Sistema Ahmed na Endodontia: quando a anatomia deixa de ser um tipo e se torna um mapa
- Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges

- há 1 dia
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A classificação não localiza o canal. Mas muda onde você decide procurá-lo.

Resumo do artigo
Durante décadas, a anatomia dos canais radiculares foi organizada por classificações baseadas em tipos.
Esses sistemas permitiram reconhecer e comunicar configurações como 1-1, 2-1, 1-2-1 e 1-2. Entre eles, a classificação de Vertucci tornou-se uma das referências mais utilizadas no ensino e na pesquisa endodôntica.
Entretanto, o avanço da tomografia computadorizada de feixe cônico, da microtomografia computadorizada e dos métodos tridimensionais demonstrou que parte da anatomia não pode ser descrita adequadamente apenas por algarismos romanos.
O Sistema Ahmed foi desenvolvido para representar, em um único código:
qual dente está sendo analisado;
quantas raízes ele apresenta;
onde essas raízes estão localizadas;
quantos canais existem;
como os canais se dividem;
como os canais confluem;
quantos trajetos alcançam a região apical.
Em anatomias simples, Ahmed e Vertucci podem transmitir informações semelhantes.
Nas anatomias complexas, o Sistema Ahmed apresenta maior capacidade descritiva porque diferencia dentes que possuem configurações canaliculares semelhantes, mas números, posições e relações radiculares diferentes.
Para a abertura coronária, essa classificação não determina um desenho cavitário pronto.
Sua contribuição está em melhorar a hipótese sobre quantas raízes, quantos orifícios e quantos trajetos precisam ser investigados.
Vertucci organiza padrões. Ahmed descreve o dente.
Este artigo é baseado no trabalho original que apresentou o sistema e na revisão sistemática que analisou sua aplicação em comparação com a classificação de Vertucci.
Trilha de Abertura Coronária |
Este artigo faz parte da Trilha de Abertura Coronária do EndoToday, uma sequência de estudos sobre anatomia, planejamento, acesso, localização dos canais, magnificação, ultrassom e prevenção de acidentes. |
Artigo anterior |
No artigo anterior, você compreendeu como interpretar as referências anatômicas do assoalho e localizar os orifícios com maior previsibilidade. |
Próximo artigo |
No próximo artigo, vamos transformar a hipótese anatômica em um plano clínico baseado em radiografia, inclinação, profundidade da câmara, restaurações, risco e recursos disponíveis. |
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Perguntas que este artigo responde
Pergunta | Resposta objetiva |
O que é o Sistema Ahmed? | É um sistema que descreve o dente, o número de raízes e o percurso dos canais em um único código. |
Por que ele foi desenvolvido? | Porque parte das anatomias complexas não podia ser representada adequadamente pelas classificações tradicionais. |
Qual é a diferença entre Ahmed e Vertucci? | Vertucci organiza trajetos em tipos; Ahmed integra dente, raízes e canais em uma descrição contínua. |
Ahmed substitui Vertucci? | Não. Os sistemas podem ser utilizados de maneira complementar. |
Como o código deve ser lido? | Da região coronária em direção apical, acompanhando divisões e confluências. |
O número antes do dente representa o quê? | Representa o número de raízes. |
A sequência 1-2-1 significa o quê? | Um canal que se divide em dois e posteriormente volta a confluir. |
O sistema informa o número de orifícios? | Sim, quando a anatomia foi identificada, mas nem sempre ela é totalmente conhecida antes do tratamento. |
O Sistema Ahmed define o formato da abertura? | Não. Ele melhora a hipótese anatômica, mas não prescreve um desenho cavitário. |
Qual é a principal vantagem clínica? | Diferenciar anatomias que apresentam trajetos semelhantes, mas raízes e posições radiculares diferentes. |
Quais características ele não descreve? | Curvatura, istmos, forma transversal, espessura dentinária, canais laterais e dificuldade clínica. |
É necessário memorizar todos os códigos? | Não. É mais importante compreender a lógica de construção e leitura do sistema. |
O que você vai entender neste artigo
Por que as classificações tradicionais não representam toda a anatomia conhecida.
Como o Sistema Ahmed foi desenvolvido.
Quais são os componentes do código.
Como interpretar dentes unirradiculares, birradiculares e multirradiculares.
Como ler divisões e confluências dos canais.
Qual é a diferença entre raiz, orifício, canal e forame.
Como Ahmed se relaciona com a classificação de Vertucci.
O que a revisão sistemática de 2023 demonstrou.
Por que a posição das raízes interfere na abertura coronária.
Quais são as limitações do sistema.
Como incorporar essa classificação ao raciocínio clínico.
Por que conhecer um código não significa conhecer toda a dificuldade do caso.
Introdução
A Endodontia depende da compreensão da anatomia.
Antes de abrir a câmara, localizar os orifícios, explorar os canais, instrumentar, irrigar ou obturar, o clínico precisa construir uma hipótese sobre o sistema que pretende tratar.
Durante muitos anos, essa anatomia foi organizada principalmente por classificações baseadas em tipos.
A classificação de Vertucci desempenhou um papel decisivo nesse processo. Ela permitiu representar configurações frequentes por meio de oito padrões principais e criou uma linguagem amplamente reconhecida por pesquisadores, professores e clínicos.
Mas existe uma diferença entre organizar padrões frequentes e descrever toda a anatomia observada.
Os métodos tridimensionais contemporâneos revelaram canais que:
se dividem mais de uma vez;
confluem e voltam a se dividir;
terminam em múltiplos trajetos;
estão distribuídos em números diferentes de raízes;
apresentam configurações que não cabem nos tipos tradicionais;
pertencem a raízes fusionadas, bifurcadas ou posicionadas de maneira incomum.
Em um dos estudos citados no trabalho original, até 13% dos espécimes não se encaixaram na classificação de Vertucci.
O problema não estava necessariamente na anatomia.
Estava na limitação da linguagem utilizada para descrevê-la.
Foi nesse contexto que Ahmed, Versiani, De-Deus e Dummer propuseram um novo sistema de codificação para raízes e canais radiculares.
O objetivo não era criar mais uma lista fechada de tipos.
Era construir uma linguagem aberta, capaz de acompanhar a anatomia observada.
A anatomia não precisa caber na classificação. A classificação precisa conseguir descrever a anatomia.

Por que uma nova classificação foi necessária?
Os sistemas de Weine e Vertucci foram construídos com base nos métodos disponíveis em suas respectivas épocas.
Eles continuam importantes e conseguem representar uma grande parcela das configurações clínicas.
Entretanto, a evolução da investigação anatômica evidenciou três problemas principais.
Problema | Implicação |
Configurações não enquadráveis | Algumas anatomias precisam ser descritas como não classificáveis. |
Ausência do número de raízes | Dentes com trajetos canaliculares semelhantes podem apresentar estruturas radiculares diferentes. |
Descrição parcial do dente | Frequentemente, cada raiz é classificada isoladamente, sem um código integrado para todo o dente. |
Considere um pré-molar superior com três canais.
Ele pode apresentar:
uma única raiz contendo três canais;
duas raízes, sendo uma portadora de dois canais;
três raízes independentes;
raízes vestibulares fusionadas;
um canal comum que posteriormente acompanha raízes diferentes;
diferentes posições dos orifícios no assoalho.
A designação de um trajeto como Tipo VIII pode comunicar a presença de três canais independentes.
Mas não informa necessariamente:
quantas raízes existem;
em quais raízes os canais estão distribuídos;
se as raízes são independentes ou fusionadas;
onde os orifícios provavelmente estarão posicionados.
Essa distinção possui implicações para o acesso, a localização dos canais, a instrumentação, a obturação e possíveis intervenções cirúrgicas.

Vertucci organiza padrões. Ahmed descreve o dente.
A diferença entre os sistemas não deve ser tratada como uma disputa entre uma classificação correta e outra incorreta.
Cada sistema responde a uma pergunta diferente.
Característica | Classificação de Vertucci | Sistema Ahmed |
Unidade principal | Configuração do canal em uma raiz | Dente, raízes e canais |
Forma de representação | Tipos em algarismos romanos | Código anatômico sequencial |
Número de raízes | Nem sempre incorporado ao tipo | Incorporado ao início do código |
Posição das raízes | Geralmente descrita separadamente | Integrada ao código |
Configurações complexas | Pode exigir tipos adicionais ou “não classificável” | Sistema aberto para novas sequências |
Facilidade inicial | Mais simples e familiar | Exige aprendizagem da sintaxe |
Aplicação didática | Excelente para padrões básicos | Excelente para descrição detalhada |
Comunicação do dente completo | Limitada | Uma das principais propostas |
Principal vantagem | Simplicidade e ampla utilização | Maior capacidade descritiva |
Principal limitação | Menor flexibilidade para anatomias incomuns | Códigos potencialmente mais longos |
A classificação de Vertucci continua relevante porque:
possui amplo reconhecimento;
permite comparação com estudos históricos;
é didaticamente eficiente;
representa adequadamente muitas configurações;
facilita a introdução ao estudo da anatomia interna.
O Sistema Ahmed amplia essa comunicação porque:
inclui o número de raízes;
identifica a posição de cada raiz;
descreve cada sistema canalicular;
acompanha divisões e confluências;
permite representar configurações ainda não catalogadas;
integra todo o dente em uma expressão.
Vertucci oferece uma categoria. Ahmed oferece uma descrição.

Como o Sistema Ahmed é construído?
O sistema reúne três componentes principais:
Componente | O que representa | Exemplo |
Identificação do dente | Qual dente está sendo analisado | 11, 14, 16, 41 |
Número de raízes | Quantas raízes o dente apresenta | ¹, ², ³ |
Configuração dos canais | Número de orifícios, divisões, confluências e trajetos apicais | 1, 1-2, 2-1, 1-2-1 |
A classificação pode utilizar diferentes sistemas de identificação dentária, incluindo a notação FDI.
O número de raízes é colocado antes da identificação do dente.
A configuração do canal é colocada após o dente ou após a identificação da raiz correspondente.
O percurso é lido do orifício em direção ao término apical.
1. Identificação do dente
No Brasil, a notação FDI é a mais familiar.
Código FDI | Dente |
11 | Incisivo central superior direito |
14 | Primeiro pré-molar superior direito |
16 | Primeiro molar superior direito |
34 | Primeiro pré-molar inferior esquerdo |
41 | Incisivo central inferior direito |
46 | Primeiro molar inferior direito |
O sistema também pode utilizar outras nomenclaturas, desde que a identificação seja clara.
2. Número de raízes
O número colocado antes do dente informa quantas raízes estão presentes.
Representação | Significado |
¹11 | Dente 11 com uma raiz |
²14 | Dente 14 com duas raízes |
³16 | Dente 16 com três raízes |
⁴17 | Dente 17 com quatro raízes |
Nos dentes multirradiculares, as raízes podem ser identificadas por sua posição.
Abreviação | Raiz |
B | Vestibular |
P | Palatina |
M | Mesial |
D | Distal |
MB ou MV | Mesiovestibular |
DB ou DV | Distovestibular |
ML ou MLing | Mesiolingual |
DL | Distolingual |
A posição da raiz não é um detalhe secundário.
Ela interfere na projeção dos orifícios, no eixo de exploração, na interpretação radiográfica e no planejamento do acesso.
3. Configuração dos canais
A sequência numérica deve ser lida da região coronária em direção apical.
Configuração | Leitura anatômica |
1 | Um orifício, um canal e um forame principal |
2 | Dois orifícios, dois canais e dois forames |
1-2 | Um canal que se divide em dois |
2-1 | Dois canais que confluem em um |
1-2-1 | Um canal que se divide e volta a confluir |
2-1-2 | Dois canais que confluem e voltam a se dividir |
1-2-1-2 | Um canal que se divide, conflui e se divide novamente |
2-1-2-1 | Dois canais que passam por sucessivas confluências e divisões, terminando em um |
A sequência não é um número arbitrário.
Ela descreve uma trajetória.
Não é um código para decorar. É um percurso para interpretar.
Como interpretar os códigos na prática?

Exemplo 1 — incisivo inferior com divisão e confluência
Código: ¹41¹⁻²⁻¹
Elemento | Interpretação |
¹ | Uma raiz |
41 | Incisivo central inferior direito |
1-2-1 | Um canal que se divide em dois e depois volta a confluir |
Na classificação de Vertucci, essa configuração corresponde ao Tipo III.
Em anatomias simples, portanto, os dois sistemas podem transmitir informações equivalentes.

Exemplo 2 — primeiro pré-molar superior com duas raízes
Código: ²14 B¹ P¹
Elemento | Interpretação |
² | Duas raízes |
14 | Primeiro pré-molar superior direito |
B¹ | Raiz vestibular com um canal |
P¹ | Raiz palatina com um canal |
A informação não se limita à presença de dois canais.
O código informa que eles estão distribuídos em duas raízes independentes.
Isso modifica:
a leitura da radiografia;
a expectativa sobre a posição dos orifícios;
o eixo de exploração vestibular e palatino;
a extensão necessária para visualização;
o planejamento da instrumentação.

Exemplo 3 — primeiro molar superior com confluência na raiz mesiovestibular
Código: ³16 MB²⁻¹ DB¹ P¹
Elemento | Interpretação |
³ | Três raízes |
16 | Primeiro molar superior direito |
MB²⁻¹ | Dois canais na raiz mesiovestibular que confluem em um |
DB¹ | Um canal na raiz distovestibular |
P¹ | Um canal na raiz palatina |
Na classificação de Vertucci, a raiz mesiovestibular poderia ser classificada como Tipo II.
O Sistema Ahmed acrescenta:
qual dente está sendo analisado;
quantas raízes existem;
em qual raiz está a variação;
qual é a configuração das demais raízes.
O código descreve o dente como uma unidade anatômica.
Exemplo 4 — um canal que termina em dois
Código: ¹34¹⁻²
Elemento | Interpretação |
¹ | Uma raiz |
34 | Primeiro pré-molar inferior esquerdo |
1-2 | Um canal inicial que se divide em dois trajetos e dois forames |
Essa anatomia é clinicamente diferente de um pré-molar com duas raízes independentes.
Nos dois cenários podem existir dois trajetos apicais.
Mas o número de raízes, o número de orifícios e o ponto de divisão são diferentes.

O que a revisão sistemática demonstrou?
Em 2023, Ahmed, Rossi-Fedele e Dummer publicaram uma revisão sistemática para investigar se o novo sistema fornecia uma classificação mais precisa e prática do que outros sistemas.
A busca identificou inicialmente 458 publicações.
Após remoção de duplicatas, triagem e aplicação dos critérios de inclusão, 15 estudos comparativos foram analisados.
Todos compararam o Sistema Ahmed com a classificação de Vertucci.
Os estudos incluíram dentes anteriores, pré-molares e molares superiores, utilizando principalmente CBCT e micro-CT.
Síntese da evidência
Grupo anatômico | Resultado geral |
Anteriores superiores simples | Os dois sistemas apresentaram desempenho semelhante |
Anteriores inferiores complexos | Ahmed descreveu configurações que não se encaixavam em Vertucci |
Pré-molares superiores | Ahmed diferenciou melhor número, posição e configuração das raízes |
Pré-molares inferiores | Maior capacidade de representar dentes birradiculares e configurações incomuns |
Raiz mesiovestibular de molares superiores | Ahmed ofereceu descrição mais integrada de anatomias complexas |
Raízes distovestibular e palatina simples | Os dois sistemas apresentaram resultados semelhantes |
Molares inferiores | Evidência comparativa ainda limitada |
Ensino e prática clínica | Ahmed exige aprendizagem, mas amplia a precisão da comunicação |
Configurações simples
Nos dentes com um canal contínuo ou padrões tradicionais, os dois sistemas conseguiram representar adequadamente a anatomia.
Isso ocorreu principalmente em:
incisivos superiores;
raízes palatinas de molares superiores;
raízes distovestibulares de molares superiores;
dentes unirradiculares com um trajeto simples;
configurações que correspondem diretamente aos tipos de Vertucci.
Nesses cenários, a simplicidade e a familiaridade da classificação de Vertucci continuam sendo vantagens.
Configurações complexas
A vantagem do Sistema Ahmed tornou-se mais evidente em:
canais com múltiplas divisões e confluências;
dentes unirradiculares com configurações incomuns;
caninos inferiores birradiculares;
pré-molares superiores com duas ou três raízes;
pré-molares inferiores birradiculares;
raízes mesiovestibulares de molares superiores;
dentes com raízes fusionadas ou anomalias associadas;
configurações classificadas como não enquadráveis em Vertucci.
Em um estudo brasileiro com micro-CT de incisivos inferiores, 6,67% das configurações não se encaixaram na classificação original de Vertucci, enquanto todas puderam ser representadas pelo sistema de Ahmed.

Por que os pré-molares revelam tão bem essa diferença?
Os pré-molares podem apresentar grande variabilidade no número e na posição das raízes.
Um pré-molar com dois canais pode ser:
unirradicular;
birradicular;
parcialmente bifurcado;
portador de raízes vestibular e palatina;
portador de raízes mesial e distal;
associado a sulcos radiculares;
portador de três canais distribuídos em duas ou três raízes.
A classificação de Vertucci descreve o trajeto canalicular.
O Sistema Ahmed diferencia como esse trajeto está relacionado à estrutura radicular.
Situação | Informação fornecida por Ahmed |
Um dente, uma raiz e dois canais independentes | Identifica uma raiz e configuração 2 |
Um dente, duas raízes e um canal em cada raiz | Identifica duas raízes e suas posições |
Três canais em três raízes | Identifica cada raiz e seu canal |
Dois canais em uma raiz vestibular e um na palatina | Separa a anatomia de cada componente radicular |
Raízes fusionadas ou anomalias | Pode receber códigos complementares |
Essa precisão não é apenas classificatória.
Ela se conecta diretamente à procura pelos orifícios e ao planejamento do acesso.
A evidência em molares ainda exige cautela
A revisão encontrou poucos estudos comparativos em molares.
Os trabalhos disponíveis concentraram-se principalmente em molares superiores e utilizaram CBCT.
A classificação de Ahmed conseguiu descrever o dente completo e representar configurações complexas que não se enquadravam em Vertucci.
Entretanto:
ainda existem poucos estudos;
os métodos diagnósticos não foram uniformes;
a evidência em molares inferiores é limitada;
estudos com micro-CT são necessários;
códigos muito específicos podem criar grande número de categorias.
Portanto, a conclusão não deve ser:
Ahmed é definitivamente superior em todos os dentes.
A conclusão mais precisa é:
O Sistema Ahmed apresenta maior capacidade descritiva em anatomias complexas, mas ainda necessita de validação adicional, especialmente em molares e em diferentes métodos de análise.
A própria revisão reconhece a necessidade de mais investigações em molares e com outras tecnologias diagnósticas.

Qual é a relação com a abertura coronária?
O Sistema Ahmed não determina:
o ponto exato de entrada;
a broca que deve ser utilizada;
a extensão final da cavidade;
o desenho geométrico do acesso;
a profundidade da câmara;
a necessidade de desgaste em uma região específica.
Sua contribuição é anterior.
Ele melhora a hipótese anatômica que orienta a procura.
Pergunta anatômica | Repercussão na abertura |
Quantas raízes podem estar presentes? | Orienta a expectativa sobre a distribuição dos orifícios |
Onde as raízes estão posicionadas? | Ajuda a interpretar o mapa do assoalho |
Quantos canais podem começar na câmara? | Define regiões que precisam ser examinadas |
Os canais começam juntos ou separados? | Modifica a interpretação dos orifícios |
Existe possibilidade de divisão mais apical? | Evita assumir que um orifício corresponde a um único trajeto |
Há possibilidade de raiz adicional? | Justifica investigação radiográfica e clínica complementar |
A anatomia é compatível com uma variação complexa? | Pode indicar magnificação, ultrassom ou CBCT |
A localização e a posição das raízes apresentam implicações clínicas para o preparo da abertura, detecção dos canais, instrumentação, obturação e cirurgia.

1. O número de canais não informa necessariamente o número de raízes
Dois canais podem estar:
em uma única raiz;
em duas raízes independentes;
em raízes parcialmente fusionadas;
em uma raiz que se bifurca;
em dois orifícios que posteriormente confluem.
Essa diferença modifica a distribuição espacial esperada no assoalho.
Por isso, antes de procurar apenas “dois canais”, o profissional precisa perguntar:
Esses canais pertencem a uma raiz ou a duas raízes diferentes?
2. O número de orifícios não representa toda a anatomia
Um orifício pode dar origem a:
um único canal;
dois canais;
trajetos que se dividem e voltam a confluir;
mais de um forame apical.
Dois orifícios podem:
permanecer independentes;
confluir no terço médio;
confluir no terço apical;
voltar a se dividir.
Portanto:
Encontrar um orifício não significa ter compreendido todo o sistema de canais.
A abertura oferece acesso à entrada.
A anatomia continua além do assoalho.
3. A posição das raízes ajuda a interpretar o assoalho
As Leis de Krasner e Rankow orientam a leitura:
da junção cemento-esmalte;
da centralidade da câmara;
da mudança de cor;
das linhas de desenvolvimento;
dos ângulos entre parede e assoalho;
das relações de simetria.
O Sistema Ahmed acrescenta outra camada de raciocínio:
quantas raízes precisam ser consideradas;
quais posições radiculares são possíveis;
como os trajetos podem estar distribuídos;
quais configurações ainda não foram excluídas.
Os dois conhecimentos são complementares.
Krasner ajuda a interpretar o assoalho.
Ahmed ajuda a formular a anatomia que pode existir além dele.
4. O sistema ajuda a evitar o encerramento prematuro da busca
Um erro clínico frequente é considerar o acesso concluído assim que a anatomia mais comum foi localizada.
O problema é que prevalência não significa exclusividade.
O raciocínio baseado no Sistema Ahmed estimula perguntas adicionais:
A radiografia sugere uma raiz que ainda não foi considerada?
A posição dos orifícios corresponde à posição das raízes?
Um orifício amplo pode esconder mais de um trajeto?
Existe uma linha de desenvolvimento que termina em uma depressão suspeita?
Os canais localizados explicam completamente a anatomia radiográfica?
Uma configuração aparentemente simples pode se dividir mais apicalmente?
O dente pode apresentar uma anatomia não contemplada pela expectativa inicial?
A classificação não encontra o canal.
Mas impede que o profissional encerre a procura apenas porque encontrou a configuração mais frequente.
5. Ahmed não justifica acessos excessivamente amplos
Conhecer anatomias complexas não significa ampliar preventivamente todos os acessos.
Um acesso excessivamente amplo pode:
remover dentina pericervical;
enfraquecer cúspides;
aumentar o risco de fratura;
comprometer a restauração;
criar desgaste sem benefício clínico.
Por outro lado, um acesso excessivamente restrito pode:
esconder o assoalho;
dificultar a inspeção dos sulcos;
impedir a localização de orifícios;
criar interferências coronárias;
aumentar a tensão dos instrumentos;
prejudicar irrigação e obturação.
O objetivo não é realizar a menor abertura possível.
O objetivo é construir uma abertura suficiente para tratar a anatomia com segurança e preservadora o suficiente para não remover estrutura sem indicação.
Preservar dentina não pode significar preservar um canal infectado e não localizado.

O que o Sistema Ahmed não informa?
A classificação foi deliberadamente mantida mais simples do que uma descrição morfológica completa.
Ela não representa todos os fatores que determinam a dificuldade clínica.
Característica | O sistema descreve? |
Identificação do dente | Sim |
Número de raízes | Sim |
Posição das raízes | Sim |
Divisões e confluências dos canais | Sim |
Número de trajetos apicais principais | Sim |
Grau da curvatura | Não |
Raio da curvatura | Não |
Curvatura em mais de um plano | Não |
Forma oval ou achatada | Não |
Istmos | Não |
Canais laterais | Não |
Canais de furca | Não |
Delta apical | Não de maneira completa |
Espessura de dentina | Não |
Áreas de perigo | Não |
Calcificação | Não |
Dificuldade de instrumentação | Não |
Prognóstico do tratamento | Não |
Os autores optaram por não incorporar curvatura, grau de separação, nível exato de bifurcação, tipo de fusão radicular, canais acessórios e deltas apicais porque esses elementos tornariam o sistema mais complexo e poderiam prejudicar sua utilização.
Código anatômico não é sinônimo de dificuldade clínica.
O método de diagnóstico interfere no código
A anatomia identificada depende do método utilizado.
Método | Capacidade e limitação |
Radiografia periapical | Visão bidimensional com sobreposição |
Radiografias anguladas | Melhoram a separação de trajetos, mas continuam bidimensionais |
CBCT | Permite análise tridimensional clínica, limitada pelo voxel e artefatos |
Micro-CT | Elevada resolução para pesquisa ex vivo |
Magnificação | Permite observação direta da câmara e dos orifícios |
Exploração clínica | Informa permeabilidade e continuidade, mas depende da negociabilidade |
Obturação | Pode revelar confluências e divisões que não eram evidentes inicialmente |
Uma pequena divisão apical pode ser interpretada como:
bifurcação do canal principal;
canal acessório;
ramificação apical;
componente de um delta.
Por isso, a classificação da região apical deve considerar o método e os critérios utilizados para identificação.

Matriz EndoToday para aplicação do Sistema Ahmed
Pergunta clínica | Decisão que orienta |
Qual dente está sendo tratado? | Define a anatomia prevalente inicial |
Quantas raízes são visíveis ou prováveis? | Define a distribuição espacial esperada |
As raízes estão separadas ou fusionadas? | Modifica a interpretação radiográfica e do assoalho |
Quantos orifícios foram localizados? | Define se a exploração inicial está completa |
O número de orifícios explica o número de raízes? | Identifica possíveis canais ainda não localizados |
Um orifício pode esconder mais de um trajeto? | Indica exploração cuidadosa e análise da forma do orifício |
Os canais permanecem separados ou confluem? | Orienta instrumentação, odontometria e obturação |
Existe uma configuração não prevista em Vertucci? | Indica uso de descrição aberta pelo Sistema Ahmed |
O método diagnóstico permite confirmar toda a anatomia? | Define o grau de certeza do código |
A anatomia exige CBCT? | Define necessidade de investigação tridimensional |
O acesso oferece visão suficiente do assoalho? | Define necessidade de extensão seletiva |
A classificação está guiando ou substituindo o diagnóstico? | Evita transformar o código em dogma |
Essa matriz reforça a lógica central:
A imagem sugere. O assoalho orienta. A exploração confirma. A classificação comunica.
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Conteúdo | O que observar |
Como interpretar JCE, assoalho, sulcos e posição dos orifícios | |
Como integrar diagnóstico, imagem e anatomia antes da broca | |
Como a anatomia da raiz mesiovestibular modifica a busca | |
Como raiz mesial, raiz distal, istmos e canais adicionais alteram o acesso | |
Sequência completa da trilha | |
Erros comuns ao estudar ou aplicar o Sistema Ahmed
1. Tratar Ahmed como substituto obrigatório de Vertucci
Os sistemas possuem finalidades e graus de detalhamento diferentes.
A abordagem mais útil é complementar, não excludente.
2. Decorar códigos sem compreender sua construção
A memorização isolada produz confusão.
O código deve ser lido por etapas:
dente;
número de raízes;
posição das raízes;
percurso dos canais.
3. Confundir canal com raiz
Dois canais podem estar em uma ou duas raízes.
A distinção é uma das principais contribuições do sistema.
4. Confundir orifício com canal completo
Um orifício pode se dividir em múltiplos trajetos.
A anatomia não termina na entrada.
5. Acreditar que o código prediz o formato do acesso
O Sistema Ahmed descreve anatomia.
Ele não prescreve uma forma cavitária.
6. Classificar além da capacidade do método diagnóstico
Não se deve afirmar uma anatomia apical detalhada quando o exame utilizado não permite confirmá-la.
7. Ignorar curvatura, istmos e espessura dentinária
Essas características não estão incluídas no código, mas podem determinar a dificuldade clínica.
8. Considerar todo código longo como clinicamente difícil
Complexidade classificatória e dificuldade operatória não são equivalentes.
9. Usar a anatomia complexa para justificar desgaste indiscriminado
A investigação deve ser seletiva e orientada por evidências clínicas.
10. Encerrar a busca quando a anatomia mais frequente é encontrada
A configuração mais comum é uma hipótese inicial, não uma garantia anatômica.
O que este artigo ensina
Este artigo reforça que:
A classificação de Vertucci continua relevante.
Nem toda anatomia cabe nos oito tipos tradicionais.
O Sistema Ahmed integra dente, raízes e canais.
O número antes do dente representa o número de raízes.
A sequência canalicular deve ser lida da região coronária para a apical.
O número de orifícios não representa necessariamente o número final de canais.
Dentes com trajetos semelhantes podem apresentar estruturas radiculares diferentes.
A posição das raízes interfere no planejamento da abertura.
Ahmed apresenta maior capacidade descritiva em anatomias complexas.
A evidência ainda é limitada para alguns grupos, especialmente molares.
O código não informa curvatura, istmos ou dificuldade clínica.
A classificação deve comunicar a anatomia, não substituir o diagnóstico.
A principal mensagem é:
Vertucci organiza padrões. Ahmed descreve o dente. O clínico transforma essa informação em decisão.
Como este artigo se conecta à Trilha de Abertura Coronária
Os artigos anteriores mostraram que:
o acesso começa pelo diagnóstico;
a anatomia externa oferece referências para localizar a anatomia interna;
a junção cemento-esmalte é uma referência importante;
o assoalho apresenta mudanças de cor, sulcos e relações geométricas;
a procura pelos canais não deve ser aleatória.
Este artigo acrescenta uma nova camada:
o dente precisa ser interpretado como uma unidade;
número de canais e número de raízes não são sinônimos;
divisões e confluências modificam o sistema além do orifício;
a anatomia provável deve ser formulada antes e reavaliada durante o acesso.
A partir daqui, a trilha seguirá para o planejamento clínico da abertura.
O objetivo é construir uma sequência lógica:
compreender o mapa, formular a hipótese, planejar o acesso e somente depois iniciar o desgaste.
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Conclusão
O Sistema Ahmed representa uma evolução na comunicação da anatomia radicular e dos canais.
Sua principal contribuição é reunir, em uma única descrição:
o dente;
o número de raízes;
a posição das raízes;
o número de canais;
as divisões;
as confluências;
o percurso dos canais em direção apical.
Em configurações simples, sua informação pode se aproximar daquela fornecida pela classificação de Vertucci.
Em anatomias complexas, sua estrutura aberta permite uma descrição mais detalhada e reduz a necessidade de classificar sistemas como não enquadráveis.
Mas Ahmed não elimina Vertucci.
Também não substitui radiografia, CBCT, magnificação, exploração clínica ou leitura do assoalho.
O código não informa toda a dificuldade do caso.
Não descreve curvatura, istmos, forma transversal, espessura dentinária ou áreas de perigo.
Seu valor está em ensinar que o dente não deve ser reduzido apenas a um tipo.
Para a abertura coronária, a principal consequência é clara:
antes de desenhar a cavidade, o profissional precisa formular uma hipótese sobre quantas raízes existem, onde estão, quantos orifícios devem ser encontrados e como os canais podem se comportar além deles.
A classificação não localiza o canal.
Mas muda onde você decide procurá-lo.
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A anatomia não termina no orifício
O Sistema Ahmed ajuda a interpretar o dente como uma unidade anatômica, conectando raízes, orifícios, canais e forames.
Continue na trilha e transforme essa hipótese em planejamento clínico.

FAQ — Perguntas frequentes sobre o Sistema Ahmed
O que é o Sistema Ahmed?
É um sistema de classificação anatômica que reúne a identificação do dente, o número de raízes e o percurso dos canais radiculares em um único código.
Por que o Sistema Ahmed foi desenvolvido?
Ele foi desenvolvido porque parte das configurações complexas identificadas por métodos tridimensionais não podia ser representada adequadamente pelas classificações tradicionais.
Qual é a diferença entre Ahmed e Vertucci?
Vertucci organiza configurações de canais em tipos. Ahmed descreve o dente, o número e a posição das raízes e o percurso dos canais em cada raiz.
O Sistema Ahmed substitui Vertucci?
Não. Vertucci continua útil para padrões básicos, ensino e comparação com a literatura. Ahmed amplia a descrição quando a anatomia é mais complexa.
Como o código de Ahmed deve ser lido?
O código deve ser lido da região coronária em direção apical. A sequência 1-2-1 representa um canal que se divide em dois e posteriormente volta a confluir.
O que representa o número antes do dente?
Representa o número de raízes presentes naquele dente.
O Sistema Ahmed informa o número de orifícios?
Sim, quando a anatomia foi identificada. Entretanto, nem sempre toda a configuração pode ser determinada antes da exploração clínica.
O Sistema Ahmed determina o formato da abertura coronária?
Não. Ele melhora a hipótese anatômica, mas o desenho do acesso depende da câmara, posição dos orifícios, inclinação dental, restaurações, calcificação e preservação estrutural.
O sistema descreve curvaturas e istmos?
Não. Curvatura, istmos, forma transversal, canais laterais, espessura dentinária e áreas de perigo não são completamente representados pelo código.
Por que o Sistema Ahmed é relevante para pré-molares?
Porque diferencia dentes com o mesmo número de canais, mas com diferentes números e posições de raízes.
O Sistema Ahmed pode ser aplicado a molares?
Sim. Entretanto, a revisão sistemática destacou a necessidade de mais estudos comparativos, especialmente em molares e com diferentes métodos diagnósticos.
É necessário memorizar todos os códigos?
Não. O mais importante é compreender a lógica: dente, número de raízes, posição das raízes e sequência dos canais.
Referências bibliográficas
Ahmed HMA, Versiani MA, De-Deus G, Dummer PMH. A new system for classifying root and root canal morphology. International Endodontic Journal. 2017;50(8):761–770. doi:10.1111/iej.12685.
Ahmed HMA, Rossi-Fedele G, Dummer PMH. Critical analysis of a new system to classify root and canal morphology: a systematic review. Australian Endodontic Journal. 2023;49(3):750–768. doi:10.1111/aej.12780.
Vertucci FJ. Root canal anatomy of the human permanent teeth. Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology. 1984;58(5):589–599.
Weine FS, Healey HJ, Gerstein H, Evanson L. Canal configuration in the mesiobuccal root of the maxillary first molar and its endodontic significance. Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology. 1969;28(3):419–425.
Krasner P, Rankow HJ. Anatomy of the pulp-chamber floor. Journal of Endodontics. 2004;30(1):5–16.
Sobre o autor

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.
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