Urgências Endodônticas: diagnóstico da dor e conduta clínica passo a passo (Guia 2.0)
- Endotoday
- 15 de fev.
- 10 min de leitura
Atualizado: há 3 dias

Resposta em 20 segundos (para a “cadeira quente”)
Prioridade: controle local do foco (acesso/drenagem quando indicada) + analgesia racional.
Antibiótico: não é rotina; é adjuvante quando houver sinais sistêmicos/disseminação ou risco aumentado.
Erro crítico: prescrever antibiótico para “substituir” intervenção local.
As urgências endodônticas representam um dos cenários clínicos mais desafiadores da Odontologia: dor intensa, pressão por alívio imediato, risco de decisões precipitadas e, frequentemente, falhas de anestesia e prescrições inadequadas. O objetivo deste HUB é oferecer um algoritmo clínico prático, mas sustentado por diretrizes e evidências atuais, para orientar o cirurgião-dentista desde a triagem até a conduta local e o manejo medicamentoso racional.
Diretrizes internacionais convergem em um princípio central: na maioria das urgências endodônticas, a prioridade é a intervenção local (tratamento operatório) e não o antibiótico. Antibióticos são adjuvantes e indicados em situações específicas, sobretudo quando há sinais sistêmicos ou disseminação. Referências-chave:
AAE (Guidance on Systemic Antibiotics in Endodontics) e ADA (Guideline: dental pain and swelling), além do posicionamento da ESE sobre antibióticos em endodontia.
Imersão Emergência Endodôntica (Abril/2026 • Presencial AORP Ribeirão Preto–SP — informações no WhatsApp:

Como usar este POST (em 2 minutos)
Se você está no consultório com “cadeira quente”, siga o Algoritmo em 7 passos.
Se precisa aprofundar um ponto, utilize os links dos satélites (boxes “Leia também”).
Ao final, utilize a FAQ para dúvidas recorrentes e para padronizar condutas na equipe.
Algoritmo clínico em 7 passos para urgência endodôntica
Passo 1 — Triagem de risco e sinais de alarme (primeiros 60–90 segundos)
Antes de qualquer procedimento, identifique sinais de gravidade que exigem conduta ampliada (e, em alguns casos, encaminhamento médico/hospitalar):
Sinais de alarme:
febre, calafrios, mal-estar importante
edema difuso e progressivo (celulite), assimetria facial crescente
trismo importante, disfagia, dificuldade respiratória
sinais de disseminação para espaços faciais
imunossupressão relevante ou comorbidades descompensadas
Conduta geral: em presença de sinais sistêmicos/disseminação, o antibiótico pode ser indicado como adjuvante, porém nunca substitui a necessidade de controle local do foco (drenagem, limpeza e descompressão quando indicadas).

Passo 2 — Anamnese dirigida (as perguntas que mudam o diagnóstico)
Faça perguntas objetivas, com foco em padrão de dor e gatilhos:
Dor provocada ou espontânea ?
Dor ao frio e duração após o estímulo (segundos vs minutos)?
Dor ao calor? Alívio com frio?
Dor ao mastigar/percutir? Sensação de “dente alto”?
Dor localizada ou difusa/referida?
História de trauma, restaurações profundas, retratamento, bruxismo/trinca?
Uso prévio de analgésicos/anti-inflamatórios/antibióticos e alergias?
Em urgência, a anamnese não é “completa” — ela é direcionada para decisão rápida.

Passo 3 — Exame clínico objetivo (sequência recomendada)
Siga uma sequência padrão para reduzir erro diagnóstico:
Inspeção: cárie profunda, restauração infiltrada, fratura/trinca, fístula, edema.
Palpação (vestíbulo/mucosa) e avaliação do edema.
Percussão vertical e horizontal.
Teste de mordida (suspeita de trinca).
Sondagem periodontal focal (lesão endo-perio/fratura radicular).
Testes pulpares: frio e/ou elétrico, sempre comparando com dente controle.
Leitura crítica: radiografia isolada pode subestimar inflamação pulpar. O fechamento diagnóstico em urgência exige testes de sensibilidade.

✅ Post recomendado (diagnóstico pulpar):
Passo 4 — Exame de imagem: RX periapical (e quando CBCT entra)
Faça RX periapical com angulações diferentes quando necessário.
Considere CBCT quando houver: suspeita de trinca/fratura, anatomia complexa, reabsorções, lesões extensas, falhas diagnósticas persistentes ou necessidade de planejamento avançado.
✅ Post recomendado
Passo 5 — Fechamento diagnóstico rápido (matriz clínica prática)
A conduta muda radicalmente conforme o eixo polpa vital inflamada vs polpa necrótica infectada.
Cenário A — Polpa vital inflamada (frequentemente pulpite irreversível)
Padrões comuns:
teste ao frio geralmente positivo e frequentemente prolongado/intenso
dor espontânea, difícil de localizar, pode piorar ao deitar
radiografia pode ser normal ou pouco expressiva no início
Objetivo da urgência: reduzir estímulo inflamatório e descompressão quando indicada, com controle efetivo da dor.
Condutas operatórias possíveis (dependem do caso e do plano definitivo):
Urgência em Biopulpectomia — Protocolo clínico (passo a passo revisado)

1) Diagnóstico e decisão de urgência (antes da turbina)
Confirmar quadro compatível com pulpite irreversível: dor espontânea, dor persistente a frio/calor, dor noturna, alívio parcial com analgésico, etc.
Testes: frio, percussão, palpação, sondagem periodontal seletiva, radiografia (e CBCT se suspeita anatômica/iatrogenia).
Objetivo declarado ao paciente: “Hoje vamos controlar a dor e remover o tecido inflamado; o tratamento definitivo pode ser concluído hoje ou na próxima sessão, dependendo das condições.”
2) Anestesia “de urgência” (estratégia para pulpite)
Anestesia profunda é a chave do sucesso.
Em pulpite, bloqueios podem falhar; tenha plano B:
suplementação intraligamentar,
intrapulpar (se necessário; técnica e pressão corretas),
reforço infiltrativo quando aplicável.
Evitar “insistir no acesso” com anestesia incompleta — isso é a principal fonte de trauma e aversão do paciente.
3) Isolamento absoluto e acesso conservador
Isolamento absoluto obrigatório.
Acesso com foco em:
localizar todos os canais,
evitar degraus e perfurações,
criar um “corredor” que permita instrumentação com controle.
4) Pulpotomia coronária (quando indicado) ou pulpectomia imediata
Em urgência, você tem dois caminhos tecnicamente corretos:
A) Pulpotomia coronária (controle rápido de dor e sangramento; útil quando tempo é curto)
B) Pulpectomia (remoção completa da polpa radicular no mesmo atendimento)
Em biopulpectomia, pulpotomia é subestimada: se bem feita e bem selada, alivia dor de forma robusta e segura.
5) Determinação do comprimento de trabalho e preparo inicial
Sempre que possível:
obter comprimento de trabalho com localizador foraminal + confirmação radiográfica quando necessário.
Remover polpa radicular com técnica progressiva, sem “arrancar” tecido:
criação de glide path suave quando indicado,
instrumentação compatível com anatomia (sem forçar).
6) Irrigação: segura, mas “sem exagero químico”
Em polpa vital, o foco é lavar, remover debris e controlar sangramento, não “desinfecção de necrose”.
Irrigação recomendável:
NaOCl (concentração usual do seu protocolo, indico a 2,5%), com técnica segura (agulha lateral, sem travar).
Pode alternar com soro/água destilada para conforto e controle.
Ativação pode ser útil, mas sem agressividade, porque a dor é o parâmetro crítico aqui.
7) Decisão: concluir o tratamento hoje ou agendar (com critério)
Concluir hoje se:
anestesia estável,
canais negociados e preparados de forma adequada,
controle de sangramento e umidade,
tempo clínico suficiente para obturação com qualidade.
Adiar (segunda sessão) se:
anestesia instável,
hemorragia intrarradicular persistente que impede preparo/obturação segura,
dificuldade anatômica (calcificações, canais adicionais suspeitos, etc.),
necessidade de tempo para instrumentar com previsibilidade.
8) Medicação intracanal e selamento (se NÃO obturar no mesmo dia)
Opção preferencial :
hidróxido de cálcio
Indicação: se você vai manter o dente aberto por sessão futura e quer um curativo de baixa controvérsia.
Ação esperada aqui é mais “controle biológico e estabilidade do meio” do que “desinfecção profunda”.
Erro clássico: tentar resolver pulpite com antibiótico. Diretrizes não sustentam antibiótico para dor pulpar sem sinais sistêmicos.

Cenário B — Polpa necrótica / infecção endodôntica (com ou sem abscesso)
Padrões comuns:
testes pulpares frequentemente negativos
dor à percussão, sensação de “dente alto”
pode haver edema localizado e/ou fístula
radiolucidez periapical pode estar presente ou ausente (dependendo do tempo)
Objetivo da urgência: controle local do foco, redução de carga infecciosa e drenagem quando indicada. Condutas operatórias recomendadas:
acesso, irrigação e instrumentação inicial conservadora e segura
drenagem quando houver (via canal quando possível; incisão/drenagem quando indicada)
selamento provisório adequado e retorno programado para finalização
Necrose pulpar + abscesso (urgência endodôntica) — Protocolo clínico

1) Diagnóstico e estratificação do abscesso
Objetivo: distinguir o que é endodôntico (origem pulpar) e definir gravidade.
1.1. Coletar sinais e sintomas-chave
Dor intensa à mastigação/percussão, sensação de “dente alto”.
Edema localizado (vestibular/palatino/lingual) e/ou fístula.
Teste de sensibilidade pulpar negativo (frio/eletricidade), compatível com necrose.
Mobilidade e sondagem: excluir fratura/lesão periodontal primária.
1.2. Classificar a gravidade clínica
Abscesso localizado sem sinais sistêmicos
→ foco no controle local (drenagem + desinfecção + selamento).
Abscesso com sinais sistêmicos/risco de disseminação
→ considerar antibiótico adjuvante e possível encaminhamento:
febre, mal-estar, linfadenopatia, celulite difusa, trismo, disfagia, comprometimento de via aérea, imunossupressão, rápida progressão.
Ponto crítico: antibiótico não substitui drenagem e desinfecção intracanal.
2) Anestesia e controle do campo
Isolamento absoluto obrigatório (especialmente em infecção purulenta para controle de contaminação).
Anestesia pode falhar em ambiente ácido; em geral:
bloqueio + suplementações (infiltração, intraligamentar, intraóssea onde disponível).
Evitar “abrir sem anestesia adequada” — aumenta extrusão, dor pós-operatória e iatrogenias.
3) Acesso endodôntico e obtenção de drenagem
Objetivo: reduzir pressão/inflamação e criar via de escape.
3.1. Acesso e localização dos canais
Acesso amplo o suficiente para não travar irrigação e permitir aspiração.
Remover tecido necrótico e detritos coronários.
3.2. Drenagem por via intracanal (se houver exsudato)
Permitir drenagem passiva pelo canal, com:
irrigação suave,
aspiração frequente,
sem “ordenha apical”.
Se houver flutuação evidente em tecidos moles (edema flutuante):
incisão e drenagem (I&D) pode ser indicada (quando você tem treinamento e condições), associada ao tratamento endodôntico.
Conduta a evitar: “deixar o dente aberto para drenar”. Isso aumenta reinfecção e piora prognóstico. O correto é drenar e selar.
4) Comprimento de trabalho e instrumentação (com segurança biológica)
Objetivo: reduzir carga microbiana sem empurrar conteúdo infectado para além do ápice.
Determinar comprimento de trabalho preferencialmente com localizador foraminal + radiografia quando necessário.
Instrumentação:
priorizar patência e glide path com delicadeza (quando indicado),
evitar instrumentação agressiva se há muita exsudação e dor: o foco da urgência é controle infeccioso e drenagem, não “preparo perfeito” a qualquer custo naquela sessão.
5) Irrigação: o “centro” do tratamento na necrose com abscesso
Princípios:
Irrigação abundante e renovada, baixa pressão, agulha lateral, sem travamento.
Em necrose infectada, a irrigação é determinante para redução bacteriana.
Sugestões operacionais (sem engessar concentração/volume):
Hipoclorito de sódio como irrigante principal (concentração de preferência do seu protocolo).
Se houver intenção de maximizar limpeza: ativação (sônica/ultrassônica) desde que não aumente risco de extrusão (controle do terço apical e recuo da ponta ativadora).
Ponto cego frequente: muitos “instrumentam demais” e “irrigam de menos”. Em necrose, o inverso costuma ser mais seguro: irrigar melhor e instrumentar com controle.
6) Medicação intracanal: hidróxido de cálcio (padrão em múltiplas sessões)
Se você não vai obturar no mesmo dia (situação comum em abscesso), o curativo mais defensável é:
6.1. Hidróxido de cálcio (Ca(OH)₂)
Indicações fortes:
exsudato persistente,
abscesso com drenagem em curso,
necrose com lesão periapical,
retratamento infectado.
Racional: pH elevado e efeito antimicrobiano (com limitações conhecidas), além de ajudar na estabilização do meio entre sessões.
Aplicação (conceito):
preencher o canal com curativo, sem extrusão,
manter 7–14 dias conforme evolução clínica.
7) Selamento provisório: obrigatório e de alto padrão
Após drenagem, irrigação e curativo:
secagem,
barreira quando indicada,
restauração provisória com vedamento efetivo e espessura adequada.
Regra de ouro: urgência bem feita termina com selamento, nunca com “dente aberto”.

Passo 6 — Anestesia na urgência: protocolo para falhas (quando “não pega”)
Falha anestésica é comum em dor intensa por inflamação (pH reduzido/acidose e sensibilização periférica). A solução não é apenas “repetir o mesmo bloqueio”: é uma estratégia escalonada.
Estratégia escalonada (conceito clínico):
técnica correta + tempo de latência + avaliação objetiva do efeito
associação de técnicas complementares quando necessário
anestesias suplementares (intraligamentar/intraóssea/intrapulpar) conforme indicação e segurança
integração com o controle local do irritante (descompressão/remoção do fator causal), que frequentemente melhora a resposta anestésica
✅ Post recomendado

Passo 7 — Prescrição racional: o que é adjuvante e o que é erro
Analgesia/anti-inflamatório
A escolha deve considerar:
intensidade da dor
contraindicações (gastrintestinais, renais, cardiovasculares), alergias, interações medicamentosas
risco individual do paciente. Em geral, o manejo medicamentoso é adjuvante ao controle local.
Antibiótico em endodontia: quando considerar (síntese de diretrizes)
Antibiótico pode ser considerado quando houver:
sinais sistêmicos (febre/mal-estar) e/ou disseminação (celulite, edema progressivo)
risco aumentado (imunossupressão relevante)
impossibilidade temporária de realizar controle local adequado (situação excepcional e de curto prazo)
Não é indicado como rotina para dor pulpar, nem substitui drenagem/limpeza e controle local do foco.
✅ Posts recomendados (antibiótico/abscesso):

Tabela decisória rápida (para reduzir erros na urgência)
Antibiótico: SIM ou NÃO?
NÃO (na maioria das urgências endodônticas):
dor pulpar (pulpite) sem sinais sistêmicos
dor à percussão/periodontite apical sintomática sem disseminação sistêmica
edema localizado pequeno, controlável com intervenção local e drenagem quando indicada
SIM (situações em que pode ser necessário como adjuvante):
febre/mal-estar, celulite, disseminação, edema progressivo
comprometimento sistêmico relevante/imunossupressão
risco de disseminação e incapacidade temporária de controle local imediato
Dor pós-operatória e flare-up: prevenção e manejo
Dor pós-operatória e flare-up não são “fatalidades”; frequentemente são preveníveis com controle técnico (respeito ao comprimento de trabalho, redução de extrusão de detritos, irrigação segura, conduta local adequada e selamento provisório competente).
✅ Posts recomendados (dor/flare-up):

Leia também:
Diagnóstico pulpar e armadilhas clínicas
Diagnóstico pulpar e armadilhas clínicas
Teste de sensibilidade pulpar: o diagnóstico que o RX não mostra
Diagnóstico endodôntico contemporâneo: algoritmo clínico, CBCT e radiografia periapical
Anestesia endodôntica: falhas e estratégias
Abscesso agudo e antibiótico (quando indicar)
Antibióticos na endodontia: uma versão europeia (conduta baseada em evidências)
Antibióticos na visão da AAE: indicações, riscos e racionalidade
Abscesso apical: por que a ação local é decisiva (e quando há componente sistêmico)
Abscesso dentário em lactantes: conduta clínica e medicamentosa
Dor pós-operatória e flare-up: prevenção e manejo

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diagnóstico em “cadeira quente” (dor ≠ diagnóstico)
anestesia em dor intensa (estratégias escalonadas)
abscesso agudo: drenagem e decisão de antibiótico com critério
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FAQ — Perguntas frequentes sobre urgências endodônticas
1) Antibiótico resolve dor de pulpite?
Em geral, não. Pulpite é primariamente um processo inflamatório pulpar; a conduta efetiva é intervenção local e controle analgésico, não antibiótico, salvo exceções com sinais sistêmicos.
2) Falha anestésica é sinal de “técnica ruim”?
Nem sempre. Em dor intensa e inflamação, há fatores biológicos (acidose e sensibilização) que reduzem a eficácia. A solução é uma estratégia escalonada, combinando técnicas e controle local do irritante.
3) Dor à percussão significa “precisa de antibiótico”?
Não. Dor à percussão é um achado comum em periodontite apical sintomática e costuma responder à conduta operatória(controle local), sem necessidade de antibiótico quando não há sinais sistêmicos.
4) Abscesso sempre exige antibiótico?
Não. Abscesso pode exigir drenagem e controle local. Antibiótico é indicado principalmente quando há sinais sistêmicos, disseminação ou risco aumentado.
5) Quando devo solicitar CBCT na urgência?
Quando houver suspeita de trinca/fratura, anatomia complexa, reabsorções, lesões extensas, dúvida diagnóstica persistente ou necessidade de planejamento avançado.
6) Como reduzir risco de dor pós-operatória e flare-up?
Com técnica consistente: respeito ao comprimento de trabalho, irrigação segura, redução de extrusão de detritos, conduta local adequada e selamento provisório eficaz, além de analgesia adjuvante quando indicada.



