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Ligas NiTi e tratamentos térmicos: por que a metalurgia mudou a instrumentação endodôntica

Atualizado: 18 de set.

Cartaz em azul com instrumento endodôntico translúcido e broca metálica; texto: A Nova Era da Metalurgia Endodôntica.

Resumo do artigo

O níquel-titânio transformou a instrumentação endodôntica porque permitiu fabricar instrumentos mais flexíveis e capazes de acompanhar curvaturas com menor tendência à retificação quando comparados às limas de aço inoxidável.

Mas nem toda lima de NiTi se comporta da mesma forma.

O comportamento clínico depende da interação entre:

  • composição da liga;

  • fases metalúrgicas;

  • temperatura de transformação;

  • tratamento térmico;

  • processo de fabricação;

  • desenho transversal;

  • massa metálica;

  • diâmetro;

  • conicidade;

  • cinemática;

  • anatomia do canal.

Tratamentos termomecânicos permitiram modificar a proporção e a estabilidade das fases austenítica, martensítica e R, produzindo instrumentos com diferentes níveis de flexibilidade, memória de forma, força de restauração, resistência à fadiga e capacidade de progressão. Estudos laboratoriais demonstram que materiais termicamente tratados podem apresentar maior flexibilidade e resistência à fadiga cíclica, mas também confirmam que geometria, dimensões e desenho continuam sendo determinantes do comportamento mecânico.

Por isso, a pergunta correta não é:

Qual tratamento térmico é o melhor?

A pergunta clinicamente mais relevante é:

Qual comportamento metalúrgico esta anatomia exige?

Este é o décimo quarto artigo da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday.

Perguntas que este artigo responde

Pergunta

Resposta clínica

O que é uma liga de NiTi?

É uma liga formada principalmente por níquel e titânio, capaz de apresentar superelasticidade e memória de forma.

Toda lima de NiTi possui o mesmo comportamento?

Não. Tratamento térmico, fase metalúrgica, desenho, diâmetro e conicidade modificam seu desempenho.

O que são austenita, martensita e fase R?

São fases cristalográficas que apresentam comportamentos mecânicos diferentes.

Instrumentos martensíticos são sempre melhores?

Não. Eles tendem a ser mais flexíveis, mas podem apresentar menor força de avanço ou diferentes limites torcionais.

O que significa temperatura Af?

É a temperatura em que a transformação para austenita se completa durante o aquecimento.

A temperatura corporal influencia a lima?

Pode influenciar instrumentos cuja temperatura de transformação está próxima da temperatura clínica.

O que é M-Wire?

É um NiTi submetido a processamento termomecânico para modificar suas fases e propriedades mecânicas.

O que é Controlled Memory?

É uma tecnologia que reduz a memória de forma e favorece maior flexibilidade e possibilidade de pré-curvatura.

Blue e Gold significam a mesma coisa?

Não. São denominações relacionadas a processos térmicos distintos e não tornam instrumentos diferentes mecanicamente equivalentes.

A cor da lima define sua indicação?

Não. A indicação depende da liga, do desenho, da dimensão, da cinemática e da anatomia.

Uma lima mais flexível é sempre mais segura?

Não. Flexibilidade é apenas uma das propriedades necessárias.

Qual é a mensagem central?

A metalurgia modifica o instrumento, mas a anatomia continua determinando a indicação.


O que você vai entender neste artigo

  • Por que o NiTi mudou a instrumentação endodôntica.

  • Como austenita, martensita e fase R alteram o comportamento da lima.

  • O significado clínico das temperaturas de transformação.

  • As diferenças entre NiTi convencional, M-Wire, R-Phase e CM Wire.

  • Como os tratamentos Gold e Blue modificam os instrumentos.

  • O que o processo EDM acrescenta à fabricação.

  • Por que a temperatura corporal pode alterar flexibilidade e fadiga.

  • A diferença entre flexibilidade, memória de forma e força de restauração.

  • A relação entre liga, fadiga cíclica e fadiga torcional.

  • Por que uma lima mais flexível não é automaticamente melhor.

  • Como selecionar a liga de acordo com a anatomia.

  • Como aplicar a Matriz EndoToday à indicação metalúrgica.

Este artigo faz parte da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday, uma sequência de estudos sobre anatomia, seleção de limas, curvaturas radiculares, áreas de perigo, limas manuais, scouting, cateterismo, glide path, ligas NiTi, ampliação apical, irrigação e indicação clínica dos sistemas mecanizados.

Artigo anterior

No artigo anterior, você entendeu que o sistema mecanizado não deve descobrir o canal. Ele só deve entrar depois que a trajetória foi reconhecida e reproduzida manualmente.

Próximo artigo

No próximo artigo, vamos aprofundar os dois principais mecanismos de falha dos instrumentos mecanizados e entender como anatomia, torque, curvatura, tempo de uso e travamento interagem.

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Introdução

Durante décadas, a instrumentação dos canais radiculares foi realizada predominantemente com instrumentos de aço inoxidável.

Essas limas possuem boa capacidade de corte e resistência torcional, mas apresentam rigidez crescente à medida que o diâmetro aumenta.

Em canais curvos, essa rigidez pode favorecer:

  • retificação;

  • transporte;

  • degrau;

  • zíper apical;

  • perfuração;

  • perda da trajetória original.

A introdução do NiTi na Endodontia modificou esse cenário.

O trabalho clássico de Walia, Brantley e Gerstein demonstrou que instrumentos de Nitinol apresentavam maior flexibilidade em comparação com instrumentos de aço inoxidável de dimensões semelhantes, estabelecendo uma das bases para a instrumentação mecanizada contemporânea.

Entretanto, a primeira geração de instrumentos de NiTi não resolveu todos os problemas.

Esses instrumentos ainda podiam:

  • fraturar por fadiga cíclica;

  • travar por sobrecarga torcional;

  • exercer força de restauração contra a curvatura;

  • apresentar menor possibilidade de pré-curvatura;

  • produzir transporte quando mal indicados;

  • separar sem deformação visível prévia.

A evolução seguinte não aconteceu apenas no desenho das limas.

Aconteceu dentro do metal.

Os fabricantes passaram a modificar a liga por meio de tratamentos termomecânicos, alterando temperaturas de transformação, proporção das fases cristalográficas e comportamento mecânico.

A partir desse momento, escolher uma lima deixou de significar apenas selecionar uma ponta e uma conicidade.

Passou a significar também escolher uma metalurgia.

O que é o níquel-titânio?

O NiTi utilizado em instrumentos endodônticos é uma liga próxima da proporção equiatômica entre níquel e titânio.

Sua principal característica não está apenas na composição química, mas na capacidade de mudar reversivelmente sua estrutura cristalográfica em resposta à temperatura e ao estresse.

Essa transformação permite propriedades como:

  • superelasticidade;

  • memória de forma;

  • grande deformação recuperável;

  • menor módulo aparente em determinadas condições;

  • melhor adaptação a curvaturas.

No NiTi, uma lima pode se deformar durante a passagem por uma curvatura e recuperar parcial ou totalmente sua forma quando a tensão é removida.

Entretanto, a intensidade dessa recuperação depende da fase metalúrgica predominante e da temperatura em que o instrumento está trabalhando. Estudos estruturais mostram que NiTi convencional, M-Wire e fios termicamente tratados podem apresentar constituições de fase e módulos aparentes diferentes, mesmo quando sua composição química é semelhante.

Comparação de ferramenta em canal curvo: aço inoxidável rompe à esquerda e NiTi se adapta à direita; texto sobre superelasticidade.

A instrumentação não depende apenas da liga

É comum atribuir o desempenho de uma lima exclusivamente ao tipo de NiTi.

Essa interpretação é incompleta.

O comportamento de um instrumento depende da interação entre:

  • liga;

  • tratamento térmico;

  • seção transversal;

  • número de espiras;

  • passo;

  • ângulo helicoidal;

  • núcleo metálico;

  • ponta;

  • taper;

  • diâmetro;

  • acabamento superficial;

  • processo de usinagem;

  • cinemática;

  • velocidade;

  • torque;

  • anatomia.

Dois instrumentos produzidos com a mesma família metalúrgica podem apresentar comportamentos completamente diferentes se possuírem seções, massas metálicas, conicidades ou movimentos diferentes.

Em um estudo comparativo entre instrumentos de NiTi convencional, M-Wire e liga submetida a tratamento de fase R, liga, desenho e dimensões influenciaram flexibilidade, fadiga e resistência torcional. Os autores enfatizaram que a metalurgia não pode ser analisada separadamente da arquitetura do instrumento.

A frase correta é:

A liga modifica o instrumento. O desenho traduz essa liga em comportamento clínico.

Infográfico A Tríade Metalúrgica do NiTi com austenita, fase R e martensita em redes cristalinas sobre fundo azul.

As três fases que ajudam a explicar o comportamento do NiTi

O NiTi endodôntico pode apresentar três fases cristalográficas relevantes:

  • austenita;

  • martensita;

  • fase R.

Essas fases não representam materiais completamente diferentes.

Elas são diferentes organizações cristalográficas da mesma liga.

Sua presença depende de fatores como:

  • composição;

  • tratamento térmico;

  • temperatura;

  • tensão aplicada;

  • processo de fabricação.


Austenita: maior rigidez e capacidade de recuperação

A austenita é a fase de maior simetria cristalográfica.

Instrumentos predominantemente austeníticos tendem a apresentar:

  • maior superelasticidade;

  • maior força de restauração;

  • maior tendência a retornar à forma original;

  • maior rigidez relativa;

  • maior capacidade de avanço em alguns canais;

  • menor possibilidade de manter uma pré-curvatura.

Quando um instrumento austenítico é introduzido em uma curvatura, ele tende a exercer força contra as paredes enquanto tenta recuperar sua forma original.

Essa força pode ser útil para progressão e corte.

Mas também pode aumentar o risco de:

  • transporte;

  • retificação;

  • desgaste da parede externa;

  • concentração de tensão na curvatura.

Isso não torna a austenita inadequada.

Torna sua indicação dependente da anatomia.

Em canais retos ou com curvaturas suaves, sua maior força de restauração pode não representar problema importante.

Em curvaturas severas, abruptas ou múltiplas, a rigidez relativa merece maior atenção.

Martensita: maior flexibilidade e menor memória de forma

A martensita é uma fase mais facilmente deformável.

Instrumentos com maior conteúdo martensítico na temperatura clínica tendem a apresentar:

  • maior flexibilidade;

  • menor força de restauração;

  • maior possibilidade de pré-curvatura;

  • menor tendência de retornar imediatamente à forma original;

  • maior capacidade de acompanhar trajetórias complexas;

  • maior resistência à fadiga cíclica em muitas comparações laboratoriais.

A martensita pode se deformar por reorganização de variantes cristalográficas, acomodando melhor a curvatura.

Por isso, instrumentos com Controlled Memory e tratamentos térmicos que elevam as temperaturas de transformação podem permanecer mais martensíticos ou conter misturas de martensita, fase R e austenita em temperatura ambiente ou corporal. Estudos metalúrgicos de fios CM demonstraram temperaturas Af superiores a 37 °C em determinados instrumentos, indicando composição de fase distinta dos instrumentos superelásticos convencionais durante o uso clínico.

Entretanto, maior flexibilidade não significa automaticamente maior resistência a todas as formas de falha.

Um instrumento muito flexível pode:

  • apresentar menor força de progressão;

  • exigir caminho inicial mais bem estabelecido;

  • ter menor torque máximo em determinadas geometrias;

  • deformar sob cargas específicas;

  • trabalhar de maneira diferente em canais calcificados.

Flexibilidade protege contra determinadas tensões. Não elimina todas elas.

Fase R: uma condição intermediária

A fase R é uma estrutura intermediária que pode surgir durante a transformação entre austenita e martensita.

Ela pode ser induzida por:

  • temperatura;

  • tensão;

  • tratamento termomecânico.

Instrumentos com participação relevante de fase R podem apresentar comportamento intermediário entre austenita e martensita, com:

  • maior flexibilidade do que instrumentos predominantemente austeníticos;

  • menor força de restauração;

  • boa capacidade de deformação;

  • comportamento particular sob torção;

  • maior resistência à fadiga em determinadas configurações.

Em uma comparação entre instrumentos convencionais, M-Wire e tratados em fase R, o instrumento associado à fase R apresentou desempenho superior em flexibilidade, deflexão angular até a fratura e fadiga cíclica naquele desenho específico. Isso não prova superioridade universal, mas demonstra como a fase metalúrgica pode modificar significativamente o comportamento do instrumento.

As fases não ficam permanentemente paradas

Austenita, martensita e fase R não devem ser entendidas como rótulos fixos.

A proporção de cada fase pode mudar de acordo com:

  • temperatura;

  • tensão;

  • localização no instrumento;

  • processamento;

  • histórico térmico;

  • deformação mecânica.

Uma lima pode apresentar mistura de fases.

Além disso, diferentes porções do mesmo instrumento podem ter comportamento diferente devido à geometria, massa metálica e distribuição de tensão.

A descrição “lima martensítica” ou “lima austenítica” é uma simplificação útil.

Mas a realidade metalúrgica pode ser mais complexa.

Infográfico sobre o impacto da temperatura (Af), comparando lima flexível a 20°C e rígida a 37°C com termômetro central.

O que são as temperaturas de transformação?

As transformações do NiTi são descritas por temperaturas características.

Ms — início da transformação martensítica

É a temperatura em que a transformação de austenita para martensita começa durante o resfriamento.

Mf — fim da transformação martensítica

É a temperatura em que a transformação para martensita se completa.

As — início da transformação austenítica

É a temperatura em que a transformação de martensita para austenita começa durante o aquecimento.

Af — fim da transformação austenítica

É a temperatura em que a transformação para austenita se completa.

A temperatura Af possui importância clínica especial.

Quando a Af está muito abaixo da temperatura corporal, o instrumento tende a estar predominantemente austenítico durante o uso.

Quando a Af está próxima ou acima da temperatura clínica, o instrumento pode manter maior participação martensítica ou de fase R no interior do canal.

Essa diferença altera:

  • flexibilidade;

  • força de restauração;

  • memória de forma;

  • resistência à fadiga;

  • resposta ao aquecimento.

Estudos realizados em temperatura ambiente e corporal demonstraram que o aquecimento pode modificar a composição de fase, a carga de flexão e a resistência à fadiga de instrumentos termicamente tratados. A vantagem observada em temperatura ambiente pode ser reduzida ou alterada a 37 °C, dependendo do instrumento e de suas temperaturas de transformação.

A temperatura corporal importa

Grande parte dos testes históricos de fadiga foi realizada em temperatura ambiente.

Mas o instrumento trabalha dentro de um canal irrigado e próximo da temperatura corporal.

Essa diferença pode influenciar os resultados.

Quando a temperatura aumenta:

  • parte da martensita pode transformar-se em austenita;

  • a lima pode tornar-se relativamente mais rígida;

  • a força de restauração pode aumentar;

  • a resistência à fadiga pode diminuir em alguns instrumentos;

  • sistemas diferentes podem mudar sua ordem de desempenho.

Isso significa que o resultado de um teste realizado a 20 °C não deve ser transferido automaticamente para a clínica.

A temperatura da solução irrigadora também pode interferir no comportamento do instrumento.

Portanto, ao interpretar estudos de fadiga, o clínico precisa observar:

  • temperatura do ensaio;

  • raio da curvatura;

  • ângulo;

  • modelo estático ou dinâmico;

  • velocidade;

  • diâmetro;

  • conicidade;

  • cinemática;

  • desenho do instrumento.

O número de ciclos até a fratura não é uma característica absoluta da liga. É resultado de um método experimental específico.

Infográfico em fundo azul sobre a evolução termomecânica de limas NiTi, com tubos azul e laranja e textos explicativos.

NiTi convencional

O NiTi convencional foi a base das primeiras gerações de instrumentos mecanizados.

Na temperatura clínica, esses instrumentos tendem a apresentar comportamento predominantemente austenítico e superelástico.

Características gerais:

  • boa recuperação da forma;

  • maior rigidez relativa;

  • maior força de restauração;

  • menor possibilidade de pré-curvatura;

  • resistência à fadiga inferior à de muitos instrumentos termicamente tratados de desenho semelhante;

  • boa capacidade de progressão;

  • comportamento previsível em canais simples.

O NiTi convencional não deve ser considerado ultrapassado ou inútil.

Ele continua podendo apresentar bom desempenho em:

  • canais retos;

  • curvaturas suaves;

  • canais amplos;

  • sequências bem estabelecidas;

  • situações de baixa complexidade mecânica.

O problema surge quando o comportamento mais rígido é aplicado indiscriminadamente a curvaturas severas.

M-Wire: o início de uma nova geração

M-Wire foi uma das primeiras grandes modificações termomecânicas do NiTi utilizadas amplamente na Endodontia.

A composição química básica permanece próxima à do NiTi convencional, mas o processamento térmico e mecânico modifica as temperaturas de transformação e a presença de fases como martensita e fase R.

Em comparação com fios convencionais, estudos identificaram no M-Wire maior participação de martensita B19’ e fase R, além de menor tensão no platô de transformação e menor módulo aparente. PubMed

Em um estudo com instrumentos de geometria equivalente, instrumentos fabricados em M-Wire apresentaram resistência à fadiga cíclica significativamente maior do que os fabricados com NiTi convencional, mantendo propriedades torcionais comparáveis naquele modelo experimental. PubMed

Exemplos historicamente associados ao M-Wire incluem instrumentos de sistemas como:

  • ProTaper Next;

  • WaveOne original;

  • Reciproc original;

  • ProFile Vortex;

  • GT Series X.

Entretanto, esses sistemas possuem desenhos e cinemáticas diferentes.

Por isso, não devem ser considerados mecanicamente equivalentes apenas por utilizarem M-Wire.

Tratamento em fase R

Tratamentos associados à fase R foram desenvolvidos para modificar flexibilidade e resistência mecânica.

Exemplos historicamente relacionados incluem:

  • K3XF;

  • Twisted File.

A tecnologia Twisted File também envolveu torção do fio em fase apropriada, diferindo do processo convencional de usinagem.

A participação da fase R pode reduzir a carga necessária para flexão e melhorar o comportamento em determinadas curvaturas.

Contudo, a classificação “R-Phase” não informa sozinha:

  • seção transversal;

  • taper;

  • massa metálica;

  • capacidade de corte;

  • resistência torcional;

  • desempenho clínico completo.

A fase ajuda a explicar o comportamento.

Mas não substitui a análise do instrumento inteiro.

Controlled Memory: menor memória de forma

A tecnologia Controlled Memory foi desenvolvida para reduzir a memória de forma característica do NiTi superelástico.

Instrumentos CM podem manter uma curvatura aplicada manualmente, especialmente antes do uso.

Essa característica permite:

  • pré-curvatura;

  • adaptação a acessos limitados;

  • menor força de restauração;

  • progressão em trajetórias complexas;

  • menor tendência à retificação;

  • maior resistência à fadiga em muitas comparações laboratoriais.

Estudos metalúrgicos demonstraram diferenças importantes entre CM Wire e NiTi superelástico, incluindo temperaturas Af mais elevadas e comportamento de transformação distinto. Ensaios de fadiga também identificaram maior resistência de instrumentos CM em diferentes modelos experimentais.

Exemplos associados à tecnologia Controlled Memory incluem:

  • HyFlex CM;

  • determinados instrumentos HyFlex EDM;

  • Typhoon CM;

  • outros sistemas com tratamentos proprietários semelhantes.

A possibilidade de pré-curvatura é clinicamente interessante em:

  • canais com entrada deslocada;

  • canais calcificados;

  • curvaturas abruptas;

  • acessos conservadores;

  • canais com dupla curvatura;

  • limitações de inserção.

Mas uma lima CM não deve ser forçada em um canal calcificado apenas porque é flexível.

Ela continua precisando de:

  • scouting;

  • negociação;

  • glide path;

  • irrigação;

  • controle de pressão.

Tratamento Gold

Tratamentos Gold modificam o comportamento metalúrgico e podem elevar temperaturas de transformação, aumentando a participação de fases mais flexíveis durante o uso.

Exemplos comerciais incluem:

  • ProTaper Gold;

  • WaveOne Gold.

Em comparações laboratoriais, instrumentos submetidos ao tratamento Gold apresentaram menor carga de flexão e maior resistência à fadiga cíclica em relação a versões predecessoras com NiTi convencional ou M-Wire, embora os resultados variem conforme desenho, tamanho e método de teste.

É importante compreender:

Gold não é uma liga única.

A denominação está relacionada a um processo térmico proprietário.

ProTaper Gold e WaveOne Gold:

  • possuem cinemáticas diferentes;

  • apresentam desenhos diferentes;

  • possuem sequências diferentes;

  • apresentam distribuição de massa diferente;

  • não devem ser indicados apenas com base na cor.

Tratamento Blue

Instrumentos Blue recebem processamento térmico que gera uma camada superficial de aparência azulada e modifica temperaturas de transformação e comportamento mecânico.

Exemplos incluem:

  • Reciproc Blue;

  • Vortex Blue;

  • outros sistemas Blue de diferentes fabricantes.

Em estudos comparativos, tratamentos Blue produziram diferenças em flexibilidade e fadiga quando comparados às versões anteriores. Entretanto, sistemas Blue distintos não possuem necessariamente a mesma metalurgia, geometria ou desempenho.

A cor azul é um sinal visual do processamento.

Não é uma certificação universal de:

  • flexibilidade;

  • segurança;

  • torque;

  • resistência;

  • qualidade;

  • indicação.

A cor é consequência do processo. Não é a indicação clínica.

Gold e Blue não são sinônimos de superioridade universal

É tentador organizar os instrumentos em uma escala simples:

NiTi convencional → M-Wire → Gold ou Blue → melhor.

Essa leitura é inadequada.

Os tratamentos térmicos modificam propriedades específicas.

Mas uma lima pode apresentar:

  • maior resistência à fadiga;

  • menor torque até a fratura;

  • menor capacidade de avanço;

  • maior flexibilidade;

  • menor força de restauração;

  • seção mais frágil;

  • maior ou menor massa metálica.

Um instrumento pode ser excelente em fadiga cíclica e apresentar comportamento torcional menos favorável que outro.

Estudos comparativos mostram que diferentes ligas podem ocupar posições distintas quando avaliadas em flexibilidade, fadiga cíclica, torque máximo e ângulo de rotação até a fratura.

Por isso:

não existe tratamento térmico perfeito. Existem propriedades que precisam ser compatíveis com o risco predominante do caso.

EDM: tratamento térmico e processo de fabricação

EDM significa Electrical Discharge Machining, ou usinagem por descarga elétrica.

Nesse processo, o instrumento é moldado por descargas elétricas que removem pequenas porções do metal.

O processo pode produzir uma superfície e uma arquitetura diferentes das obtidas por usinagem convencional.

No caso de instrumentos como HyFlex EDM, a tecnologia EDM é aplicada a uma liga com características de Controlled Memory.

Estudos laboratoriais encontraram elevada resistência à fadiga cíclica e grande ângulo de rotação até a fratura em determinados instrumentos EDM, mas também demonstraram valores de torque até a falha diferentes dos observados em instrumentos M-Wire.

Isso demonstra novamente o princípio central:

ganhar flexibilidade e fadiga não significa ganhar simultaneamente todas as propriedades mecânicas.

Infográfico azul mostra lima em canal curvo, comparando Flexibilidade e Força de Restauração, com setas vermelhas e texto explicativo.

Flexibilidade: o que realmente significa?

Flexibilidade é a capacidade de o instrumento se curvar diante de uma carga.

Quanto menor a força necessária para produzir determinada deflexão, mais flexível é o instrumento.

A flexibilidade é influenciada por:

  • fase metalúrgica;

  • diâmetro;

  • taper;

  • núcleo metálico;

  • seção transversal;

  • tratamento térmico;

  • comprimento ativo;

  • temperatura.

Uma lima #20/.04 e uma lima #40/.06 da mesma liga não possuem a mesma flexibilidade.

O aumento do diâmetro e da massa metálica pode superar parte do benefício do tratamento térmico.

Por isso, não basta dizer:

esta liga é flexível.

É preciso perguntar:

este instrumento, nesta dimensão e neste desenho, é flexível o suficiente para esta curvatura?

Força de restauração

Força de restauração é a tendência de a lima retornar à sua forma original quando curvada.

Instrumentos predominantemente austeníticos geralmente exercem maior força de restauração.

Instrumentos martensíticos ou CM tendem a exercer menor força.

Clinicamente, uma força de restauração menor pode contribuir para:

  • menor pressão contra a parede externa da curvatura;

  • menor tendência à retificação;

  • melhor centralização;

  • menor transporte;

  • melhor adaptação a trajetórias complexas.

Mas força de restauração baixa também pode significar:

  • menor capacidade de progressão;

  • maior dependência de glide path;

  • necessidade de controle de movimentos;

  • dificuldade em superar interferências.

Nenhuma propriedade deve ser analisada isoladamente.

Memória de forma e possibilidade de pré-curvatura

Instrumentos superelásticos predominantemente austeníticos tendem a recuperar rapidamente sua forma original.

Isso dificulta a manutenção de uma pré-curvatura.

Instrumentos CM ou mais martensíticos podem aceitar e manter uma curvatura manual.

A pré-curvatura pode facilitar:

  • inserção em canais deslocados;

  • acesso a entradas fora do eixo;

  • negociação de curvaturas apicais;

  • adaptação a acessos conservadores;

  • trabalho em dentes posteriores com abertura limitada.

Entretanto, a possibilidade de pré-curvar uma lima mecanizada não significa que ela deva ser usada para scouting.

O caminho precisa continuar sendo reconhecido com instrumentos adequados.

Infográfico comparando fadiga cíclica e torcional em brocas, com tubos curvos, setas azul/laranja e texto explicativo.

Fadiga cíclica

A fadiga cíclica ocorre quando o instrumento gira ou se movimenta repetidamente dentro de uma curvatura.

Na região curva, o metal sofre ciclos alternados de:

  • tração;

  • compressão;

  • tração;

  • compressão.

Com a repetição, microtrincas podem se iniciar e crescer até a fratura.

O risco aumenta com:

  • menor raio de curvatura;

  • maior ângulo;

  • maior comprimento curvo;

  • múltiplas curvaturas;

  • maior tempo de permanência;

  • maior velocidade;

  • maior diâmetro;

  • maior taper;

  • maior rigidez;

  • reutilização;

  • tensão acumulada.

Tratamentos térmicos podem aumentar a resistência à fadiga ao favorecer estruturas mais flexíveis.

Entretanto, o desempenho depende da interação entre liga e desenho. Estudos com M-Wire, CM Wire, Gold, Blue e EDM mostram resultados diferentes entre sistemas, confirmando que a família metalúrgica não pode ser usada como único critério de classificação.

Fadiga torcional

A fadiga ou falha torcional ocorre quando parte do instrumento fica presa enquanto o eixo continua recebendo torque.

O risco aumenta quando:

  • a ponta trava;

  • o glide path é insuficiente;

  • o canal é calcificado;

  • há pressão apical;

  • a lima possui grande área de contato;

  • as espiras estão carregadas;

  • o torque é excessivo;

  • o instrumento é mantido parado;

  • há progressão forçada.

Uma lima mais flexível não é automaticamente mais resistente à torção.

Alguns instrumentos termicamente tratados apresentam maior ângulo de rotação até a fratura, permitindo maior deformação antes da separação.

Outros podem apresentar menor torque máximo devido à menor massa metálica ou à própria metalurgia.

Por isso, a pergunta correta não é:

qual lima é mais resistente?

É:

resistente a qual tipo de carga?

Fadiga cíclica e torcional não acontecem separadamente na clínica

Os testes laboratoriais frequentemente avaliam fadiga cíclica e torção separadamente.

Dentro do canal, essas cargas podem ocorrer simultaneamente.

Uma lima pode:

  • estar curvada;

  • tocar várias paredes;

  • sofrer pressão;

  • travar parcialmente;

  • continuar girando;

  • carregar debris;

  • receber tensão de flexão e torção ao mesmo tempo.

Estudos demonstram que pré-cargas torcionais podem reduzir posteriormente a resistência à fadiga cíclica de instrumentos convencionais e tratados.

Isso significa que o instrumento possui uma história mecânica.

Cada entrada no canal pode consumir parte de sua vida útil.

A ausência de deformação visível não garante ausência de dano interno.

Instrumentos termicamente tratados também fraturam

Tratamentos térmicos podem aumentar flexibilidade e resistência à fadiga.

Mas não transformam a lima em instrumento invulnerável.

Instrumentos termicamente tratados ainda podem fraturar por:

  • indicação inadequada;

  • ausência de glide path;

  • pressão excessiva;

  • tempo excessivo na curvatura;

  • canal seco;

  • espiras carregadas;

  • reutilização;

  • torque inadequado;

  • velocidade incorreta;

  • travamento;

  • defeitos de fabricação;

  • anatomia inesperada.

A tecnologia amplia a margem de segurança.

Não substitui o controle clínico.

Uma liga mais tolerante não corrige uma técnica agressiva.

Infográfico azul compara Lima A e B; setas mostram diferenças de rigidez/flexibilidade e alerta em português sobre cor e desempenho.

A cor não permite comparar instrumentos

Duas limas azuis podem apresentar:

  • tratamentos diferentes;

  • temperaturas Af distintas;

  • seções diferentes;

  • conicidades diferentes;

  • diferentes massas metálicas;

  • diferentes valores de torque;

  • diferentes níveis de flexibilidade;

  • diferentes cinemáticas.

O mesmo ocorre com instrumentos dourados.

Portanto, classificar sistemas apenas como:

  • convencional;

  • dourado;

  • azul;

é insuficiente para uma indicação de alto nível.

A análise deve considerar o instrumento completo.

Infográfico azul de instrumento odontológico com broca em explodido e textos sobre diâmetro, taper, núcleo e cinemática.

Como analisar uma lima além da cor

Antes de selecionar um instrumento, observe:

Liga e tratamento térmico

  • convencional;

  • M-Wire;

  • fase R;

  • CM;

  • Gold;

  • Blue;

  • EDM;

  • outro tratamento proprietário.

Temperatura Af

Quando disponível, ajuda a interpretar a fase provável na temperatura clínica.

Diâmetro da ponta

Pontas maiores aumentam massa metálica e contato.

Conicidade

Tapers maiores tendem a aumentar rigidez e desgaste dentinário.

Seção transversal

Influencia flexibilidade, corte, espaço para debris e resistência torcional.

Núcleo metálico

Quanto maior o núcleo, maior pode ser a rigidez.

Cinemática

Rotação contínua e reciprocância distribuem tensão de maneiras diferentes.

Anatomia

É o fator que transforma todas as propriedades anteriores em uma indicação clínica.

Slide azul com fresa dentária e textos sobre NiTi: Aplicação Clínica I: Austenita em Ação, onde usar NiTi convencional e M-Wire.

NiTi convencional: quando pode ser coerente

Pode ser adequado em:

  • canais retos;

  • canais amplos;

  • curvaturas suaves;

  • trajetórias previsíveis;

  • sequências progressivas;

  • casos com bom acesso em linha reta;

  • canais com glide path amplo.

Exige maior cautela em:

  • curvaturas abruptas;

  • pequeno raio;

  • curvaturas em S;

  • tripla curvatura;

  • raízes finas;

  • anatomias com áreas de perigo.

M-Wire: quando pode ser interessante

Pode oferecer equilíbrio entre:

  • força de progressão;

  • flexibilidade;

  • memória de forma;

  • resistência à fadiga.

Pode ser considerado em:

  • canais moderadamente curvos;

  • canais com trajetória já estabelecida;

  • instrumentação rotatória ou reciprocante conforme o sistema;

  • casos em que se deseja flexibilidade maior que o NiTi convencional sem perda completa da memória de forma.

O desempenho continua dependente do desenho.

CM Wire: quando a menor memória pode ajudar

Pode ser particularmente útil em:

  • canais severamente curvos;

  • curvaturas apicais;

  • acessos limitados;

  • necessidade de pré-curvatura;

  • canais em S;

  • raízes finas;

  • casos em que menor força de restauração é desejável.

Exige atenção para:

  • progressão;

  • capacidade de corte;

  • glide path;

  • deformações;

  • torque;

  • instruções de uso.

Alguns instrumentos CM podem apresentar deformação reversível ou sinais visíveis de alteração.

Isso não deve ser interpretado automaticamente como autorização para continuar usando.

Todo instrumento deformado precisa ser cuidadosamente avaliado.

Infográfico odontológico em fundo azul com dente transparente e lima curvada; texto sobre aplicação clínica da martensita.

Gold e Blue: indicação anatômica, não estética

Esses tratamentos podem ser interessantes em:

  • curvaturas moderadas ou severas;

  • canais com pequeno raio;

  • necessidade de maior flexibilidade;

  • sistemas reciprocantes;

  • situações de maior risco de fadiga cíclica.

Mas a indicação deve considerar:

  • tamanho;

  • taper;

  • seção;

  • movimento;

  • glide path;

  • anatomia;

  • pressão;

  • tempo de uso.

Uma lima Blue #25 com grande conicidade pode ser mais rígida em determinada região que outra lima convencional de menor diâmetro e taper.

A cor não supera a geometria.

Canais severamente curvos

Em canais severamente curvos, a seleção deve priorizar:

  • menor força de restauração;

  • menor massa metálica;

  • conicidade controlada;

  • maior flexibilidade;

  • resistência à fadiga;

  • progressão curta;

  • glide path seguro;

  • irrigação frequente;

  • tempo reduzido na curvatura.

Instrumentos termicamente tratados podem aumentar a margem de segurança.

Mas a decisão não termina na escolha da liga.

Também é necessário controlar:

  • comprimento de trabalho;

  • pressão;

  • cinemática;

  • número de utilizações;

  • limpeza das espiras;

  • inspeção do instrumento.

Curvaturas em S e tripla curvatura

Nesses canais, o instrumento pode sofrer tensões simultâneas em diferentes pontos.

A liga precisa acomodar:

  • primeira curvatura;

  • transição;

  • segunda curvatura;

  • possível terceira mudança de direção.

A estratégia deve considerar:

  • limas de menor taper;

  • liga mais flexível;

  • glide path progressivo;

  • uso limitado;

  • inspeção constante;

  • menor tempo intracanal;

  • substituição precoce diante de dúvida;

  • movimentos controlados.

A melhor liga não é necessariamente a mais flexível disponível.

É aquela que equilibra flexibilidade, progressão e resistência dentro daquela sequência.

Infográfico médico de um canal dentário calcificado com lima azul; texto sobre Paradoxo da Calcificação e regra de ouro.

Canais calcificados

Em canais calcificados, a flexibilidade isolada pode não ser suficiente.

O instrumento precisa:

  • penetrar;

  • resistir à torção;

  • manter direção;

  • trabalhar dentro de um caminho estreito;

  • não desviar.

Uma lima extremamente flexível pode ter dificuldade de progressão se o glide path for insuficiente.

Por isso, canais calcificados frequentemente exigem:

  1. localização;

  2. ultrassom quando indicado;

  3. limas manuais rígidas e finas;

  4. scouting;

  5. negociação;

  6. glide path;

  7. somente depois, instrumento mecanizado selecionado.

Em calcificações:

primeiro é necessário criar direção. Depois, escolher flexibilidade.

Retratamentos

Em retratamentos, o instrumento pode encontrar:

  • material obturador;

  • cimento;

  • curvaturas modificadas;

  • transporte;

  • degrau;

  • paredes enfraquecidas;

  • resistência irregular;

  • anatomia parcialmente desconhecida.

Nesses casos, pode ser necessário equilíbrio entre:

  • resistência torcional;

  • capacidade de corte;

  • flexibilidade;

  • resistência à fadiga;

  • capacidade de acompanhar desvios prévios.

Um instrumento extremamente flexível pode acompanhar melhor a trajetória, mas pode não ter a força necessária para remover determinados materiais.

Um instrumento mais rígido pode cortar melhor, mas aumentar o risco de transporte.

Por isso, retratamento frequentemente exige mais de uma propriedade e mais de um instrumento.

A liga também influencia a sensação clínica

O operador pode perceber diferenças entre instrumentos:

Austeníticos

  • maior tendência de retorno à forma;

  • maior sensação de pressão contra a parede;

  • progressão mais firme;

  • menor manutenção da pré-curvatura.

Martensíticos ou CM

  • sensação mais suave;

  • maior possibilidade de deformação;

  • menor força de restauração;

  • progressão potencialmente menos agressiva;

  • maior necessidade de caminho previamente definido.

Essas sensações não devem substituir evidência ou análise anatômica.

Mas fazem parte da leitura clínica do sistema.

Tabela clínica das principais famílias metalúrgicas

Família metalúrgica

Comportamento predominante

Principal vantagem

Principal cautela

NiTi convencional

Mais austenítico e superelástico

Progressão e recuperação da forma

Maior rigidez e força de restauração

M-Wire

Estrutura modificada com participação de fases intermediárias

Equilíbrio entre flexibilidade e fadiga

Não elimina rigidez ou fratura

R-Phase

Comportamento intermediário

Flexibilidade e deformação

Depende fortemente do desenho

CM Wire

Maior participação martensítica em determinadas temperaturas

Flexibilidade e pré-curvatura

Pode apresentar menor força de progressão

Gold

Tratamento térmico proprietário

Maior flexibilidade e resistência à fadiga em muitos sistemas

Sistemas Gold não são equivalentes

Blue

Tratamento térmico proprietário

Menor rigidez e maior fadiga em diversas comparações

Cor não define torque ou indicação

EDM

CM associada à usinagem por descarga elétrica em sistemas específicos

Elevada fadiga e flexibilidade

Torque e geometria precisam ser avaliados


Essa tabela representa tendências gerais.

Não substitui a avaliação do instrumento específico.

Tabela azul A Matriz Diagnóstica EndoToday compara anatomia, risco e estratégia metalúrgica para canais retos e curvos.

Matriz EndoToday para indicação da liga

Pergunta clínica

Interpretação

Conduta provável

O canal é reto e amplo?

Baixo risco de fadiga

Diferentes ligas podem funcionar

A curvatura é suave?

Risco controlável

Liga com equilíbrio entre progressão e flexibilidade

A curvatura é severa?

Maior fadiga e transporte

Priorizar maior flexibilidade e menor taper

O raio é pequeno?

Alta concentração de tensão

Tratamento térmico pode ampliar margem de segurança

Há curvatura em S?

Múltiplos pontos de tensão

Liga flexível e sequência conservadora

O canal é calcificado?

Alto risco torcional

Priorizar negociação e equilíbrio entre rigidez e resistência

A lima precisa ser pré-curvada?

Acesso ou trajeto complexo

Considerar CM ou instrumento com menor memória

Existe área de perigo?

Limite de desgaste

Controlar taper e força de restauração

O caso é retratamento?

Resistência irregular

Equilibrar corte, flexibilidade e torque

O glide path é insuficiente?

Alto risco de travamento

Não usar a liga para compensar falta de caminho

A temperatura Af é conhecida?

Ajuda a interpretar a fase clínica

Considerar comportamento em temperatura corporal

A lima apresenta deformação?

Possível consumo da vida mecânica

Retirar, inspecionar e considerar descarte


A matriz resume o princípio:

A anatomia identifica o risco. A metalurgia ajuda a escolher o comportamento necessário.

Infográfico azul com o título O Protocolo Clínico de 5 Etapas e passos sobre anatomia, risco, propriedade, instrumento e técnica.

Protocolo de decisão EndoToday

Etapa 1 — Classifique a anatomia

Avalie:

  • ângulo;

  • raio;

  • localização da curvatura;

  • número de curvaturas;

  • diâmetro;

  • calcificação;

  • espessura radicular;

  • áreas de perigo.

Etapa 2 — Identifique o risco predominante

Pergunte:

  • o maior risco é fadiga cíclica?

  • travamento torcional?

  • transporte?

  • falta de progressão?

  • desgaste excessivo?

  • perda da trajetória?

Etapa 3 — Defina a propriedade necessária

Pode ser:

  • maior flexibilidade;

  • menor força de restauração;

  • maior resistência torcional;

  • maior capacidade de corte;

  • possibilidade de pré-curvatura;

  • maior resistência à fadiga.

Etapa 4 — Analise o instrumento completo

Não escolha apenas pela liga.

Observe:

  • ponta;

  • taper;

  • seção;

  • massa metálica;

  • cinemática;

  • velocidade;

  • torque;

  • tratamento superficial.

Etapa 5 — Controle a técnica

Mesmo com a liga correta:

  • crie glide path;

  • irrigue;

  • limpe as espiras;

  • use pressão mínima;

  • limite o tempo intracanal;

  • inspecione;

  • descarte diante de dúvida.

Erros comuns na escolha de ligas NiTi

1. Escolher pela cor

Azul ou dourado não define sozinho flexibilidade, torque ou indicação.

2. Acreditar que todo tratamento térmico é igual

Processos proprietários produzem temperaturas de transformação e comportamentos diferentes.

3. Ignorar o desenho da lima

Seção, taper e massa metálica podem modificar completamente o efeito da liga.

4. Acreditar que maior flexibilidade significa maior segurança total

A lima pode ser resistente à fadiga e vulnerável ao travamento torcional.

5. Usar lima martensítica para substituir o glide path

A flexibilidade não cria automaticamente um caminho seguro.

6. Desconsiderar a temperatura corporal

O comportamento observado em temperatura ambiente pode mudar dentro do canal.

7. Comparar sistemas por um único teste de fadiga

O resultado depende do método e não representa toda a clínica.

8. Ignorar o diâmetro e o taper

Uma lima tratada de grande massa pode ser mais rígida que uma lima convencional menor.

9. Reutilizar porque a liga é termicamente tratada

Tratamento térmico não elimina o consumo da vida mecânica.

10. Usar a mesma liga em todas as anatomias

A anatomia deve definir a propriedade necessária.

O que este artigo ensina

Este artigo reforça que:

  1. Nem toda lima de NiTi possui o mesmo comportamento.

  2. Austenita, martensita e fase R modificam propriedades mecânicas.

  3. A temperatura Af ajuda a compreender a fase presente durante o uso.

  4. A temperatura corporal pode alterar flexibilidade e fadiga.

  5. NiTi convencional apresenta maior comportamento superelástico.

  6. M-Wire modificou a estrutura e melhorou propriedades específicas.

  7. CM Wire permite menor memória de forma e maior possibilidade de pré-curvatura.

  8. Gold e Blue representam tratamentos diferentes, não uma categoria universal.

  9. EDM associa metalurgia e processo específico de fabricação.

  10. Flexibilidade não significa resistência a todas as formas de fratura.

  11. Liga, desenho, dimensão e cinemática precisam ser avaliados juntos.

  12. A anatomia continua sendo o principal filtro de indicação.

A principal mensagem é:

A metalurgia modifica a lima. A anatomia define se esse comportamento é o que o canal precisa.

Como este artigo se conecta à Trilha de Instrumentação Endodôntica

Este é o décimo quarto artigo da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday.

Até aqui, a sequência mostrou que:

Instrumentar não é limpar.

Não existe lima perfeita. Existe indicação perfeita.

A anatomia vem antes da marca.

O raio da curvatura muda o risco.

A lima manual informa.

Scouting reconhece o trajeto.

Negociação preserva o caminho.

O glide path prepara a mecanização.

O sistema de glide path só deve entrar quando a anatomia autoriza.

Agora, este artigo explica por que dois instrumentos aparentemente semelhantes podem se comportar de maneira diferente dentro do mesmo canal.

A resposta está na interação entre:

metalurgia, desenho, dimensão, movimento e anatomia.

A partir daqui, a trilha segue para:

  • fadiga cíclica e torcional;

  • ampliação apical e irrigação;

  • diagnóstico e objetivo biológico da instrumentação;

  • escolha entre movimento rotatório, reciprocante e alternado;

  • Matriz EndoToday de indicação anatômica.

Este artigo faz parte da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday, uma sequência de estudos sobre anatomia, seleção de limas, curvaturas radiculares, áreas de perigo, limas manuais, scouting, cateterismo, glide path, ligas NiTi, ampliação apical, irrigação e indicação clínica dos sistemas mecanizados.

Artigo anterior

No artigo anterior, você entendeu que o sistema mecanizado não deve descobrir o canal. Ele só deve entrar depois que a trajetória foi reconhecida e reproduzida manualmente.

Próximo artigo

No próximo artigo, vamos aprofundar os dois principais mecanismos de falha dos instrumentos mecanizados e entender como anatomia, torque, curvatura, tempo de uso e travamento interagem.

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Mão enluvada com broca sobre dente translúcido azul; texto: A Decisão Final, A Metalurgia modifica. A Anatomia indica. O Clínico decide.

Conclusão

A evolução das ligas NiTi não criou uma lima universal.

Criou instrumentos com comportamentos diferentes.

Alguns apresentam:

  • maior superelasticidade;

  • maior memória de forma;

  • maior força de restauração.

Outros apresentam:

  • maior flexibilidade;

  • menor memória;

  • maior possibilidade de pré-curvatura;

  • maior resistência à fadiga.

Nenhuma dessas características é suficiente isoladamente.

Uma lima muito flexível pode apresentar baixa capacidade de progressão.

Uma lima mais rígida pode cortar com eficiência, mas exercer maior pressão contra a curvatura.

Uma liga resistente à fadiga pode não apresentar o maior torque até a fratura.

Um tratamento Gold ou Blue pode ampliar a margem de segurança, mas não corrige ausência de glide path, excesso de pressão ou indicação inadequada.

Por isso, a seleção não deve começar pela cor.

Deve começar pela anatomia.

Primeiro, identifique o risco.

Depois, determine qual comportamento mecânico é necessário.

Só então escolha a liga, o desenho, a conicidade e o movimento.

A metalurgia modifica. A anatomia indica. O clínico decide.

EndoToday — Endodontia baseada em raciocínio clínico.


A cor da lima não define sua indicação

Tratamentos térmicos modificam flexibilidade, memória, força de restauração e resistência à fadiga.

Mas nenhum tratamento torna um instrumento perfeito para todos os canais.

Continue na trilha e entenda como fadiga cíclica e fadiga torcional levam à fratura — e por que prevenir exige mais do que controlar o torque do motor.

A metalurgia modifica a lima. A anatomia define o risco.




Tela azul com FAQ, Perguntas Frequentes e Base científica. Respostas claras., com balões e interrogação.

FAQ — Perguntas frequentes sobre ligas NiTi e tratamentos térmicos

O que é uma liga NiTi?

É uma liga formada principalmente por níquel e titânio, capaz de apresentar superelasticidade, memória de forma e transformação reversível entre diferentes fases cristalográficas.

Toda lima de NiTi se comporta da mesma maneira?

Não. O comportamento depende da metalurgia, do tratamento térmico, do desenho, do diâmetro, da conicidade, da cinemática e da anatomia do canal.

O que é austenita?

Austenita é uma fase do NiTi associada a maior superelasticidade, maior força de restauração e maior tendência de o instrumento retornar à forma original.

O que é martensita?

Martensita é uma fase mais facilmente deformável, normalmente associada a maior flexibilidade, menor força de restauração e maior possibilidade de pré-curvatura.

O que é fase R?

É uma fase intermediária que pode surgir durante a transformação entre austenita e martensita, modificando flexibilidade e resposta mecânica.

O que significa temperatura Af?

É a temperatura na qual a transformação do NiTi para a fase austenítica se completa durante o aquecimento.

A temperatura corporal pode mudar o comportamento da lima?

Sim. Instrumentos com temperaturas de transformação próximas da temperatura clínica podem alterar sua composição de fase, rigidez e resistência à fadiga dentro do canal.

O que é M-Wire?

É um NiTi submetido a processamento termomecânico que modifica suas fases e propriedades em comparação ao NiTi convencional.

O que é Controlled Memory?

É uma tecnologia termomecânica que reduz a memória de forma, favorecendo maior flexibilidade e possibilidade de manter uma pré-curvatura.

Instrumentos Gold e Blue são sempre mais seguros?

Não. Eles podem apresentar vantagens específicas de flexibilidade e fadiga, mas a segurança depende também do desenho, da dimensão, da cinemática, da anatomia e da técnica.

Uma lima mais flexível é sempre melhor?

Não. Maior flexibilidade pode reduzir determinadas tensões, mas também pode modificar progressão, corte e resistência torcional.

Qual é a principal mensagem deste artigo?

A principal mensagem é que a metalurgia modifica o comportamento da lima, mas a anatomia determina qual comportamento é necessário.

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Sobre o autor


Marco Aurélio Gagliardi Borges de terno azul e gravata azul claro, com expressão neutra, braços cruzados. Fundo preto.

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.


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Acervo histórico relacionado — NiTi e tratamento térmico

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