorção interna de externa na prática?
Use exame clínico, testes pulpares e radiografias com diferentes angulações. Persistindo dúvida, a TCFC/CBCT costuma ser a forma mais confiável de localizar a origem (interna vs externa).
11.3 Quando a TCFC/CBCT é realmente indicada?
Quando ela muda a conduta: dúvida interna vs externa; planejamento de RCE; avaliação de extensão/relacionamento com canal; suspeita de perfuração; decisão cirúrgica/combinada.
11.4 Reabsorção cervical externa é a mesma coisa que cárie radicular?
Não. A cárie costuma ter tecido amolecido/pegajoso; a RCE tende a ter defeito irregular e pode sangrar à sondagem, com extensão tridimensional maior do que aparenta no RX.
11.5 RCE sempre exige cirurgia?
Não. Alguns casos permitem abordagem interna ou combinada; a decisão depende de extensão, acessibilidade e relação com canal (frequentemente definida por TCFC).
11.6 Reabsorção interna perfurante tem solução previsível?
Pode ter bom prognóstico se houver desinfecção efetiva e selamento biocompatível da perfuração, além de estratégia restauradora que preserve resistência radicular.
11.7 A reabsorção por substituição (anquilose) tem cura?
Em geral, não no sentido de reverter o processo. O foco é diagnóstico correto, monitoramento e planejamento reabilitador.
11.8 O que determina o prognóstico?
Principalmente: tipo (biologia), extensão, presença de perfuração, acessibilidade para remoção/selamento e controle etiológico (infecção/trauma).
11.9 Quais sinais exigem atenção imediata?
Mudança rápida radiográfica, sangramento/defeito cervical suspeito, sintomas pós-trauma, suspeita de perfuração, e casos em que o diagnóstico é incerto.
11.10 Posso apenas “acompanhar” sem tratar?
Em casos selecionados e estáveis, sim—desde que exista diagnóstico robusto, plano de acompanhamento e critérios claros de intervenção.
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