Cone principal: seleção, calibração e adaptação apical

Selecionar o cone principal não é simplesmente pegar uma guta-percha com o mesmo número da última lima utilizada. Diâmetro nominal, taper nominal, geometria real do preparo, tolerâncias de fabricação e anatomia original do canal podem gerar diferenças importantes entre o instrumento e o cone. A calibração apical e a interpretação conjunta de comprimento, resistência à remoção e confirmação radiográfica tornam a seleção mais racional — sem transformar nenhum desses critérios isoladamente em prova de adaptação perfeita.
O cone principal deve ser selecionado a partir do diâmetro e da geometria produzidos pelo preparo, mas o número da última lima deve ser considerado apenas uma referência inicial. Cones de guta-percha apresentam variabilidade dimensional, e mesmo cones “matched taper” não reproduzem necessariamente a anatomia real do canal. A calibração da ponta pode melhorar o controle do D0, mas não garante adaptação circunferencial. O ajuste clínico deve integrar comprimento, calibração, sensação de resistência, radiografia e conhecimento da anatomia preparada.

Cone principal: selecionar não é simplesmente “combinar números”
Terminamos o preparo com uma lima 25/.06.
A decisão parece óbvia:
usar um cone 25/.06.
Instrumento e cone têm o mesmo número.
Portanto, deveriam possuir a mesma geometria.
Certo?
Não necessariamente.
Esse é um dos atalhos mais sedutores da Endodontia contemporânea.
Os sistemas mecanizados evoluíram para oferecer limas e cones correspondentes, criando o conceito de:
matched taper
ou:
cone correspondente ao preparo.
A ideia é excelente.
Mas há um problema fundamental:
o instrumento possui geometria industrial, o cone possui geometria industrial e o canal possui geometria biológica.
Esses três elementos não são automaticamente iguais.
O que você vai aprender
Pergunta | Conceito central |
Última lima define automaticamente o cone? | Não. É apenas referência inicial |
Cone 25 significa exatamente 0,25 mm? | Nominalmente sim; na prática existem tolerâncias dimensionais |
Lima 25 e cone 25 necessariamente possuem o mesmo D0? | Não |
Taper correspondente garante adaptação? | Não |
Matched taper significa matched anatomy? | Definitivamente não |
Calibrar o cone ajuda? | Sim, especialmente no controle do D0 |
Calibração garante contato circunferencial? | Não |
O cone precisa chegar ao comprimento de trabalho? | Depende da estratégia de preparo e obturação |
Tug-back é útil? | Pode fornecer informação, mas não prova adaptação apical perfeita |
Radiografia confirma adaptação? | Ajuda no controle de extensão e posição, mas continua sendo uma projeção bidimensional |

Primeiro princípio: D0 nominal não é necessariamente D0 real
Quando utilizamos um instrumento #25, sua ponta nominal corresponde a:
0,25 mm.
Da mesma maneira, um cone #25 deveria apresentar aproximadamente:
0,25 mm em D0.
Essa padronização criou uma linguagem extraordinariamente útil.
Mas existe uma palavra fundamental:
nominal.
Na fabricação real, existem tolerâncias.
E isso vale tanto para:
instrumentos;
cones.
Estudos avaliando cones comerciais há décadas mostram variação entre o diâmetro esperado e o diâmetro efetivamente medido.
O problema não desapareceu completamente com os sistemas contemporâneos.
Estudo publicado em 2025 avaliando cones ISO #30 com tapers .04 e .06 demonstrou diferenças dimensionais significativas entre fabricantes, particularmente nos cones .06.
Portanto:
o número impresso na caixa descreve uma intenção geométrica, não uma garantia micrométrica absoluta.

A última lima é referência — não um molde do canal
Se o preparo termina com:
25/.06
sabemos algo importante:
o instrumento final possui determinada ponta nominal e determinada geometria projetada.
Mas o formato final do canal depende também de:
anatomia prévia;
curvatura;
ovalização;
confluências;
áreas de contato;
resistência dentinária;
sequência de instrumentos;
cinemática;
número de movimentos;
desgaste do instrumento.
Portanto, o canal não se transforma automaticamente em uma réplica negativa perfeita da lima.
Esse conceito é central:
A lima define parte da geometria do preparo. A anatomia continua definindo o canal.

Matched taper não significa matched anatomy
Esse talvez seja o ponto mais importante deste artigo.
Em 2025, Deng e Abbott avaliaram, por micro-CT, cones correspondentes aos sistemas utilizados para preparar canais radiculares humanos.
Foram utilizados sistemas mecanizados diferentes e seus respectivos cones “matched”.
O resultado é extremamente didático:
mais de um terço do espaço do canal permaneceu não ocupado pelos cones correspondentes.
Ou seja:
instrumento correspondente
cone correspondente
não produziu:
ocupação correspondente da anatomia.
Isso não significa que o conceito de matched taper seja inútil.
Significa apenas que devemos interpretá-lo corretamente.
Matched taper aproxima cone e preparo. Não transforma anatomia irregular em geometria industrial perfeita.

O problema aparece principalmente em canais ovais
Imagine um canal circular.
Um cone circular pode aproximar-se razoavelmente de sua geometria.
Agora imagine um canal oval.
O cone permanece circular.
Portanto, mesmo que ele toque:
vestibularmente;
lingualmente;
podem existir espaços importantes:
mesialmente;
distalmente.
Ou o inverso.
Isso explica por que:
contato não significa contato circunferencial.
E também explica parte das limitações do tug-back.
A geometria apical também pode permanecer irregular
Mesmo os últimos milímetros do canal não são necessariamente circulares.
A região apical pode apresentar:
ovalização;
achatamento;
irregularidades;
ramificações;
múltiplos forames;
constrições assimétricas.
Quando falamos:
“adaptação apical do cone”
precisamos perguntar:
adaptação onde e em quantos graus da circunferência?
Um cone pode apresentar contato em dois pontos opostos e ainda deixar espaços importantes ao redor.
Qual é, então, a função real do cone principal?
O cone principal precisa cumprir funções práticas importantes.
Ele deve:
atingir a extensão planejada;
possuir diâmetro apical compatível;
oferecer estabilidade;
funcionar como núcleo da obturação;
controlar parte do volume de cimento;
participar da distribuição do material obturador;
permitir eventual retratamento.
Mas não precisa — e biologicamente não consegue — transformar-se em uma réplica tridimensional perfeita de toda a anatomia.
Esse é um ponto essencial.
A seleção começa pela última lima — mas não termina nela
Uma sequência racional seria:
instrumento final↓cone nominal correspondente↓teste clínico↓calibração quando necessária↓avaliação do comprimento↓resistência à remoção↓controle radiográfico quando indicado↓decisão
Isso é diferente de:
25/.06 → cone 25/.06 → obtura.
O que é realmente o D0?
D0 representa o diâmetro na extremidade do cone.
Em um cone #25:
D0 nominal = 0,25 mm.
Se o taper é .06:
teoricamente:
D1 = 0,31 mmD2 = 0,37 mmD3 = 0,43 mm
e assim sucessivamente, enquanto o taper permanecer constante.
Essa matemática é extremamente útil.
Mas é uma representação geométrica.
O cone real pode apresentar pequenas variações.
E, mais importante:
o canal real certamente apresentará variações.

Por que calibrar a ponta do cone?
A calibração procura aumentar o controle sobre uma variável crítica:
o diâmetro apical real da guta-percha.
Utilizando um calibrador de cones, podemos cortar a extremidade e obter aproximadamente um D0 desejado.
Exemplo:
se o preparo apical foi finalizado em #35, pode-se calibrar um cone para aproximadamente:
0,35 mm em D0.
Isso reduz nossa dependência exclusiva da marcação industrial.
Calibrar não significa “criar adaptação perfeita”
Esse é outro ponto importante.
Calibrar o cone melhora o controle do diâmetro da ponta.
Mas não modifica automaticamente:
formato oval do canal;
irregularidades;
conicidade real do preparo;
regiões não instrumentadas;
discrepâncias tridimensionais.
Portanto:
calibração controla D0; não controla anatomia.
Cortar a ponta altera o cone
Quando cortamos um cone mais largo para obter determinado diâmetro:
criamos um novo D0;
alteramos a geometria da extremidade;
produzimos uma ponta mais plana;
modificamos a posição do restante do cone em relação ao canal.
Isso pode ser útil.
Mas exige controle.
Cortes excessivos podem:
aumentar demais o diâmetro;
impedir chegada ao comprimento;
criar resistência em região inadequada.
Portanto, o processo deve ser incremental.
Um protocolo racional de calibração
Uma sequência prática pode ser:
selecionar cone próximo ao instrumento final;
calibrar a ponta no diâmetro desejado;
inserir no canal;
verificar comprimento;
avaliar resistência;
remover e inspecionar;
recalibrar se necessário;
confirmar extensão.
Essa abordagem reduz o comportamento de tentativa-e-erro aleatória.
Cone que não chega ao comprimento: o que isso significa?
Nem sempre significa que o cone está “errado”.
Pode significar:
D0 excessivo;
taper excessivo;
interferência coronal;
interferência no terço médio;
canal curvo;
cone deformado;
debris;
preparo insuficiente;
discrepância entre cone e instrumento;
resistência lateral antes da região apical.
Esse último item é extremamente importante.

Resistência lateral pode simular adaptação apical
Imagine um cone .06 em um canal cujo terço médio apresenta constrição.
O cone pode travar a 1 mm do comprimento.
O clínico sente:
resistência.
Mas essa resistência pode estar ocorrendo muito acima do ápice.
Portanto:
sentir que o cone “prendeu” não informa necessariamente onde ele prendeu.
Essa será justamente a questão central do próximo artigo sobre tug-back.
E se o cone ultrapassa facilmente o comprimento?
Isso também exige interpretação.
Possibilidades:
cone apicalmente pequeno;
cone fora de padrão;
preparo apical maior que o esperado;
constrição apical ausente ou alterada;
reabsorção;
sobreinstrumentação;
patência ampliada;
anatomia apical ampla.
Nessa situação, simplesmente cortar alguns milímetros coronais do cone não resolve o problema.
O que precisamos modificar é:
o diâmetro da extremidade que chega ao ápice.
Calibração não é cortar comprimento
Esse erro merece destaque.
Se um cone #25 ultrapassa facilmente o comprimento e o clínico simplesmente corta 1 mm da parte coronal, o D0 continua praticamente o mesmo.
Ele apenas encurtou o cone.
Para aumentar o diâmetro apical, precisamos:
seccionar a ponta do cone em uma região mais larga.
É uma diferença geométrica simples, mas clinicamente fundamental.

Comprimento e diâmetro são problemas diferentes
Sempre devemos separar duas perguntas:
O cone chega ao comprimento correto?
e
O cone possui diâmetro apical adequado?
Um cone pode:
atingir o comprimento e estar frouxo;
atingir o comprimento e travar;
ficar curto por interferência lateral;
ultrapassar o limite porque é pequeno.
Portanto:
extensão ≠ adaptação.

E a radiografia do cone?
A radiografia de prova continua sendo uma ferramenta útil em determinadas situações.
Ela pode informar:
extensão;
trajetória;
posicionamento;
relação com ápice radiográfico;
eventuais discrepâncias evidentes.
Mas possui limitações importantes.
A radiografia é:
bidimensional;
dependente de angulação;
incapaz de mostrar contato circunferencial;
incapaz de medir microespaços ao redor do cone.
Portanto:
uma prova radiográfica perfeita não prova adaptação tridimensional perfeita.
Devemos sempre fazer radiografia de prova?
Não necessariamente como regra universal.
A necessidade depende de:
complexidade;
experiência;
técnica;
anatomia;
confiabilidade da odontometria;
segurança do ajuste;
protocolo clínico.
Mas, nos casos em que existe dúvida sobre extensão ou adaptação, ela continua sendo uma ferramenta extremamente útil.
O localizador apical também não resolve esse problema
O localizador apical determina uma relação elétrica associada ao comprimento do canal.
Ele ajuda extraordinariamente na determinação do comprimento de trabalho.
Mas não informa:
diâmetro;
formato;
adaptação do cone;
quantidade de cimento necessária.
Portanto:
odontometria e cone fit são decisões relacionadas, mas diferentes.
O diâmetro apical preparado importa
Se aumentamos o preparo apical de:
para:
#35,
alteramos diretamente:
diâmetro do preparo;
cone necessário;
volume potencial de cimento;
comportamento da região apical.
Isso conecta este artigo diretamente ao cluster de Instrumentação.
A decisão tomada durante o preparo condiciona a obturação.
A obturação começa durante a instrumentação.
A anatomia inicial continua importando depois do preparo
Um canal oval preparado até #35 continua podendo ser oval.
Um canal com istmo continua podendo apresentar istmo.
Um canal achatado não se torna necessariamente circular.
Portanto:
a última lima informa o instrumento utilizado. Não descreve toda a anatomia obturada.
Esse é um dos maiores erros de interpretação de sistemas mecanizados.
Quanto espaço pode permanecer ao redor de um cone matched?
O estudo ex vivo de Deng e Abbott publicado em 2025 oferece uma resposta provocadora.
Após preparo de canais humanos com três sistemas contemporâneos e inserção dos cones correspondentes, micro-CT demonstrou:
mais de um terço do volume do canal não estava ocupado pelo cone.
Esse dado precisa ser interpretado corretamente.
Não significa que a obturação final necessariamente deixaria 1/3 vazio, porque o cimento ocuparia parte desse espaço.
Mas demonstra claramente que:
o cone correspondente não reproduz a anatomia preparada.
Essa é precisamente a função da interface cimentícia.

Isso também explica por que a espessura de cimento varia
Se o cone não toca circunferencialmente toda a parede, a camada de cimento será:
fina em algumas regiões;
mais espessa em outras.
Isso ocorre particularmente em:
canais ovais;
achatados;
istmos;
irregularidades.
Portanto:
“película uniforme de cimento” é muito mais uma simplificação didática do que uma realidade anatômica universal.
O cone ideal deve travar no ápice?
Aqui precisamos ser precisos.
Alguma resistência à remoção pode sugerir maior contato do cone.
Estudos experimentais encontraram correlação entre maior tug-back e maior área ocupada por guta-percha na região apical.
Mas mesmo com tug-back forte:
espaços permaneceram.
Em um estudo de Jamleh e colaboradores, o grupo com tug-back forte apresentou maior ocupação por guta-percha, mas aproximadamente um quinto da região apical ainda permaneceu sem ser ocupado pela guta-percha.
Portanto:
tug-back pode ser informativo. Não é prova de adaptação completa.
Esse tema será aprofundado no próximo artigo.
E tug-back excessivamente forte?
Também merece cautela.
Resistência excessiva pode resultar de:
cone muito largo;
taper excessivo;
travamento coronal;
interferência no terço médio.
Ou seja:
mais tug-back não significa automaticamente melhor adaptação.
O objetivo não é criar um cone “preso”.
É criar:
um cone corretamente posicionado e dimensionalmente compatível com o preparo.
O cone deve ocupar 100% do canal?
Fisicamente, não.
Principalmente em técnicas de cone único, existe uma interface que será preenchida pelo cimento.
A questão relevante não é:
“O cone toca todas as paredes?”
mas:
“A relação entre cone, cimento, preparo e anatomia é adequada para a técnica escolhida?”
Essa é uma pergunta muito mais realista.
Cone principal em técnicas com cimento hidráulico
Com cimentos de silicato de cálcio, o papel do cone precisa ser compreendido de maneira específica.
O cone:
controla extensão;
fornece núcleo;
desloca o cimento;
reduz excesso volumétrico exclusivamente cimentício;
facilita retratamento.
Mas o cimento participa mais intensamente do preenchimento da interface.
Portanto:
uma técnica sealer-based não elimina a necessidade de selecionar corretamente o cone.
Ao contrário.
Um cone apicalmente muito pequeno pode gerar:
maior espessura de cimento;
menor controle apical;
maior risco de extrusão do cimento.
Cone muito justo também pode criar problemas
Um cone excessivamente adaptado pode:
não chegar ao comprimento;
arrastar cimento apicalmente;
produzir pressão;
dificultar assentamento;
gerar falsa sensação de segurança.
Portanto, não buscamos:
o cone mais apertado possível.
Buscamos:
o cone adequado.

Matriz EndoToday — interpretação do cone principal
Achado | Possível interpretação | Próxima decisão |
Chega ao comprimento e fica extremamente frouxo | D0 pequeno ou pouco contato | Recalibrar / selecionar cone maior |
Ultrapassa o comprimento | Cone pequeno ou região apical ampla | Aumentar D0 / reavaliar preparo |
Fica curto e apresenta resistência forte | Interferência lateral ou cone grande | Identificar ponto de travamento |
Chega ao comprimento com resistência leve/moderada | Potencial adaptação adequada | Avaliar conjunto dos critérios |
Cone matched chega, mas parece frouxo | Discrepância dimensional/anatômica | Calibrar e reavaliar |
Radiografia correta, mas cone sem estabilidade | Extensão correta ≠ adaptação | Reavaliar D0 |
Tug-back presente | Existe contato | Não presumir contato circunferencial |

Matriz de decisão clínica EndoToday
CENÁRIO 1 — Preparo 25/.06 + cone 25/.06 correspondente
Primeira escolha:
O cone correspondente é um bom ponto de partida.
Mas verificar:
chega ao comprimento?
está frouxo?
existe resistência?
dimensão apical parece compatível?
Conduta:
Não aceitar o número da caixa como confirmação automática.
CENÁRIO 2 — Cone ultrapassa o comprimento
Possibilidade:
D0 insuficiente.
Conduta:
Calibrar para diâmetro maior e repetir prova.
CENÁRIO 3 — Cone fica curto
Perguntar:
É grande no ápice ou está travando antes?
Conduta:
Diferenciar:
interferência apicaldeinterferência lateral/coronal.
CENÁRIO 4 — Canal oval
Problema:
Cone circular não reproduz a anatomia.
Conduta:
Aceitar que cimento e técnica precisarão manejar a discrepância geométrica.
CENÁRIO 5 — Cimento hidráulico + cone único
Objetivo:
Cone dimensionalmente controlado, especialmente apicalmente.
Evitar:
cone muito frouxo + grande volume de cimento apical.
O que a evidência NÃO permite afirmar
“A última lima determina exatamente o cone”
Não.
Ela fornece referência inicial.
“Cone 25 é exatamente igual a lima 25”
Não necessariamente.
Existem tolerâncias dimensionais.
“25/.06 da lima produz canal 25/.06 perfeito”
Não.
Anatomia interfere no preparo.
“Matched taper significa adaptação perfeita”
Não.
Evidência recente mostra grande quantidade de espaço não ocupado mesmo com cones correspondentes.
“Calibrar o cone resolve toda discrepância”
Não.
Calibração controla principalmente D0.
“Tug-back prova adaptação apical”
Não.
Ele informa resistência ao deslocamento.
“Radiografia perfeita prova contato circunferencial”
Não.
Radiografia é bidimensional.
Força da evidência — síntese EndoToday
Afirmação | Confiança |
Cones apresentam variabilidade dimensional | Alta |
D0 nominal não garante D0 exatamente igual em todos os cones | Alta |
Última lima deve ser apenas referência inicial para o cone | Alta |
Matched cones melhoram padronização operacional | Plausível e clinicamente útil |
Matched taper garante matched anatomy | Falso |
Calibração melhora controle do diâmetro apical | Alta |
Calibração garante adaptação circunferencial | Não |
Tug-back correlaciona-se com maior contato em estudos experimentais | Moderada |
Tug-back comprova preenchimento completo | Não |
Radiografia mostra adaptação tridimensional | Não |
Canal oval permanece desafio mesmo após preparo | Alta |
Um achado de 2025 que muda a maneira de ensinar cone único
O estudo de Deng e Abbott merece destaque especial.
Canais humanos foram preparados com:
TF Adaptive;
ProTaper Next;
ProTaper Ultimate.
Depois foram inseridos os cones correspondentes.
O micro-CT demonstrou:
mais de um terço do canal permaneceu não ocupado pelos cones em todos os grupos.
Isso derruba uma imagem mental muito comum:
“A lima prepara o formato e o cone preenche exatamente esse formato.”
Não.
O que acontece é:
INSTRUMENTO↓modifica parte da anatomia
CONE↓ocupa parte da anatomia preparada
CIMENTO↓maneja parte da interface restante
Essa visão é muito mais próxima da realidade.
O cone principal é uma decisão geométrica
A escolha do cone não deveria ser feita por automatismo.
Ela integra:
D0;
taper;
comprimento;
anatomia;
preparo;
cimento;
técnica.
Por isso:
cone principal não é simplesmente o cone que entra no canal.
É o cone que melhor cumpre a função de núcleo dentro da estratégia obturadora escolhida.

Implicação clínica
Depois de terminar o preparo, não pergunte apenas:
“Qual foi minha última lima?”
Pergunte:
qual foi o diâmetro apical realmente preparado?
esse cone possui D0 compatível?
preciso calibrá-lo?
ele chega ao comprimento sem ultrapassar?
onde está ocorrendo sua resistência?
o canal é circular ou oval?
qual cimento será utilizado?
qual espessura provável de cimento existirá?
estou interpretando um número ou a anatomia?
Essa é a diferença entre:
escolher um cone
e
planejar uma obturação.

Conclusão
Selecionar o cone principal pela numeração da última lima é útil.
Mas insuficiente.
O instrumento final fornece uma referência geométrica.
O cone apresenta uma geometria nominal.
E o canal preserva parte importante de sua anatomia original.
Por isso:
última lima ≠ canal real ≠ cone real.
A calibração melhora o controle do D0.
O comprimento controla extensão.
A radiografia fornece uma projeção útil.
O tug-back acrescenta informação mecânica.
Mas nenhum desses elementos, isoladamente, demonstra adaptação tridimensional perfeita.
A decisão precisa resultar da combinação entre:
preparo + anatomia + cone + cimento + técnica.
E isso nos conduz diretamente à próxima pergunta:
Se o cone oferece resistência à remoção, isso realmente significa que ele está adaptado no ápice?
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Perguntas frequentes
Como escolher o cone principal de guta-percha?
A última lima utilizada pode orientar a seleção inicial, mas o cone deve ser confirmado clinicamente por comprimento, diâmetro apical, estabilidade, resistência e compatibilidade com a anatomia e técnica obturadora.
Cone #25 significa exatamente 0,25 mm?
O valor nominal corresponde a 0,25 mm em D0, mas cones comerciais apresentam tolerâncias e variabilidade dimensional.
O cone deve ter o mesmo taper da última lima?
Pode ser uma estratégia operacional útil, especialmente em técnicas de cone único, mas a correspondência nominal não garante adaptação tridimensional ao canal.
O que significa matched taper?
Significa que o cone foi projetado para apresentar geometria semelhante à do instrumento ou sistema de preparo. Isso não significa que o cone reproduza perfeitamente a anatomia real do canal.
Por que calibrar o cone de guta-percha?
A calibração permite maior controle sobre o diâmetro real da ponta do cone e pode melhorar a correspondência com o diâmetro apical preparado.
Calibrar o cone garante adaptação apical?
Não. A calibração controla principalmente o D0. A região apical pode continuar oval ou irregular.
O cone principal precisa chegar ao comprimento de trabalho?
Ele deve atingir a extensão planejada para a técnica e para o limite de obturação estabelecido. O comprimento deve ser interpretado junto com diâmetro e adaptação.
Por que um cone correspondente pode ficar curto?
Pode existir interferência no terço médio ou coronal, D0 ou taper excessivos, curvatura, deformação do cone ou discrepância entre geometria do cone e preparo.
Por que um cone ultrapassa o comprimento?
Pode ser pequeno apicalmente, apresentar variabilidade dimensional ou encontrar uma região apical mais ampla do que o previsto.
Tug-back significa que o cone está perfeitamente adaptado?
Não. Tug-back representa resistência à remoção e pode correlacionar-se com maior contato, mas não demonstra adaptação circunferencial perfeita.
A radiografia de prova confirma adaptação do cone?
Ela ajuda a avaliar extensão e posição, mas não consegue demonstrar contato tridimensional entre cone e paredes do canal.
Referências essenciais
Deng S, Abbott PV. Ex vivo evaluation of the fit of matched gutta-percha points in human root canals prepared with the corresponding nickel-titanium files. Australian Endodontic Journal. 2025. doi:10.1111/aej.70000.
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Jamleh A, Awawdeh L, Albanyan H, Masuadi E, Alfouzan K. Apical gutta-percha cone adaptation and degree of tug-back sensation after canal preparation. Saudi Endodontic Journal. 2016;6:131–135. doi:10.4103/1658-5984.189355.
Jeon SJ, Moon YM, Seo MS. Quantification of the tug-back by measuring the pulling force and micro-computed tomographic evaluation. Restorative Dentistry & Endodontics. 2017;42(4):273–281. doi:10.5395/rde.2017.42.4.273.
Turan Gökduman C, Arılı-Öztürk E. A comparative evaluation of the apical dimensional variability of ISO size 30 gutta-percha cones with 0.04 and 0.06 tapers from two different manufacturers. Cureus. 2025. doi:10.7759/cureus.87341.
Aguiar CM, Cavalcanti JC, Coelho KC. Vedamento apical pós-tratamento endodôntico: avaliação da correspondência entre D0 dos cones principais de guta-percha e D0 das limas endodônticas. 2007.
Zamalloa SID, Santos CC, Chilvarquer I, Duailibi Neto EF, Caldeira CL. Influence of apical patency on the adaptation of the master filling cone: a cone-beam computed tomography assessment. Iranian Endodontic Journal. doi:10.22037/iej.v18i4.31487.
Bansal P, Singh G, Kumar M, et al. Comparative evaluation of apical fit of various corresponding gutta-percha cones in prepared S-shaped canals. Journal of Clinical and Diagnostic Research. 2025. doi:10.7860/JCDR/2025/75624.21350.
Sobre o autor

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.
Não ensinamos apenas a tratar dentes.
Ensinamos a cuidar de pacientes.
Endotoday - Endodontia com diagnóstico, ciência e tomada de decisão clínica.
Prof. Dr. Marco Aurélio G. Borges




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