Scouting, cateterismo e negociação do canal radicular
- Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges
- há 2 dias
- 15 min de leitura
Atualizado: há 20 horas
Antes de mecanizar, é preciso reconhecer, acessar e respeitar o caminho.

Resumo do artigo
Antes de qualquer sistema mecanizado entrar no canal, o clínico precisa responder a uma pergunta essencial:
eu realmente conheço o caminho que vou instrumentar?
Scouting, cateterismo e negociação são etapas clínicas que permitem reconhecer a anatomia interna, localizar a trajetória, avaliar resistência, superar pequenas interferências e criar segurança antes da instrumentação mecanizada.
Elas não são etapas burocráticas.
São etapas de proteção.
O scouting permite explorar o canal.
O cateterismo permite avançar com controle.
A negociação permite respeitar a trajetória original sem criar desvios, degraus ou bloqueios.
Em canais curvos, calcificados, atrésicos, estreitos, com curvatura em S, tripla curvatura ou retratamentos, essas etapas podem definir a diferença entre uma instrumentação segura e um acidente clínico.
A pergunta correta não é:
qual sistema vou usar?
A pergunta correta é:
o canal já foi reconhecido o suficiente para receber o sistema?
Este é o décimo artigo da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday e aprofunda o bloco operacional iniciado com as limas manuais.
Perguntas que este artigo responde
Pergunta | Resposta curta |
O que é scouting em Endodontia? | É a exploração inicial do canal para reconhecer trajeto, resistência, permeabilidade e complexidade anatômica. |
O que é cateterismo endodôntico? | É a progressão cuidadosa com limas finas para acessar regiões mais profundas do canal com controle. |
O que é negociação do canal radicular? | É a condução progressiva da lima respeitando a trajetória original do canal, sem forçar ou desviar. |
Por que essas etapas são importantes? | Porque reduzem risco de degrau, transporte, bloqueio, travamento e fratura de instrumentos. |
Quando elas são indispensáveis? | Em canais curvos, calcificados, atrésicos, estreitos, retratamentos e anatomias complexas. |
Qual lima usar no scouting? | |
O motor pode substituir scouting e cateterismo? | Não. O motor deve preparar um canal já reconhecido, não descobrir o caminho às cegas. |
A resistência da lima é sempre ruim? | Não. A resistência é uma informação clínica que precisa ser interpretada. |
Scouting é o mesmo que glide path? | Não. Scouting reconhece o caminho; glide path cria um trajeto liso, contínuo e seguro para a mecanização. |
Qual é a mensagem central do artigo? | Antes de mecanizar, é preciso reconhecer, acessar e negociar o canal com segurança. |
O que você vai entender neste artigo
A diferença entre scouting, cateterismo e negociação.
Por que essas etapas vêm antes da instrumentação mecanizada.
Como a lima manual entrega informação tátil.
Como reconhecer resistência, bloqueio, calcificação e curvatura.
Por que o motor não deve descobrir o canal.
Como evitar degrau, transporte, bloqueio e fratura.
Como pré-curvatura e irrigação ajudam na negociação.
Como essas etapas se conectam ao glide path.
Como aplicar a lógica EndoToday antes de mecanizar.
Introdução
A instrumentação endodôntica segura não começa com o motor.
Começa com o reconhecimento do canal.
Antes de escolher o sistema rotatório, reciprocante ou alternado, o clínico precisa entender se o canal está localizado, se permite progressão, se apresenta resistência, se tem curvatura, se está calcificado, se possui bloqueio, se existe risco de degrau e se a trajetória original pode ser preservada.
É aqui que entram três conceitos fundamentais:
scouting, cateterismo e negociação.
Esses termos muitas vezes são usados de forma parecida, mas representam etapas clínicas complementares.
O scouting é a exploração inicial.
O cateterismo é a progressão cuidadosa.
A negociação é a condução estratégica da lima dentro da anatomia real do canal.
Essas etapas não servem apenas para “passar uma lima fina”.
Elas servem para transformar um canal desconhecido em uma trajetória compreendida.
Em Endodontia, mecanizar sem reconhecer o canal é acelerar o risco.

Por que o canal precisa ser reconhecido antes da mecanização?
O canal radicular não é um tubo liso, reto e previsível.
Ele pode apresentar:
constrições;
calcificações;
curvaturas;
curvaturas abruptas;
curvaturas em S;
tripla curvatura;
canais ovais;
istmos;
degraus prévios;
bloqueios;
áreas de achatamento;
transporte anterior;
material obturador em retratamentos;
resistência apical;
trajetórias tridimensionais.
Quando um instrumento mecanizado entra em um canal não reconhecido, ele pode encontrar resistência inesperada.
Essa resistência pode gerar:
travamento;
fadiga torcional;
fadiga cíclica;
transporte;
formação de degrau;
perda do comprimento de trabalho;
fratura do instrumento;
extrusão de debris;
alteração da anatomia original.
Por isso, antes da mecanização, o clínico precisa responder:
o canal está localizado?
a lima fina progride?
existe resistência?
onde está a resistência?
o trajeto é contínuo?
há suspeita de curvatura abrupta?
existe calcificação?
o canal permite patência?
há risco de bloqueio?
já existe caminho para o glide path?
Essas perguntas não são detalhes.
São segurança clínica.

O que é scouting?
Scouting é a exploração inicial do canal radicular.
É uma etapa de reconhecimento.
Durante o scouting, o clínico utiliza limas manuais finas para avaliar se o canal está permeável, qual é sua trajetória, onde existe resistência e se a anatomia permite progressão segura.
O objetivo do scouting não é preparar o canal.
É entender o canal.
No scouting, a lima manual funciona como instrumento de leitura.
Ela informa:
entrada do canal;
direção inicial;
resistência;
permeabilidade;
presença de obstáculos;
trajetória provável;
necessidade de pré-curvatura;
risco de bloqueio;
possibilidade de progressão;
momento de irrigar;
momento de parar;
momento de mudar a estratégia.
Scouting bem executado evita que o operador transforme incerteza anatômica em força mecânica.
A lima fina não está ali para vencer o canal.
Está ali para escutar o canal.

Como realizar o scouting com segurança
O scouting deve ser delicado, progressivo e constantemente associado à irrigação.
Uma sequência clínica segura pode envolver:
acesso bem definido;
localização dos canais;
irrigação inicial;
uso de limas finas;
movimentos de pequena amplitude;
ausência de força apical;
limpeza frequente da lima;
irrigação entre avanços;
pré-curvatura quando necessária;
avaliação tátil constante;
confirmação radiográfica ou eletrônica quando indicada.
O erro mais comum é tentar transformar scouting em ampliação.
Isso é perigoso.
Ela deve ser usada para obter informação.
Quando há resistência, o clínico deve interpretar essa resistência.
Forçar pode criar degrau.
E um degrau criado no início pode comprometer todo o tratamento.

O que é cateterismo endodôntico?
Cateterismo é a progressão cuidadosa no interior do canal com limas finas.
Se o scouting reconhece a entrada e a trajetória inicial, o cateterismo busca avançar de forma controlada em direção às regiões mais profundas, respeitando a anatomia e avaliando constantemente a resistência.
É uma etapa especialmente importante em canais:
estreitos;
atrésicos;
calcificados;
curvos;
longos;
com curvatura apical;
com curvatura em S;
com suspeita de bloqueio;
em retratamentos;
com anatomia pouco previsível.
O cateterismo não deve ser confundido com pressão apical.
A progressão deve acontecer porque o canal permite, não porque o operador força.
A lima deve avançar com controle.
Quando não avança, a decisão correta pode ser:
retirar;
limpar a lima;
irrigar;
lubrificar;
pré-curvar;
recapitular;
trocar por uma lima menor;
mudar o ângulo de inserção;
reavaliar a radiografia;
considerar magnificação;
considerar TCFC em casos selecionados.
Cateterismo é paciência clínica aplicada à anatomia.

O que é negociação do canal?
Negociação é o processo de conduzir a lima dentro do canal preservando sua trajetória original.
É mais do que entrar.
É entrar corretamente.
É mais do que avançar.
É avançar respeitando o caminho anatômico.
Durante a negociação, o clínico busca vencer pequenas resistências sem deformar o trajeto.
Isso exige sensibilidade, irrigação, instrumentos finos, pré-curvatura, movimentos controlados e leitura tátil.
A negociação é fundamental para evitar:
degrau;
transporte;
perfuração;
bloqueio;
travamento;
perda de comprimento;
desvio da trajetória;
fratura de instrumentos;
instrumentação fora do canal original.
Em canais complexos, a negociação é o momento em que o clínico decide se a anatomia será respeitada ou deformada.
A lima manual não deve “brigar” com o canal.
Ela deve ser conduzida dentro dele.
Scouting, cateterismo e negociação: qual a diferença?
Embora os termos estejam relacionados, eles não são exatamente a mesma coisa.
Etapa | Função principal | Pergunta clínica |
Scouting | Explorar e reconhecer o canal | O canal existe, abre e permite leitura inicial? |
Cateterismo | Progredir cuidadosamente no canal | Consigo avançar com controle em direção apical? |
Negociação | Preservar a trajetória original | Consigo conduzir a lima sem criar desvio? |
Essas etapas se complementam.
Primeiro, o clínico reconhece.
Depois, progride.
Depois, negocia a trajetória com segurança.
Na prática clínica, elas podem acontecer de forma integrada.
Mas entender a diferença melhora o raciocínio.

A resistência da lima é uma informação clínica
Quando a lima encontra resistência, muitos operadores interpretam isso como obstáculo a ser vencido.
Mas resistência é informação.
Ela pode significar:
estreitamento anatômico;
calcificação;
curvatura;
interferência cervical;
debris acumulado;
smear layer compactada;
início de bloqueio;
degrau pré-existente;
trajetória incorreta;
instrumento inadequado;
falta de irrigação;
pressão excessiva;
canal muito seco;
anatomia mais complexa do que parecia.
Forçar sem interpretar é um erro.
O clínico deve perguntar:
o que essa resistência está tentando me dizer?
Essa pergunta muda a conduta.
Em vez de insistir, o operador pode reavaliar.
E muitas vezes é essa pausa que evita o acidente.

Quais limas usar?
A escolha da lima depende do canal.
Em geral, as limas finas são usadas para scouting, cateterismo e negociação inicial.
Podem ser utilizadas:
Cada instrumento tem uma função.
Instrumento | Uso clínico comum |
Lima #06 | Canais muito estreitos, atrésicos ou calcificados |
Lima #08 | Progressão inicial delicada |
Lima #10 | Confirmação de trajeto e início de caminho seguro |
Lima #15 | Canais que já permitem maior progressão |
Lima C+ ou C-Pilot | Canais calcificados ou com resistência inicial maior |
Lima manual NiTi | Canais curvos em que flexibilidade é desejável |
Lima pré-curvada | Curvaturas, bloqueios, canais calcificados e negociação delicada |
O erro é escolher a lima por rotina.
A lima deve ser escolhida pelo que o canal apresenta.

Pré-curvatura: quando a lima precisa acompanhar a anatomia
A pré-curvatura da lima manual é uma manobra importante em canais curvos, calcificados ou com resistência.
Ela permite que a ponta da lima acompanhe melhor a trajetória do canal.
Pode ser útil em:
curvaturas apicais;
canais estreitos;
canais calcificados;
canais com entrada difícil;
canais com curvatura em S;
canais com suspeita de degrau;
retratamentos;
canais com trajetória não evidente.
A pré-curvatura não deve ser exagerada nem feita sem propósito.
Ela deve responder à anatomia.
Uma lima pré-curvada pode ajudar o clínico a encontrar uma trajetória que uma lima reta não acompanha adequadamente.
Em canais difíceis, muitas vezes o detalhe que muda o caso não é a força.
É a direção.

Movimentos seguros durante scouting e negociação
Os movimentos devem ser pequenos, controlados e delicados.
Podem incluir:
watch-winding;
pequenos movimentos de rotação alternada;
movimentos curtos de entrada e saída;
pressão apical mínima;
recapitulação;
irrigação entre avanços;
limpeza frequente do instrumento;
pré-curvatura;
progressão gradual.
O objetivo não é cortar rapidamente.
O objetivo é criar controle.
Durante essas etapas, o clínico deve evitar:
força apical excessiva;
movimentos amplos;
insistência em resistência;
canal seco;
pressa;
mecanização precoce;
pular limas;
negligenciar irrigação;
avançar sem limpar a lima;
perder a referência de comprimento.
Em scouting e negociação, a delicadeza é uma forma de segurança.
Irrigação durante scouting, cateterismo e negociação
A irrigação deve acompanhar todo o processo.
Mesmo antes da instrumentação mecanizada, a irrigação ajuda a:
lubrificar o trajeto;
remover debris;
reduzir acúmulo de material;
diminuir risco de bloqueio;
favorecer a progressão;
limpar a lima;
melhorar a leitura tátil;
reduzir carga orgânica inicial;
evitar compactação apical.
O canal seco aumenta o risco de travamento e bloqueio.
Por isso, a progressão com limas finas deve ser associada a irrigação frequente e renovação da solução.
A irrigação não é uma etapa que começa depois da mecanização.
Ela participa desde o reconhecimento do canal.
Patência apical: manter o caminho livre
A patência apical pode fazer parte da estratégia de negociação, quando indicada.
Ela ajuda a manter o trajeto apical livre e reduzir o risco de bloqueio por debris.
Mas precisa ser feita com critério.
Patência não é alargamento foraminal agressivo.
A patência deve ser delicada, controlada e compatível com o diagnóstico e a anatomia.
A decisão depende de fatores como:
vitalidade ou necrose;
anatomia apical;
curvatura;
risco de extrusão;
presença de lesão periapical;
comprimento de trabalho;
diâmetro do canal;
resposta clínica;
estratégia de obturação.
O objetivo é preservar o trajeto.
Não agredir o periápice.
Relação com o glide path
Scouting, cateterismo e negociação não são sinônimos de glide path.
Mas são etapas que preparam o glide path.
O scouting reconhece.
O cateterismo avança.
A negociação preserva o trajeto.
O glide path cria um caminho liso, contínuo e seguro para os instrumentos mecanizados.
Sem reconhecimento prévio, o glide path pode ser arriscado.
Por isso, antes de usar um sistema mecanizado de glide path, é importante confirmar que o canal permite progressão inicial com segurança.
A sequência lógica é:
reconhecer → negociar → criar glide path → mecanizar.
Pular etapas pode acelerar o procedimento.
Mas também pode acelerar o acidente.

Quando não insistir
Saber parar é parte da técnica.
O clínico não deve insistir quando:
a lima trava;
a resistência aumenta;
a trajetória não está clara;
a lima deforma;
o canal está seco;
há suspeita de degrau;
há dor ou pressão excessiva;
o comprimento não é mantido;
a lima não progride apesar da irrigação;
a radiografia não explica a dificuldade;
há suspeita de calcificação severa;
a anatomia parece mais complexa que o esperado.
Nesses casos, a conduta deve ser reavaliada.
Pode ser necessário:
irrigar novamente;
usar lima menor;
pré-curvar;
recapitular;
ampliar acesso visual;
usar magnificação;
usar ultrassom com critério;
solicitar TCFC em casos selecionados;
adiar a mecanização;
mudar a estratégia.
Em Endodontia, insistir sem informação é risco.
O motor não deve entrar antes da negociação
O motor não foi feito para descobrir uma trajetória desconhecida.
Ele foi feito para preparar um caminho já reconhecido.
Quando um instrumento mecanizado entra antes da negociação adequada, ele pode travar em uma região estreita, calcificada ou curva.
Esse travamento aumenta risco de:
fadiga torcional;
fratura;
transporte;
degrau;
bloqueio;
perda de comprimento;
deformação do canal.
Por isso, o motor deve entrar quando o clínico já sabe que existe um caminho seguro.
A mecanização não substitui o reconhecimento.
Ela depende dele.
A tecnologia acelera o preparo.
Mas não deve acelerar a incerteza.

Matriz EndoToday para scouting, cateterismo e negociação
Pergunta clínica | Decisão que orienta |
O canal foi localizado? | Define início do scouting. |
A lima fina entra sem força? | Define permeabilidade inicial. |
Existe resistência? | Define necessidade de interpretação. |
A resistência está onde? | Define se é cervical, média ou apical. |
O canal é curvo ou calcificado? | Define uso de pré-curvatura e limas finas. |
A lima progride com controle? | Define possibilidade de cateterismo. |
O trajeto foi preservado? | Define sucesso da negociação. |
Há risco de degrau? | Define necessidade de recuar e reavaliar. |
A patência é indicada? | Define controle do trajeto apical. |
O glide path já pode ser criado? | Define transição para etapa seguinte. |
O motor já pode entrar? | Define segurança da mecanização. |
A matriz resume a lógica principal:
antes de ampliar, reconheça. Antes de mecanizar, negocie.
Casos clínicos relacionados no EndoToday
Scouting, cateterismo e negociação se conectam diretamente aos artigos anatômicos e operacionais da trilha.
Conteúdo relacionado | O que observar |
Entenda por que o controle tátil continua indispensável. | |
Observe como múltiplas curvaturas exigem negociação delicada. | |
Canais calcificados | Veja por que progressão gradual e pré-curvatura são essenciais. |
Aprofunde a criação do caminho seguro antes da mecanização. | |
Erros comuns em scouting, cateterismo e negociação
1. Confundir scouting com ampliação
Scouting é reconhecimento. Não é preparo agressivo.
2. Forçar lima fina até o comprimento
A lima deve progredir com controle, não por pressão.
3. Usar o motor para descobrir o canal
O motor deve preparar um canal já reconhecido.
4. Negociar canal seco
A irrigação deve acompanhar a exploração e a progressão.
5. Não pré-curvar a lima em canais curvos
A pré-curvatura ajuda a acompanhar trajetórias complexas.
6. Ignorar resistência
Resistência é informação clínica e deve ser interpretada.
7. Pular limas finas
Em canais estreitos, pular etapas aumenta risco de degrau e bloqueio.
8. Não limpar a lima
Debris acumulados na lima podem favorecer bloqueio e alterar a sensação tátil.
9. Insistir quando a trajetória não está clara
Saber parar e reavaliar evita acidentes.
10. Confundir patência com alargamento foraminal
Patência é controle delicado do trajeto, não ampliação agressiva do forame.
O que este artigo ensina
Este artigo reforça que:
Scouting é reconhecimento do canal.
Cateterismo é progressão cuidadosa.
Negociação é preservação da trajetória.
A lima fina entrega informação tátil.
Resistência deve ser interpretada.
O canal deve estar irrigado durante a exploração.
Pré-curvatura pode ser decisiva em anatomias complexas.
Patência exige critério.
O glide path depende de reconhecimento prévio.
O motor não deve entrar antes da negociação.
A principal mensagem é:
Antes de mecanizar, reconheça o canal. Antes de ampliar, negocie o caminho.

Como este artigo se conecta à Trilha de Instrumentação Endodôntica
Este é o décimo artigo da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday.
Os artigos anteriores construíram a base anatômica e operacional:
Instrumentar não é limpar.
Não existe lima perfeita. Existe indicação perfeita.
Antes da lima, vem a anatomia.
O raio da curvatura muda o risco.
Nem todo canal curvo tem o mesmo risco.
Curvaturas em S exigem mudança de estratégia.
A lima não toca tudo em canais ovais, achatados e em C.
Nem todo desgaste é preparo. Preservar também é tratar.
A lima manual informa. O motor acelera. O clínico interpreta.
Agora, este artigo aprofunda o passo seguinte:
como usar essa leitura manual para reconhecer, acessar e negociar o canal antes da mecanização.
A partir daqui, a trilha seguirá para:
lima apical inicial;
glide path manual e mecanizado;
sistemas de glide path;
ligas NiTi;
fadiga cíclica e torcional;
ampliação apical e irrigação.
O objetivo é construir uma sequência clínica segura:
entender a anatomia, reconhecer o caminho, negociar o canal e só depois mecanizar.
Este artigo faz parte da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday, uma sequência de estudos sobre anatomia, seleção de limas, limas manuais, glide path, ligas NiTi, ampliação apical, irrigação e indicação clínica dos sistemas mecanizados. |
Artigo anterior |
No artigo anterior, você entendeu por que preservar dentina crítica pode ser mais importante do que ampliar em determinadas regiões anatômicas. |
Próximo artigo |
No próximo artigo, vamos aprofundar o papel da lima apical inicial na leitura do diâmetro anatômico, na escolha da ampliação e no planejamento biológico da instrumentação. |
Voltar ao hub principal |
Conclusão
Scouting, cateterismo e negociação não são etapas secundárias.
São etapas de segurança.
Elas permitem reconhecer o canal, interpretar resistência, avançar com controle e preservar a trajetória original antes da instrumentação mecanizada.
O motor acelera.
Mas não deve descobrir o canal.
A lima fina informa.
O clínico interpreta.
A negociação protege.
Na Endodontia moderna, previsibilidade não nasce apenas da tecnologia.
Nasce da capacidade de reconhecer a anatomia antes de agir sobre ela.
Antes de mecanizar, reconheça.
Antes de ampliar, negocie.
Antes de executar, entenda o caminho.
EndoToday — Endodontia baseada em raciocínio clínico.
Antes de mecanizar, reconheça o canal
Scouting, cateterismo e negociação são etapas que protegem a trajetória original do canal antes da instrumentação mecanizada.
Elas ajudam a reduzir degrau, transporte, bloqueio, travamento e fratura.
Continue na trilha e entenda por que a lima apical inicial pode mudar a leitura do preparo e da ampliação.
Antes de ampliar, negocie o caminho.

FAQ — Perguntas frequentes sobre scouting, cateterismo e negociação do canal radicular
O que é scouting em Endodontia?
Scouting é a exploração inicial do canal com limas finas para reconhecer trajetória, permeabilidade, resistência e complexidade anatômica antes da instrumentação mecanizada.
O que é cateterismo endodôntico?
Cateterismo é a progressão cuidadosa com limas finas no interior do canal, buscando acessar regiões mais profundas com controle e respeito à anatomia.
O que é negociação do canal radicular?
Negociação é a condução progressiva da lima dentro do canal, preservando a trajetória original e evitando desvios, degraus ou bloqueios.
Scouting, cateterismo e negociação são a mesma coisa?
Não. Scouting é reconhecimento, cateterismo é progressão controlada e negociação é preservação estratégica da trajetória original.
Por que essas etapas são importantes?
Porque reduzem o risco de degrau, transporte, bloqueio, travamento, perda de comprimento e fratura de instrumentos durante a mecanização.
Quais limas são usadas nessas etapas?
Geralmente são usadas limas finas, como #06, #08 e #10. Em canais calcificados ou resistentes, limas C+ ou C-Pilot podem ser indicadas.
O motor pode substituir scouting e cateterismo?
Não. O motor deve preparar um canal já reconhecido e negociado, não descobrir a trajetória às cegas.
A resistência da lima é sempre um problema?
Não. A resistência é uma informação clínica que pode indicar calcificação, curvatura, debris, bloqueio, degrau ou necessidade de mudar a estratégia.
Scouting é o mesmo que glide path?
Não. Scouting reconhece o caminho. Glide path cria um trajeto liso, contínuo e seguro para receber instrumentos mecanizados.
Qual é a principal mensagem deste artigo?
A principal mensagem é que antes de mecanizar, o clínico precisa reconhecer, acessar e negociar o canal com segurança.
Referências bibliográficas
Hülsmann M, Peters OA, Dummer PMH. Mechanical preparation of root canals: shaping goals, techniques and means. Endodontic Topics. 2005;10(1):30-76.
West JD. The endodontic glidepath: “Secret to rotary safety.” Dentistry Today. 2010;29(9):86-93.
Berutti E, Cantatore G, Castellucci A, et al. Use of nickel-titanium rotary PathFile to create the glide path: comparison with manual preflaring in simulated root canals. Journal of Endodontics. 2009;35(3):408-412.
Berutti E, Paolino DS, Chiandussi G, et al. Root canal anatomy preservation of WaveOne reciprocating files with or without glide path. Journal of Endodontics. 2012;38(1):101-104.
Peters OA, Laib A, Rüegsegger P, Barbakow F. Three-dimensional analysis of root canal geometry by high-resolution computed tomography. Journal of Dental Research. 2000;79(6):1405-1409.
Peters OA, Schönenberger K, Laib A. Effects of four Ni-Ti preparation techniques on root canal geometry assessed by micro computed tomography. International Endodontic Journal. 2001;34(3):221-230.
Schneider SW. A comparison of canal preparations in straight and curved root canals. Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology. 1971;32(2):271-275.
Pruett JP, Clement DJ, Carnes DL Jr. Cyclic fatigue testing of nickel-titanium endodontic instruments. Journal of Endodontics. 1997;23(2):77-85.
Walia HM, Brantley WA, Gerstein H. An initial investigation of the bending and torsional properties of Nitinol root canal files. Journal of Endodontics. 1988;14(7):346-351.
Thompson SA. An overview of nickel-titanium alloys used in dentistry. International Endodontic Journal. 2000;33(4):297-310.
Plotino G, Grande NM, Cordaro M, Testarelli L, Gambarini G. A review of cyclic fatigue testing of nickel-titanium rotary instruments. Journal of Endodontics. 2009;35(11):1469-1476.
Shen Y, Zhou HM, Zheng YF, Peng B, Haapasalo M. Current challenges and concepts of the thermomechanical treatment of nickel-titanium instruments. Journal of Endodontics. 2013;39(2):163-172.
Vertucci FJ. Root canal anatomy of the human permanent teeth. Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology. 1984;58(5):589-599.
Abou-Rass M, Frank AL, Glick DH. The anticurvature filing method to prepare the curved root canal. Journal of the American Dental Association. 1980;101(5):792-794.
Cohen S, Hargreaves KM. Pathways of the Pulp. 11th ed. St. Louis: Elsevier; 2016.
Sobre o autor

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.
Não ensinamos apenas a tratar dentes.
Ensinamos a cuidar de pacientes.
Endotoday - Endodontia com diagnóstico, ciência e tomada de decisão clínica.
Prof. Dr. Marco Aurélio G. Borges