Trincas e fraturas dentárias em Endodontia: diagnóstico, prognóstico e decisão clínica
- Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges
- há 11 horas
- 14 min de leitura

A odontologia tem, entre seus princípios mais nobres, a preservação dos dentes naturais. Mas preservar não significa insistir sem critério. Quando uma trinca ou fratura dentária entra em cena, especialmente com repercussão endodôntica, periodontal ou restauradora, o verdadeiro desafio clínico não é simplesmente “salvar o dente”.
O verdadeiro desafio é decidir quando faz sentido tentar, quais são os limites biológicos do caso e o que o paciente precisa compreender antes de qualquer decisão.
Em outras palavras: o problema não é apenas a trinca. O problema é o contexto no qual essa trinca apareceu.
Por isso, em trincas e fraturas, o raciocínio clínico precisa vir antes do material. Antes de perguntar “com o que vou selar?”, o profissional precisa responder:
qual é o diagnóstico, qual é o prognóstico e quais fatores causais ainda estão ativos?
Resumo inicial: o que você precisa saber sobre trincas e fraturas dentárias em endodontia
Toda trinca precisa ser tratada?
Não. Trincas restritas ao esmalte muitas vezes não têm relevância clínica expressiva. O problema começa quando a trinca avança para dentina, raiz ou periodonto. Nesses casos, o prognóstico do dente começa a ser questionado.
A radiografia diagnostica trinca?
Na maioria das vezes, não diretamente. A radiografia pode mostrar sinais indiretos, como espessamento do ligamento periodontal, perda óssea lateral ou lesão em formato de “J”. O diagnóstico precisa de mais elementos.
A tomografia resolve o diagnóstico?
A tomografia computadorizada de feixe cônico ajuda muito, mas também tem limitações, especialmente quando há pinos metálicos, materiais obturadores ou restaurações que geram artefatos. É uma ferramenta valiosa, mas não uma resposta definitiva. A literatura recente reforça que a CBCT pode modificar substancialmente o planejamento em casos complexos, mas deve ser interpretada junto com os achados clínicos.
O microscópio é obrigatório?
Não. Mas em casos complexos, ele pode mudar o jogo. A magnificação permite enxergar estruturas que o olho nu dificilmente alcança, como linhas de fratura, alterações em paredes dentinárias e áreas de infiltração.
Existe tratamento para fraturas radiculares?
Em alguns casos, sim. Mas o tratamento deve ser entendido como uma alternativa conservadora de prognóstico muitas vezes reservado, e não como garantia de sucesso. A literatura atual sobre trincas e fraturas longitudinais enfatiza exatamente essa necessidade de diagnóstico, classificação e decisão baseada no risco.
Os dentes de hoje carregam uma história
Nas últimas décadas, os pacientes passaram a chegar ao consultório com dentes que acumulam décadas de uso, restaurações, tratamentos endodônticos, sobrecarga oclusal e envelhecimento estrutural.
Não tratamos mais apenas dentes jovens com cárie. Tratamos dentes com pinos, coroas, grandes perdas estruturais e muito histórico funcional.
Nesse contexto, as trincas deixaram de ser uma raridade e passaram a ser um dos principais desafios da odontologia contemporânea.
Parte disso se deve à maior disponibilidade de magnificação e tomografia, que nos permite diagnosticar alterações que antes passavam despercebidas. Parte também pode refletir o aumento real de bruxismo, apertamento e sobrecarga funcional.
A pandemia de COVID-19 provavelmente agravou esse cenário em muitos pacientes, por aumento de estresse, apertamento e hábitos parafuncionais.
O ponto central é que a trinca raramente é um evento isolado. Ela costuma ser o resultado de uma combinação entre estrutura dental fragilizada, restauração, oclusão, hábitos, envelhecimento e histórico endodôntico.
Por que a classificação importa: nem toda trinca é a mesma coisa

Um erro comum é tratar toda trinca como se fosse a mesma doença. Não é.
Uma microtrinca de esmalte tem significado completamente diferente de uma fratura vertical radicular. Confundir essas condições pode levar tanto ao excesso de tratamento quanto à negligência clínica.
A classificação atual das trincas e fraturas procura diferenciar localização, extensão, direção de progressão, envolvimento estrutural e repercussão clínica. Esse raciocínio está alinhado aos documentos recentes sobre fraturas longitudinais e cracked teeth, incluindo o position statement publicado no International Endodontic Journal.
1. Trinca de esmalte — craze line
A trinca de esmalte é uma alteração superficial, geralmente sem repercussão estrutural importante.
É muito comum, inclusive em pacientes sem sintomas ou hábitos parafuncionais evidentes. Pode ter impacto estético ou, eventualmente, estar associada à sensibilidade, mas não deve ser automaticamente transformada em diagnóstico grave.
Mensagem clínica:
Trinca de esmalte não deve gerar pânico clínico. O excesso de tratamento pode ser tão inadequado quanto a negligência.
2. Fratura de cúspide
A fratura de cúspide é frequente em dentes posteriores com restaurações extensas ou perda de suporte dentinário. Pode ser supraóssea ou infraóssea e pode ou não envolver a polpa.
Quando a fratura é infraóssea, o prognóstico se torna mais delicado. Ainda assim, alguns casos podem ser tratáveis, desde que haja possibilidade de controle do campo, selamento, estabilização e posterior proteção cuspídea.
Mensagem clínica:
Fratura de cúspide não é apenas um problema restaurador. Ela pode ser o início de um problema endodôntico, periodontal e funcional combinado.
3. Dente trincado
No dente trincado, a trinca se estende para dentina e pode progredir em direção à polpa ou à raiz.
A dificuldade é que a extensão real da trinca quase nunca é completamente visível, mesmo com magnificação e tomografia. A linha de trinca pode parecer limitada à coroa, mas apresentar progressão mais profunda.
Mensagem clínica:
O maior risco no dente trincado é subestimar a profundidade da trinca e superestimar a previsibilidade do tratamento.
4. Dente dividido
O dente dividido representa uma progressão mais severa da trinca, com separação estrutural mais evidente, comunicação profunda e maior repercussão periodontal.
O prognóstico costuma ser reservado, especialmente quando há perda óssea, mobilidade de fragmentos ou profundidade de sondagem localizada.
Mensagem clínica:
Quando se tenta preservar um dente dividido, o paciente precisa compreender que o tratamento é uma tentativa conservadora, não uma promessa de longevidade.
5. Fratura vertical radicular
A fratura vertical radicular é uma das condições mais difíceis de diagnosticar. É frequentemente associada a dentes tratados endodonticamente, especialmente quando houve enfraquecimento radicular, preparo excessivo, grande desgaste cervical ou uso de retentores intrarradiculares.
Pode simular lesões endo-periodontais, periodontite localizada, cemental tear ou alterações por sobrecarga oclusal.
Seu diagnóstico é construído por evidências acumuladas, não por um único sinal ou imagem. Revisões sobre fraturas verticais reforçam que a CBCT pode ser valiosa, mas os sinais clínicos e periodontais continuam essenciais para a tomada de decisão.
Mensagem clínica:
Fratura vertical radicular não deve ser diagnosticada por impulso. Também não deve ser ignorada quando múltiplos sinais apontam para ela.
A trinca raramente nasce sozinha
Selar uma trinca sem controlar seus fatores causais é, muitas vezes, apenas adiar o fracasso.
Os principais fatores que contribuem para o surgimento e a progressão de trincas incluem:
Perda estrutural coronária
Dentes com restaurações extensas, paredes finas e cristas marginais comprometidas apresentam menor capacidade de dissipar forças mastigatórias.
Quanto menor o remanescente dentário, maior a dependência de uma reabilitação bem planejada.
Tratamento endodôntico prévio
O problema raramente está no tratamento endodôntico em si, mas no conjunto:
acesso inadequado;
desgaste cervical excessivo;
preparo radicular agressivo;
irrigação sem critério;
ausência de selamento coronário adequado;
restauração posterior deficiente.
Um tratamento endodôntico tecnicamente correto precisa ser acompanhado por uma restauração biologicamente e mecanicamente coerente.
Retentores intrarradiculares
Pinos metálicos, núcleos volumosos e preparos excessivos podem fragilizar a raiz.
Mesmo pinos de fibra de vidro, quando exigem desgaste exagerado para adaptação, podem contribuir para perda de resistência.
O problema não é apenas o tipo de pino. É o quanto de dentina foi sacrificado para colocá-lo.
Hipoclorito de sódio
O hipoclorito de sódio é uma solução indispensável na Endodontia pela ação antimicrobiana e pela capacidade de dissolução tecidual.
Entretanto, protocolos muito prolongados, concentrados ou mecanicamente agressivos devem ser usados com critério, pois a dentina é um tecido biológico e pode sofrer alterações estruturais quando submetida a agentes químicos de forma excessiva.
Isso não significa abandonar o hipoclorito. Significa utilizá-lo com inteligência biológica.
Bruxismo e apertamento
Nenhum material resiste se o dente continua sendo submetido a cargas excessivas e repetitivas.
O controle pode envolver:
placa estabilizadora;
ajuste oclusal criterioso;
fisioterapia;
orientação comportamental;
manejo de estresse;
acompanhamento multidisciplinar.
O tratamento da trinca não termina no selamento. Ele depende do controle funcional.
Desarmonia oclusal
Nem toda sobrecarga vem de bruxismo.
Contatos prematuros, interferências, ausência de guias, alterações pós-ortodônticas ou distribuição inadequada de carga podem ser tão prejudiciais quanto hábitos parafuncionais evidentes.
A oclusão precisa ser avaliada antes e depois do tratamento.
Lesões cervicais não cariosas
As lesões cervicais não cariosas merecem atenção especial porque podem reduzir a resistência cervical e funcionar como ponto de fragilidade para futuras fraturas.
Elas não devem ser vistas apenas como problema estético ou causa de hipersensibilidade. Em muitos casos, são marcadores de sobrecarga estrutural.

Sinais que aumentam a suspeita de trinca ou fratura
Suspeite de trinca ou fratura dentária quando houver:
dor à mastigação;
dor ao aliviar a mordida;
sensibilidade térmica inexplicável;
restauração extensa em dente posterior;
perda de cúspide;
profundidade de sondagem estreita e localizada;
fístula em região lateral ou cervical;
perda óssea vertical localizada;
lesão óssea em formato de “J”;
histórico de bruxismo ou apertamento;
dente tratado endodonticamente com pino;
coroa protética associada a sintomatologia persistente;
desconforto que não se explica apenas pela condição pulpar.
Diagnóstico: a arte de juntar pequenas peças
O diagnóstico de trincas e fraturas é difícil porque raramente existe um sinal único e conclusivo.
O clínico precisa construir o diagnóstico a partir de várias evidências:
história clínica;
dor à mastigação;
dor ao alívio da mordida;
sensibilidade térmica;
restaurações extensas;
resposta aos testes pulpares;
profundidade de sondagem localizada;
fístula cervical ou lateral;
perda óssea;
achados radiográficos;
achados tomográficos;
avaliação sob magnificação;
análise do padrão oclusal.
A armadilha dos dois extremos também se aplica aqui: condenar o dente cedo demais é tão problemático quanto insistir em preservar um dente sem viabilidade biológica.
Radiografia: fundamental, mas limitada
A radiografia periapical continua sendo exame fundamental. Porém, detectar diretamente uma trinca por radiografia é exceção, não regra.
Na maioria das vezes, ela mostra consequências, não a causa.
Achados radiográficos sugestivos
Achado radiográfico | Possível interpretação clínica |
Espessamento do ligamento periodontal | Sobrecarga, inflamação lateral ou possível fratura |
Perda óssea vertical localizada | Trinca, fratura ou lesão periodontal localizada |
Lesão em formato de “J” | Sinal sugestivo de fratura vertical radicular |
Lesão periapical persistente | Infecção endodôntica, trinca ou fratura associada |
Radiografia sem alteração | Não exclui trinca |

Mensagem clínica:
A radiografia pode sugerir, mas raramente confirma sozinha.
Tomografia: melhora a qualidade da incerteza diagnóstica
A tomografia computadorizada de feixe cônico oferece visão mais detalhada da região periodontal lateral, da perda óssea e da relação entre lesão e raiz.
Suas limitações são reais:
artefatos por pinos metálicos;
artefatos por material obturador;
restaurações metálicas;
baixa resolução do equipamento;
protocolo inadequado de aquisição;
manipulação inadequada das imagens;
trincas muito finas ou sem separação evidente.
Mesmo assim, diante de suspeita de trinca ou fratura radicular, especialmente em dentes tratados endodonticamente ou com perda óssea lateral, a CBCT costuma oferecer mais informação do que a radiografia convencional. Estudos e diretrizes recentes reforçam que a imagem tridimensional pode auxiliar no diagnóstico e alterar o planejamento, embora não substitua o exame clínico.
Mensagem clínica:
A tomografia não dá certeza absoluta, mas melhora a qualidade da incerteza diagnóstica.
Magnificação: amplia a imagem, não o julgamento
O microscópio operatório ou lupas de alta magnificação não são obrigatórios para todo diagnóstico. Porém, em casos complexos, são ferramentas de grande valor.
A magnificação pode auxiliar em:
inspeção de paredes dentinárias;
identificação de linhas de fratura;
avaliação após remoção de restaurações;
inspeção da câmara pulpar;
controle durante desgaste seletivo;
aplicação de corantes;
documentação clínica.
Corantes como azul de metileno podem ser utilizados em situações selecionadas. Em alguns contextos, a fluoresceína sódica associada a filtro adequado também pode auxiliar na visualização.
Mas é importante lembrar:
A magnificação amplia a imagem, não automaticamente o julgamento clínico.
Prognóstico: antes de tratar, é preciso classificar o risco
Antes de indicar um tratamento conservador para uma trinca ou fratura, é necessário classificar o risco.
Tabela prática de prognóstico
Prognóstico | Características clínicas |
Favorável | Trinca limitada, ausência de perda óssea importante, ausência de profundidade de sondagem localizada, bom remanescente dentário, possibilidade real de selamento, controle oclusal e reabilitação protetora |
Reservado | Envolvimento dentinário profundo, suspeita de progressão radicular, sintomas persistentes, perda óssea localizada, necessidade de retratamento, presença de pino ou restauração extensa |
Desfavorável | Fratura vertical radicular avançada, dente dividido com grande repercussão periodontal, perda óssea extensa, impossibilidade de controle infeccioso, ausência de remanescente restaurável ou impossibilidade de controle |

A mensagem central é simples:
o tratamento só faz sentido se houver possibilidade real de devolver função, controlar a inflamação e estabilizar o dente estruturalmente.
Quando não tratar?
Algumas situações contraindicam a tentativa de preservação.
Entre elas:
impossibilidade de restaurar o dente;
ausência de estrutura remanescente adequada;
perda óssea extensa e progressiva;
fístula persistente;
exsudato intracanal sem controle;
dor aguda sem resposta ao tratamento inicial;
impossibilidade de controle oclusal;
impossibilidade de selamento;
paciente sem adesão ao acompanhamento.
A decisão pela exodontia não é fracasso quando o dente ultrapassou seus limites biológicos.
O erro não está em extrair um dente sem prognóstico. O erro está em extrair sem diagnóstico ou tentar preservar sem critério.

Tratamento conservador: plano B, mas um plano biologicamente fundamentado
Tratar uma trinca ou fratura radicular é um plano B.
Mas pode ser um plano B biologicamente fundamentado.
Pode manter uma estrutura nobre, preservar osso, função e conforto. Mesmo que o dente permaneça em boca por 5 ou 10 anos, isso pode representar um ganho real e concreto para o paciente.
Para funcionar, o tratamento conservador precisa ser bem indicado e bem executado.
Ele pode envolver:
remoção de restaurações contaminadas;
acesso ao trajeto da trinca;
descontaminação;
controle de tecido de granulação;
selamento da trinca;
estabilização do remanescente;
tratamento ou retratamento endodôntico;
reconstrução adesiva;
proteção cuspídea;
controle oclusal;
acompanhamento clínico e radiográfico ou tomográfico.
Descontaminação da trinca: um ponto frequentemente subestimado
Toda trinca com comunicação dentinária deve ser considerada potencialmente contaminada.
Fissuras e linhas de fratura podem abrigar biofilme e subprodutos bacterianos. Por isso, o tratamento não é simplesmente “colar” ou “tampar” a trinca.
Antes do selamento, é necessário descontaminar.
Protocolos podem envolver:
irrigação com hipoclorito de sódio;
agitação ultrassônica;
aplicação de corantes para visualização;
terapia fotodinâmica em casos selecionados;
controle de sangramento;
remoção de tecido de granulação;
selamento adesivo adequado.
A ampliação seletiva da trinca, quando indicada, não deve ter como objetivo “abrir tudo”. O objetivo é criar acesso suficiente para limpeza, descontaminação e penetração adequada do material de selamento.

O material não salva sozinho
Um dos maiores riscos no tratamento de trincas e fraturas é transformar o material em protagonista.
Resinas, biocerâmicos, cimentos adesivos e materiais reforçados por fibra podem ter papel importante em situações específicas, mas nenhum deles compensa diagnóstico inadequado, ausência de controle oclusal ou indicação mal estabelecida.
O material pode ajudar a selar, estabilizar e reconstruir. Mas ele não elimina bruxismo, não corrige sobrecarga, não devolve dentina perdida e não transforma um dente biologicamente inviável em previsível.
Por isso, o material deve ser entendido como ferramenta.
O verdadeiro tratamento começa no diagnóstico, passa pelo controle dos fatores causais e termina na reabilitação estrutural adequada.

A reabilitação final é parte do tratamento, não o apêndice
Um erro frequente é tratar a trinca, aliviar a dor e deixar o dente com uma restauração direta simples, sem proteção cuspídea.
Em dentes posteriores, o tratamento só estará biologicamente completo quando houver proteção estrutural adequada, seja com overlay, onlay ou coroa, dependendo do remanescente disponível.
Em casos de prognóstico reservado, pode ser prudente usar uma restauração provisória por alguns meses antes da peça definitiva.
Esse intervalo permite observar:
desaparecimento ou redução da dor;
cicatrização periodontal;
ausência de fístula;
neoformação óssea;
estabilidade funcional;
adesão do paciente às orientações.
Quatro a seis meses podem ser uma janela clínica útil para reavaliação antes de comprometer recursos financeiros e biológicos na reabilitação definitiva.
O sucesso não deve ser declarado no dia da cimentação. Ele precisa ser validado ao longo do tempo.

Critérios de acompanhamento
O acompanhamento deve avaliar:
ausência de dor espontânea;
ausência ou redução de dor à mastigação;
ausência de fístula;
ausência de edema;
redução ou normalização da profundidade de sondagem;
ausência de sangramento localizado;
reparo ósseo quando havia perda óssea;
estabilidade da restauração;
controle oclusal;
ausência de progressão clínica da trinca.
Nos casos com perda óssea lateral, a tomografia pode ser indicada no acompanhamento, especialmente quando a decisão inicial foi preservar um dente de prognóstico reservado.
O paciente precisa participar da decisão
Em trincas e fraturas, a decisão não é apenas técnica. É ética.
O paciente precisa compreender que existe risco de insucesso, que a alternativa conservadora pode preservar função e osso, mas não oferece garantia absoluta, e que a exodontia seguida de reabilitação também pode ser uma opção legítima em determinados casos.
Ele também precisa entender que hábitos parafuncionais precisam ser controlados para que qualquer tratamento tenha chance real de funcionar.
O papel do profissional não é impor um caminho. É apresentar os caminhos possíveis com clareza, explicar riscos e benefícios, definir o prognóstico de forma honesta e construir uma decisão compartilhada.

Preservar, sim. Prometer, não.
Trincas e fraturas dentárias exigem uma odontologia madura.
Tecnologia, microscópio, tomografia e materiais avançados ajudam muito, mas nenhum deles substitui diagnóstico correto, raciocínio biológico, prognóstico honesto e comunicação clara com o paciente.
Preservar dentes é uma missão nobre.
Mas preservar não é romantizar o impossível.
O bom clínico não é aquele que promete salvar todos os dentes. É aquele que sabe reconhecer quando tentar, quando acompanhar, quando restaurar, quando proteger e quando dizer que a extração é, naquele caso, a alternativa mais segura.
Em Endodontia, a pergunta não deve ser apenas:
“É possível tratar?”
A pergunta mais importante é:
“É biologicamente razoável tratar este dente, neste paciente, com este prognóstico e com este nível de adesão ao acompanhamento?”
Essa é a diferença entre uma odontologia de procedimento e uma odontologia de decisão.

Conclusão
As trincas e fraturas dentárias estão entre os maiores desafios da odontologia contemporânea. Elas exigem integração entre Endodontia, Dentística, Periodontia, Prótese, Oclusão e diagnóstico por imagem.
O tratamento conservador pode ser uma excelente alternativa em casos bem indicados. Pode preservar osso, função, estética e qualidade de vida. Mas deve ser apresentado sempre como uma tentativa biologicamente fundamentada, nunca como garantia.
A tecnologia avançou. Os materiais evoluíram. A tomografia ampliou nossa visão. A magnificação refinou nossa prática.
Mas o que define o prognóstico ainda é a mesma tríade de sempre:
diagnóstico correto, controle dos fatores causais e reabilitação estrutural adequada.
Salvar dentes continua sendo uma das missões mais bonitas da odontologia.
Mas salvar com critério é ainda mais importante.

Mensagem final EndoToday
Antes de escolher o material, escolha o diagnóstico.
Antes de prometer longevidade, defina o prognóstico.
Antes de selar a trinca, controle a causa.
Não ensinamos tratar de dente. Ensinamos tratar do paciente.

FAQ — Perguntas frequentes sobre trincas e fraturas dentárias
1. Toda trinca dentária indica extração?
Não. Algumas trincas são superficiais e restritas ao esmalte. Outras podem envolver dentina, polpa, raiz ou periodonto. A indicação depende da extensão, dos sintomas, da possibilidade restauradora e do prognóstico.
2. Toda trinca dentária precisa ser tratada?
Não. Trincas de esmalte podem apenas ser acompanhadas. Já trincas com envolvimento dentinário, sintomas, infiltração, comprometimento pulpar ou perda óssea exigem investigação e possível tratamento.
3. A radiografia consegue mostrar uma trinca?
Na maioria das vezes, não diretamente. A radiografia costuma mostrar sinais indiretos, como perda óssea lateral, espessamento do ligamento periodontal ou lesão em formato de “J”.
4. A tomografia é melhor que a radiografia para diagnosticar fraturas?
Sim, em muitos casos a tomografia oferece mais detalhes, especialmente sobre perda óssea lateral e relação com a raiz. Porém, ela também tem limitações, principalmente quando há artefatos por pinos, restaurações metálicas ou material obturador.
5. Dor ao mastigar pode ser sinal de trinca?
Sim. Dor à mastigação, principalmente dor ao morder ou ao aliviar a mordida, pode ser um sinal importante de trinca. Mas esse sintoma não é exclusivo e precisa ser interpretado junto com outros achados clínicos.
6. Dente tratado endodonticamente tem mais risco de fratura?
Pode ter, especialmente quando há grande perda estrutural, desgaste cervical excessivo, preparo para pino, restauração inadequada ou sobrecarga oclusal. O risco não está apenas na endodontia, mas no conjunto estrutural e funcional do dente.
7. Bruxismo pode causar ou agravar trincas?
Sim. Bruxismo e apertamento podem aumentar a sobrecarga repetitiva sobre os dentes, favorecendo surgimento ou progressão de trincas, especialmente em dentes restaurados ou estruturalmente fragilizados.
8. O tratamento de uma trinca é garantia de sucesso?
Não. O tratamento conservador pode ser uma alternativa válida, mas o prognóstico depende do diagnóstico, da extensão da trinca, do controle infeccioso, da restauração final, da oclusão e da adesão do paciente ao acompanhamento.
9. O material usado para selar a trinca é o fator mais importante?
Não. O material é importante, mas não é o principal fator. Diagnóstico correto, controle dos fatores causais e reabilitação estrutural adequada são mais determinantes para o prognóstico.
10. Quando a extração é a melhor opção?
A extração pode ser a melhor opção quando há fratura vertical avançada, dente dividido com grande repercussão periodontal, perda óssea extensa, impossibilidade de restauração ou ausência de controle infeccioso e funcional.
Referências e leituras recomendadas
Patel S. et al. Position statement on longitudinal cracks and fractures of teeth. International Endodontic Journal. 2025. Documento recente de referência sobre etiologia, apresentação clínica, diagnóstico e manejo de trincas e fraturas longitudinais.
American Association of Endodontists. Cracked Teeth and Vertical Root Fractures. Material clínico da AAE sobre diagnóstico, sinais clínicos, exame objetivo e tomada de decisão em dentes trincados e fraturas verticais.
Kim KH et al. Developing evidence-based clinical imaging guidelines for teeth suspected with vertical root fractures. 2024. Estudo sobre diretrizes de imagem para dentes com suspeita de fratura vertical radicular.
Chugal N. et al. Applying the American Association of Endodontists and American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology guidelines for CBCT imaging in endodontics. Journal of the American Dental Association. 2024. Discussão sobre o impacto da CBCT no planejamento endodôntico.
Khasnis SA et al. Vertical root fractures and their management. Revisão sobre fraturas verticais radiculares, diagnóstico e manejo clínico.
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Sobre o autor

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.
