Diagnóstico pulpar em Endodontia: o que frio, calor e EPT realmente dizem.
- Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges

- há 19 horas
- 15 min de leitura

Um dos erros mais frequentes na clínica endodôntica é confundir a resposta ao teste pulpar com o diagnóstico em si.
O paciente sentiu dor ao frio? Isso não confirma, sozinho, pulpite irreversível.
O dente não respondeu ao frio? Isso não confirma, sozinho, necrose pulpar.
O diagnóstico pulpar confiável nasce da integração entre história da dor, queixa principal, testes térmicos, teste elétrico pulpar, exame clínico, profundidade da lesão, restaurações existentes, histórico de trauma, imagem radiográfica e comparação com dentes controle.
O teste é uma peça do raciocínio, não o raciocínio inteiro.
Resposta rápida
O diagnóstico pulpar em Endodontia é a classificação clínica da condição biológica da polpa dentária.
Ele pode indicar:
polpa normal;
pulpite reversível;
pulpite irreversível sintomática;
pulpite irreversível assintomática;
necrose pulpar;
tratamento endodôntico prévio;
terapia previamente iniciada.
Para ser confiável, o diagnóstico pulpar deve integrar história clínica, testes térmicos, teste elétrico pulpar, exame clínico, radiografia e comparação com dentes controle.
Nenhum teste isolado deve ser usado sozinho para fechar o diagnóstico.
Resumo em 5 pontos
Testes pulpares não são diagnóstico; são dados clínicos.
Dor ao frio não confirma pulpite irreversível sozinha.
Ausência de resposta ao frio não confirma necrose isoladamente.
EPT avalia resposta neural, não vitalidade vascular.
O diagnóstico endodôntico completo exige diagnóstico pulpar + diagnóstico periapical.
O que é diagnóstico pulpar, de fato?
Diagnóstico pulpar em Endodontia é a classificação clínica da condição biológica da polpa dentária.
Ele não mede diretamente o grau histológico da inflamação, porque isso exigiria biópsia.
O que o clínico faz, na prática, é construir uma inferência baseada em evidências indiretas que precisam convergir para um mesmo quadro.
Esse ponto é fundamental: diagnóstico clínico pulpar não é diagnóstico histológico direto.
O diagnóstico clínico é uma interpretação baseada em anamnese clínica, sinais, sintomas, testes e contexto.
Por isso, o resultado do teste ao frio, ao calor ou ao EPT não deve ser tratado como uma sentença. Ele deve ser tratado como uma informação dentro de um raciocínio maior.
Classificação dos diagnósticos pulpares
A American Association of Endodontists organiza os diagnósticos pulpares em categorias clínicas que ajudam a padronizar a comunicação profissional, o prontuário e a tomada de decisão.
Diagnóstico pulpar | Interpretação clínica |
Polpa normal | Sem sinais ou sintomas de doença pulpar; resposta breve ao frio e semelhante aos dentes controle. |
Pulpite reversível | Inflamação pulpar com expectativa de reparo após remoção do fator irritante; dor provocada, curta e reversível. |
Pulpite irreversível sintomática | Polpa vital inflamada sem expectativa clínica de reparo; dor espontânea, prolongada, noturna ou referida. |
Pulpite irreversível assintomática | Polpa vital inflamada, sem sintomas clínicos relevantes, mas sem expectativa clínica de reparo; pode ocorrer em exposições pulpares ou lesões profundas. |
Necrose pulpar | Morte parcial ou total da polpa; ausência de resposta aos testes, interpretada junto ao contexto clínico. |
Tratamento endodôntico prévio | Dente com canais obturados; a análise passa a depender do diagnóstico periapical e da qualidade do tratamento. |
Terapia previamente iniciada | Tratamento iniciado e não finalizado, como abertura, pulpotomia, pulpectomia ou medicação intracanal. |
Essas categorias existem para que o clínico comunique melhor o caso, registre corretamente o prontuário e escolha a conduta adequada.
Mas elas não são diagnóstico completo. Quando a dor não é bem localizada, o risco de tratar o dente errado aumenta. Esse tema foi aprofundado no post sobre dor referida em Endodontia.
Por que o diagnóstico pulpar isolado não é suficiente?
Porque a polpa e os tecidos periapicais podem responder de formas diferentes no mesmo dente.
Um dente pode ter pulpite irreversível sintomática com tecidos apicais ainda normais.
Outro pode ter necrose pulpar sem nenhum sintoma, mas com radiolucidez periapical evidente.
Um terceiro pode ter necrose, edema, dor à palpação e abscesso apical agudo em progressão.
São situações biologicamente distintas, com urgência, prognóstico e conduta diferentes.
Por isso, o diagnóstico endodôntico completo precisa unir sempre duas dimensões:

Na prática, o registro correto no prontuário fica assim:
Diagnóstico pulpar | Diagnóstico periapical |
Pulpite irreversível sintomática | Tecidos apicais normais |
Necrose pulpar | Periodontite apical sintomática |
Necrose pulpar | Periodontite apical assintomática |
Tratamento endodôntico prévio | Periodontite apical assintomática |
Terapia previamente iniciada | Abscesso apical agudo |
Registrar apenas “pulpite” ou “necrose” deixa metade do quadro sem descrição.
O que os testes pulpares realmente avaliam?

Os testes térmicos e o teste elétrico pulpar avaliam principalmente a resposta sensorial ou neural da polpa, não a sua vitalidade vascular direta.
Isso tem uma implicação importante: existem falso-positivos e falso-negativos que precisam ser considerados.
Um dente pode responder ao frio e ainda assim estar em pulpite irreversível sintomática.
Um dente pode não responder ao frio e ainda assim a conclusão de necrose precisar de confirmação.
O teste não é diagnóstico. O teste é uma evidência.
Teste ao frio
O teste ao frio é o teste pulpar mais utilizado na clínica endodôntica.
Sua interpretação deve considerar:
intensidade da resposta;
duração da dor;
comparação com dentes controle;
reprodução da queixa principal;
presença ou ausência de dor espontânea;
contexto restaurador e radiográfico.
Uma resposta breve e semelhante aos dentes controle é compatível com polpa normal.
Uma resposta aumentada, mas ainda curta, pode ocorrer em pulpite reversível.
Uma resposta intensa que persiste após a remoção do estímulo aumenta a suspeita de pulpite irreversível sintomática.
Ausência de resposta levanta a hipótese de necrose pulpar, mas não a confirma sozinha.
O teste ao frio deve sempre ser comparativo. Testar primeiro dentes controle, vizinhos e contralaterais, é parte do protocolo.
Teste ao calor
O teste ao calor pode ser útil quando o paciente relata dor desencadeada por bebidas ou alimentos quentes.
Dor prolongada ao calor, especialmente quando associada a alívio com frio, aumenta a suspeita de inflamação irreversível, necrose parcial ou quadro pulpar em transição.
Ainda assim, o teste ao calor não deve ser o único critério diagnóstico.
Ele deve ser interpretado junto com:
história da dor;
resposta ao frio;
teste elétrico pulpar;
exame clínico;
radiografia;
percussão;
palpação;
condição periodontal;
reprodução da queixa principal.
Teste elétrico pulpar — EPT
O teste elétrico pulpar, ou EPT, avalia resposta neural.
Ele não confirma vitalidade vascular.
Um EPT positivo indica que há fibras nervosas capazes de responder ao estímulo, mas não garante que a polpa esteja saudável.
Um EPT negativo aumenta a suspeita de necrose, mas não confirma necrose isoladamente.
O EPT é especialmente útil quando os testes térmicos são inconclusivos, mas seu resultado precisa ser interpretado com cautela.
Podem alterar a resposta ao EPT:
calcificações;
restaurações extensas;
coroas protéticas;
trauma recente;
dentes com ápice imaturo;
isolamento inadequado;
erro técnico;
ansiedade ou dificuldade de percepção do paciente.
Achados clínicos no diagnóstico pulpar: o que sugerem e o que não provam
Achado | Interpretação inicial | Cuidado clínico |
Dor curta ao frio | Compatível com polpa normal ou pulpite reversível | Comparar com dentes controle |
Dor prolongada ao frio | Sugere pulpite irreversível sintomática | Avaliar dor espontânea e queixa principal |
Dor espontânea | Sinal de maior gravidade pulpar | Investigar dor referida e origem real |
Dor ao calor com alívio ao frio | Sugere inflamação irreversível ou quadro pulpar avançado | Não usar como critério isolado |
Ausência de resposta ao frio | Sugere necrose ou redução da resposta neural | Confirmar com outros testes |
EPT positivo | Indica resposta neural | Não prova saúde pulpar |
EPT negativo | Indica ausência de resposta neural | Não confirma necrose sozinho |
Cárie profunda | Fator de risco para comprometimento pulpar | Não é diagnóstico isolado |
Quando suspeitar de pulpite irreversível sintomática?
A pulpite irreversível sintomática é uma das condições que mais gera dúvida no diagnóstico, porque os sintomas podem ser intensos, difusos e difíceis de localizar.
Os achados que mais aumentam a suspeita são:
dor espontânea, sem necessidade de estímulo externo;
dor que persiste após a remoção do estímulo térmico;
dor noturna ou que piora ao deitar;
dor referida para outros dentes, ouvido, face ou cabeça;
dor intensa ao calor com alívio ao frio;
resposta exagerada ao teste térmico;
dificuldade do paciente em localizar exatamente o dente causal.
O risco da dor referida merece atenção especial.
O paciente pode apontar para uma região enquanto o dente causador está em outro local.
Por isso, o clínico não deve definir o dente apenas pela queixa verbal. A dor precisa ser reproduzida pelos testes no dente diagnosticado.
Se o teste não reproduz a queixa principal, o diagnóstico ainda não está suficientemente seguro.
Polpa normal
A polpa normal é uma categoria clínica na qual o dente não apresenta sinais ou sintomas compatíveis com doença pulpar.
A resposta ao frio costuma ser breve, não prolongada e semelhante aos dentes controle.
Não há dor espontânea, dor persistente, dor referida ou sinais clínicos que indiquem inflamação pulpar relevante.
No entanto, polpa normal não significa ausência absoluta de alterações histológicas microscópicas.
Significa ausência de evidência clínica de doença pulpar.
Exemplo clínico
Paciente sem queixa dolorosa. Pré-molar hígido ou com restauração satisfatória. Resposta breve ao frio, semelhante aos dentes controle. Sem dor à percussão ou palpação. Radiografia sem alteração periapical.
Diagnóstico: polpa normal + tecidos apicais normais.
Pulpite reversível
A pulpite reversível é uma inflamação pulpar em que se espera recuperação da polpa após remoção do fator irritante.
Geralmente está associada a:
cárie inicial ou moderada;
dentina exposta;
restauração infiltrada;
sensibilidade cervical;
trauma restaurador recente;
estímulo térmico;
estímulo osmótico, como doce;
preparo cavitário recente.
A dor costuma ser provocada, curta e desaparece rapidamente após a remoção do estímulo.
O ponto central é:
Na pulpite reversível, a dor não costuma ser espontânea nem prolongada.
Se a dor é espontânea, intensa, prolongada ou acorda o paciente à noite, o diagnóstico deve ser reavaliado.
Exemplo clínico
Paciente relata sensibilidade ao frio em pré-molar com restauração infiltrada.
A dor dura poucos segundos e desaparece após a remoção do estímulo.
Não há dor espontânea, a percussão é negativa e a radiografia não mostra alteração periapical.
Diagnóstico: pulpite reversível + tecidos apicais normais.
Pulpite irreversível sintomática
A pulpite irreversível sintomática é uma condição na qual a polpa vital está inflamada e não apresenta expectativa clínica de reparo.
Os achados mais importantes são:
dor espontânea;
dor prolongada após estímulo térmico;
dor intensa;
dor noturna;
dor referida;
dor difícil de localizar;
dor que pode piorar em decúbito;
resposta térmica exagerada e persistente.
A resposta ao frio pode ser exagerada e persistente.
Em alguns casos, o calor desencadeia dor intensa e o frio pode aliviar temporariamente.
Frase de alerta
Dor prolongada após a remoção do estímulo térmico é um dos sinais clínicos mais importantes de pulpite irreversível sintomática, mas ainda precisa ser interpretada junto com a queixa principal e os demais achados.
Exemplo clínico
Paciente relata dor espontânea no molar inferior, piora com frio e dor que permanece após a remoção do estímulo.
Não há dor à percussão. Radiografia mostra restauração profunda próxima à câmara pulpar, sem alteração periapical evidente.
Diagnóstico: pulpite irreversível sintomática + tecidos apicais normais.
Pulpite irreversível assintomática
A pulpite irreversível assintomática é uma das categorias que mais confundem alunos e clínicos.
Nesse caso, a polpa ainda está vital, mas a condição clínica indica que ela não tem expectativa de reparo, mesmo sem dor espontânea relevante.
Isso pode ocorrer em dentes com:
cárie profunda;
exposição pulpar provável;
exposição pulpar durante remoção de cárie;
trauma;
fratura coronária com exposição;
lesão extensa próxima à polpa;
achados clínicos que indiquem comprometimento pulpar avançado.
O paciente pode não relatar dor, mas o quadro clínico indica necessidade de intervenção endodôntica ou de terapia pulpar apropriada.
Exemplo clínico
Paciente sem dor espontânea. Molar inferior com cárie profunda e exposição pulpar durante a remoção do tecido cariado. Sangramento pulpar abundante e dificuldade de controle, associado a achados clínicos compatíveis com inflamação avançada.
Diagnóstico: pulpite irreversível assintomática + tecidos apicais normais.
Necrose pulpar
A necrose pulpar é uma categoria clínica que indica morte parcial ou total da polpa dentária.
Na prática, costuma estar associada à ausência de resposta aos testes pulpares.
Porém, a ausência de resposta não deve ser interpretada isoladamente.
Canais calcificados, dentes traumatizados, ápices imaturos, restaurações extensas, coroas, erro técnico no teste ou ansiedade do paciente podem alterar a confiabilidade da resposta.
Por isso, o diagnóstico de necrose deve considerar:
ausência de resposta ao frio;
ausência de resposta ao EPT;
histórico de trauma;
cárie profunda;
alteração cromática;
restauração extensa;
radiolucidez periapical;
fístula;
dor à percussão;
palpação positiva;
comparação com dentes controle.
Frase importante
Ausência de resposta ao frio não é sinônimo automático de necrose pulpar.
É uma evidência forte apenas quando converge com história clínica, exame, radiografia e comparação com dentes controle.
Exemplo clínico
Paciente sem dor espontânea. Incisivo superior escurecido, com histórico de trauma antigo, ausência de resposta ao frio e ao EPT, e radiolucidez periapical.
Diagnóstico: necrose pulpar + periodontite apical assintomática.
Tratamento endodôntico prévio
Tratamento endodôntico prévio é uma categoria diagnóstica pulpar utilizada quando o dente já apresenta canais radiculares obturados.
Nesse caso, o diagnóstico pulpar não é polpa normal, pulpite ou necrose.
A condição pulpar original já foi substituída por uma condição de dente previamente tratado.
A avaliação clínica passa a depender principalmente do diagnóstico periapical, da qualidade do tratamento anterior, da restauração coronária e dos sinais ou sintomas atuais.
Exemplo clínico
Paciente apresenta molar inferior com tratamento endodôntico prévio, dor à mastigação e radiolucidez periapical associada à raiz mesial.
Diagnóstico: tratamento endodôntico prévio + periodontite apical sintomática.
Terapia previamente iniciada
Terapia previamente iniciada é a categoria utilizada quando o dente recebeu algum procedimento endodôntico prévio, mas o tratamento não foi concluído.
Isso pode incluir:
abertura coronária;
pulpotomia;
pulpectomia parcial;
instrumentação incompleta;
medicação intracanal;
acesso de urgência;
tratamento iniciado por outro profissional.
É uma categoria importante porque evita registrar incorretamente o dente como necrose, pulpite ou tratamento endodôntico completo.
Exemplo clínico
Paciente chega com dente aberto previamente em atendimento de urgência, medicação intracanal e tratamento endodôntico ainda não finalizado.
Diagnóstico: terapia previamente iniciada + diagnóstico periapical correspondente ao caso.
Cárie profunda não é diagnóstico pulpar
Este é um erro comum.
Cárie profunda é fator etiológico e sinal de risco.
O diagnóstico depende da resposta clínica da polpa.
Um dente com cárie profunda pode apresentar:
pulpite reversível;
pulpite irreversível sintomática;
pulpite irreversível assintomática;
necrose pulpar;
ou resposta pulpar difícil de classificar sem investigação complementar.
A profundidade da lesão precisa ser interpretada junto com sintomas, testes, exposição pulpar, imagem radiográfica e condição restauradora.
Ver cárie profunda na radiografia e concluir automaticamente “precisa tratar canal” é o tipo de raciocínio que leva a tratamentos desnecessários.
Restaurações extensas, coroas e calcificações podem confundir os testes
Nem sempre a resposta pulpar é fácil de obter.
Dentes com restaurações extensas, coroas protéticas, calcificações, histórico de trauma ou grande deposição de dentina podem responder de forma alterada.
Nesses casos, o clínico deve ter cautela antes de concluir necrose pulpar.
A ausência de resposta pode ser consequência de:
isolamento inadequado;
estímulo mal aplicado;
coroa ou restauração impedindo transmissão térmica;
calcificação pulpar;
trauma recente;
dente com ápice imaturo;
erro técnico;
ansiedade ou dificuldade de percepção do paciente.
Quando o teste é inconclusivo, o ideal é repetir, comparar e correlacionar.
Erros frequentes que comprometem o diagnóstico pulpar
Crença equivocada | Por que é um problema |
“Respondeu ao frio, então está bem” | Pulpite irreversível pode gerar resposta intensa ao frio. |
“Não respondeu ao frio, então é necrose” | Calcificação, coroa, técnica inadequada e trauma podem suprimir a resposta. |
“Cárie profunda indica necessidade de canal” | Cárie profunda é fator de risco, não diagnóstico pulpar. |
“EPT positivo significa polpa saudável” | EPT avalia resposta neural, não grau de inflamação. |
“A dor está no dente mais destruído” | Dor referida pode confundir completamente a localização. |
“Teste positivo fecha o diagnóstico” | O teste fecha uma hipótese, não o raciocínio clínico. |
“Teste negativo fecha necrose” | Teste negativo aumenta a suspeita, mas precisa de confirmação clínica. |
Como registrar o diagnóstico no prontuário
O registro deve incluir:
diagnóstico pulpar;
diagnóstico periapical;
justificativa baseada nos achados que sustentam a conclusão.
Exemplo 1
Diagnóstico pulpar: pulpite reversível.
Diagnóstico periapical: tecidos apicais normais.
Justificativa: dor provocada ao frio de curta duração, ausência de dor espontânea, percussão negativa, sem alteração periapical radiográfica.
Exemplo 2
Diagnóstico pulpar: pulpite irreversível sintomática.
Diagnóstico periapical: tecidos apicais normais.
Justificativa: dor espontânea, dor prolongada ao frio, dor noturna, percussão e palpação negativas.
Exemplo 3
Diagnóstico pulpar: necrose pulpar.
Diagnóstico periapical: periodontite apical assintomática.
Justificativa: ausência de resposta ao frio e ao EPT, radiolucidez periapical, sem sintomatologia espontânea.
Exemplo 4
Diagnóstico pulpar: tratamento endodôntico prévio.
Diagnóstico periapical: periodontite apical sintomática.
Justificativa: obturação endodôntica prévia, dor à mastigação, percussão positiva, espessamento do ligamento periodontal.
Exemplo 5
Diagnóstico pulpar: terapia previamente iniciada.
Diagnóstico periapical: tecidos apicais normais.
Justificativa: dente com abertura coronária prévia e tratamento endodôntico iniciado, sem dor à percussão, sem dor à palpação e sem alteração periapical radiográfica.
Quando os achados não convergem, o registro mais honesto é:
Diagnóstico inconclusivo — investigação complementar necessária.
Isso é clinicamente mais responsável do que iniciar tratamento endodôntico sem evidência suficiente.

Checklist EndoToday para fechar o diagnóstico pulpar com segurança
Antes de registrar o diagnóstico, responda:
Qual é a queixa principal do paciente?
A dor é espontânea ou apenas provocada?
A dor persiste após a remoção do estímulo?
O teste ao frio reproduziu a queixa principal?
O teste ao calor foi necessário? O que mostrou?
O EPT confirmou ou contradisse os testes térmicos?
Os resultados foram comparados com dentes controle?
Há cárie profunda, restauração extensa, trinca ou histórico de trauma?
A radiografia é compatível com a hipótese diagnóstica?
O diagnóstico pulpar e o periapical estão coerentes entre si?
O diagnóstico explica a dor que o paciente está sentindo?
Quando o conjunto aponta para a mesma direção, o diagnóstico está bem fundamentado.
Quando os achados se contradizem, o caso pede mais investigação, não uma decisão precipitada.
Comentário clínico EndoToday
O diagnóstico pulpar não nasce do teste. Nasce da interpretação.
Frio, calor e EPT entregam respostas. Mas quem transforma essas respostas em diagnóstico é o raciocínio clínico aplicado àquele paciente, àquele dente, naquele contexto.
O erro mais perigoso é tratar um teste como se ele fosse uma sentença.
Dor ao frio, ausência de resposta, EPT positivo, cárie profunda ou dor espontânea só ganham valor real quando convergem com a história clínica, o exame local, a radiografia, os dentes controle e a queixa principal.
Na Endodontia, diagnosticar bem não é decorar categorias.
É entender a biologia por trás dos sinais.

A lição central
O diagnóstico pulpar nunca deve partir de um dado isolado.
O frio sozinho engana.
O calor sozinho engana.
O EPT sozinho engana.
A cárie profunda sozinha engana.
A dor espontânea sem localização também pode enganar.
A pergunta que deve guiar o raciocínio é:
O conjunto de história clínica, testes pulpares, exame clínico e imagem aponta para a mesma condição pulpar?
Quando a resposta é sim, o diagnóstico fica mais seguro.
Quando a resposta é não, o caso pede prudência.
Saber diagnosticar a polpa não é apenas saber se o dente respondeu ao frio.
É compreender se aquela polpa ainda tem capacidade biológica de reparo, se já ultrapassou esse limite ou se já perdeu sua vitalidade — e o que isso significa para o plano de tratamento de quem está na cadeira.
Essa distinção é o que separa tratar um teste positivo de tratar um paciente real.


Perguntas frequentes sobre diagnóstico pulpar em Endodontia
O que é diagnóstico pulpar em Endodontia?
Diagnóstico pulpar em Endodontia é a classificação clínica da condição da polpa dentária, feita pela integração entre história clínica, testes pulpares, exame clínico, radiografia e comparação com dentes controle.
Quais são os diagnósticos pulpares mais usados?
Os diagnósticos pulpares clássicos incluem polpa normal, pulpite reversível, pulpite irreversível sintomática, pulpite irreversível assintomática, necrose pulpar, tratamento endodôntico prévio e terapia previamente iniciada.
Dor ao frio significa pulpite irreversível?
Não necessariamente. Dor ao frio pode ocorrer em polpa normal, pulpite reversível ou pulpite irreversível. O tempo de duração, a intensidade, a persistência após a remoção do estímulo, a presença de dor espontânea e a comparação com dentes controle são fundamentais.
Dor prolongada ao frio indica o quê?
Dor prolongada após a remoção do estímulo térmico aumenta a suspeita de pulpite irreversível sintomática, especialmente quando associada a dor espontânea, dor noturna ou dor referida.
Ausência de resposta ao frio confirma necrose pulpar?
Não isoladamente. A ausência de resposta ao frio sugere necrose pulpar, mas precisa ser confirmada com outros testes, comparação com dentes controle, história clínica e achados radiográficos.
O teste elétrico pulpar confirma vitalidade?
Não. O teste elétrico pulpar avalia resposta neural, não vascularização pulpar. Portanto, ele não confirma vitalidade biológica completa nem informa o grau de inflamação.
Qual é a diferença entre pulpite reversível e pulpite irreversível?
Na pulpite reversível, a inflamação tende a regredir após a remoção do irritante. Na pulpite irreversível, a polpa está inflamada de forma mais severa e não apresenta expectativa clínica de reparo.
Cárie profunda sempre indica tratamento endodôntico?
Não. Cárie profunda é um fator de risco para inflamação pulpar, mas não é diagnóstico isolado. A decisão depende da vitalidade pulpar, sintomas, exposição, possibilidade restauradora e achados clínicos.
Diagnóstico pulpar e diagnóstico periapical são a mesma coisa?
Não. O diagnóstico pulpar avalia a condição da polpa. O diagnóstico periapical avalia a resposta dos tecidos ao redor do ápice radicular. O diagnóstico endodôntico completo deve registrar os dois.
O que é terapia previamente iniciada?
Terapia previamente iniciada é a categoria usada quando o dente recebeu algum procedimento endodôntico, como abertura coronária, pulpotomia, pulpectomia ou medicação intracanal, mas o tratamento ainda não foi concluído.
Este post faz parte da trilha Diagnóstico Endodôntico da EndoToday
Este conteúdo integra a trilha de estudo sobre Diagnóstico Endodôntico.
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11. Trincas dentárias — em breve
Referências
American Association of Endodontists. Endodontic Diagnosis. AAE.
American Association of Endodontists. AAE Consensus Conference Recommended Diagnostic Terminology. AAE.
Duncan HF, Kirkevang LL, Peters OA, El-Karim I, Krastl G, Del Fabbro M, Chong BS, et al. Treatment of pulpal and apical disease: The European Society of Endodontology S3-level clinical practice guideline. International Endodontic Journal. 2023;56(S3):238–295.
Glickman GN. AAE Consensus Conference on Diagnostic Terminology: background and perspectives. Journal of Endodontics. 2009;35(12):1619–1620.
Levin LG, Law AS, Holland GR, Abbott PV, Roda RS. Identify and define all diagnostic terms for pulpal health and disease states. Journal of Endodontics. 2009;35(12):1645–1657.
As fontes principais para a terminologia diagnóstica e para a diretriz clínica estão disponíveis nos documentos da AAE e no resumo indexado da diretriz S3 da ESE.
Sobre o autor

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.



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