Não existe lima perfeita: existe indicação perfeita
- Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges

- há 17 horas
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Resumo do artigo
Quando alguém pergunta "qual é a melhor lima?", parece uma questão simples. Mas essa pergunta, tão comum na prática e na formação, pode levar a uma das decisões mais frágeis da Endodontia: escolher um sistema antes de entender o canal.
A verdade é que não existe uma lima perfeita para todos os casos. Cada instrumento tem suas vantagens, suas limitações, suas propriedades mecânicas, seu desenho, sua conicidade, sua cinemática — e, portanto, suas indicações específicas.
Por isso, a frase que guia este artigo é direta:
Não existe lima perfeita. Existe indicação perfeita.
A escolha correta do sistema de instrumentação nasce da leitura clínica do caso: anatomia interna, tipo e raio de curvatura, diâmetro inicial, flexibilidade da liga, capacidade de ampliação apical, diagnóstico, objetivo biológico da irrigação e risco mecânico.
A lima não deve comandar o caso. O caso deve comandar a lima.
Este é o segundo artigo satélite da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday.
Perguntas que este artigo responde
Pergunta | Resposta curta |
Existe uma lima endodôntica perfeita? | Não. Todo sistema tem indicações, vantagens e limitações. |
O que significa “existe indicação perfeita”? | Significa escolher a lima mais adequada para a anatomia, diagnóstico, objetivo biológico e risco mecânico do caso. |
Qual é o erro de procurar a melhor lima? | O erro é buscar uma resposta universal para uma anatomia que é individual. |
A marca da lima deve ser o primeiro critério? | Não. O primeiro critério deve ser a anatomia do canal radicular. |
O diagnóstico influencia a escolha da lima? | Sim. Polpa vital, necrose, lesão periapical, abscesso e retratamento exigem estratégias diferentes. |
A curvatura radicular muda a indicação do sistema? | Sim. Canais curvos exigem maior atenção à flexibilidade, conicidade e risco de fadiga cíclica. |
Flexibilidade significa sempre melhor instrumento? | Não. Flexibilidade pode proteger em canais curvos, mas pode limitar corte e eficiência em alguns cenários. |
Sistema rotatório é melhor que reciprocante? | Não necessariamente. A cinemática deve ser indicada conforme anatomia, risco e objetivo clínico. |
Por que a lima não deve ser escolhida por preferência pessoal? | Porque preferência sem análise anatômica pode aumentar riscos clínicos. |
Qual é a mensagem central do artigo? | A lima certa não é a mais famosa; é a mais indicada para aquele canal. |
Este artigo faz parte da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday, uma sequência de estudos sobre anatomia, seleção de limas, limas manuais, glide path, ligas NiTi, ampliação apical, irrigação e indicação clínica dos sistemas mecanizados. |
Artigo anterior |
No artigo anterior, você entendeu por que a lima cria forma, mas não realiza sozinha a desinfecção do sistema de canais radiculares. |
Próximo artigo |
Anatomia do canal radicular e seleção de limas em Breve |
No próximo artigo, vamos aprofundar o primeiro critério de indicação: a anatomia. Antes de escolher o sistema, é preciso entender o canal. |
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O que você vai entender neste artigo
Por que não existe uma lima perfeita para todos os casos
Como a busca pelo "melhor sistema" pode atrapalhar o raciocínio clínico
Por que a anatomia deve vir antes da marca
Como curvatura, raio e diâmetro inicial influenciam a indicação
Por que o diagnóstico muda o objetivo biológico da instrumentação
Quando flexibilidade protege e quando pode limitar
Por que a ampliação apical deve ser planejada, não automática
Como movimento rotatório, reciprocante ou alternado deve ser escolhido
Como aplicar a lógica EndoToday de indicação
Como este artigo se conecta aos próximos posts da trilha

Introdução
Todo endodontista, em algum momento da formação ou da prática clínica, fez ou ouviu essa pergunta:
Qual é a melhor lima?
É uma pergunta compreensível. O mercado oferece muitos sistemas, muitas promessas, muitas ligas, muitos protocolos e muitas sequências. Diante de tantas opções, é natural que o clínico procure uma resposta objetiva — algo que simplifique a decisão.
O problema é que a Endodontia não se resolve com respostas universais.
A anatomia do canal radicular não é universal. O diagnóstico não é universal. A curvatura não é universal. A espessura dentinária não é universal. A lima apical inicial não é universal. E o objetivo biológico tampouco é o mesmo em todos os casos.
Por isso, a pergunta "qual lima é melhor?" precisa ser substituída por algo mais maduro:
Qual lima é mais indicada para este canal, neste diagnóstico, com este risco anatômico e com este objetivo biológico?
Essa mudança de pergunta parece sutil. Mas ela muda completamente a qualidade da decisão clínica.
Quando o profissional procura "a melhor lima", ele busca segurança em uma marca. Quando procura "a indicação correta", ele constrói segurança no próprio raciocínio. E essa é a diferença entre operar um sistema e dominar uma estratégia.

A armadilha da lima perfeita
A ideia de uma lima perfeita é sedutora — e não é difícil entender por quê.
Ela promete simplificar a clínica. Reduzir a dúvida. Dar velocidade e segurança. Promete que um único sistema pode resolver a maioria dos casos com previsibilidade.
Só que a clínica real costuma ser mais complexa do que a promessa comercial.
Um sistema pode ser excelente em canais retos e amplos, mas inadequado em curvaturas severas. Outro pode ser muito flexível e seguro em canais curvos, mas menos eficiente em corte ou ampliação. Um instrumento pode ter ótimo desempenho em anatomias simples e gerar risco real em canais achatados, calcificados ou com áreas de perigo.
O problema não está no sistema em si. O problema está em usá-lo como se fosse universal.
A lima perfeita não existe porque a anatomia perfeita também não existe. Cada canal apresenta uma combinação própria de diâmetro, curvatura, raio, conicidade natural, espessura dentinária, complexidade anatômica, forma transversal, grau de calcificação, conteúdo pulpar ou infeccioso, risco mecânico e necessidade de preservação estrutural.
A lima é uma ferramenta. E ferramenta não se escolhe pela beleza da caixa — escolhe-se pela tarefa que precisa cumprir.
O que significa "existe indicação perfeita"?

Vale deixar claro: "indicação perfeita" não significa que o tratamento será perfeito, nem que o instrumento eliminará todos os riscos.
Significa que a escolha da lima deve ser coerente com o caso.
Indicação perfeita é o encontro entre anatomia correta, diagnóstico correto, objetivo biológico correto, estratégia mecânica correta, sistema compatível e execução cuidadosa.
Em outras palavras, é escolher o instrumento que melhor respeita aquele canal. Não a lima mais famosa, nem a mais nova, nem a mais vendida, nem a mais rápida, nem a que todo mundo está usando. É a lima mais coerente com a anatomia e com a biologia do caso.
Essa é uma mudança profunda de perspectiva. Ela tira o clínico da pergunta comercial — qual sistema está em alta? — e o leva para a pergunta clínica: qual sistema este caso permite e exige?

A anatomia é o primeiro filtro de indicação
A escolha da lima deve sempre começar pela anatomia.
Antes de pensar no sistema, é preciso avaliar o grupo dental, o número provável de canais, a curvatura e seu raio, o diâmetro inicial, a forma transversal do canal, a presença de canais ovais, achatados ou em C, calcificações, áreas de perigo, espessura dentinária, possibilidade de curvatura em S, presença de degrau ou retratamento, e a eventual necessidade de tomografia em casos selecionados.
Essa etapa não é detalhe. É o fundamento de tudo.
Um canal reto e amplo permite maior liberdade — vários sistemas podem funcionar com segurança. Um canal curvo e estreito reduz as opções: a flexibilidade, o taper, a cinemática e o glide path passam a ter importância decisiva. Um canal severamente curvo não deve ser tratado como se fosse "apenas mais difícil" — ele é biologicamente e mecanicamente diferente, e exige estratégia mais conservadora, maior controle e menor arrogância técnica.
Um canal oval ou em C impõe uma realidade que precisa ser aceita: a lima não tocará tudo. A indicação do sistema, nesses casos, precisa vir acompanhada de irrigação ativa e estratégia biológica adequada.
A anatomia seleciona o instrumento antes do operador. O clínico apenas precisa aprender a escutá-la.

O diagnóstico é o segundo filtro
Depois da anatomia, o diagnóstico entra em cena para modificar o objetivo biológico da instrumentação.
Um caso de polpa vital não tem a mesma demanda que um caso de necrose com lesão periapical. Um retratamento não carrega o mesmo risco de um tratamento primário. Um abscesso não exige o mesmo raciocínio de uma biopulpectomia em canal amplo e reto.
O diagnóstico interfere em decisões como: grau de ampliação necessário, intensidade da irrigação, necessidade de medicação intracanal, tempo químico, estratégia de desinfecção, momento da obturação, risco de extrusão, necessidade de múltiplas sessões e cuidado com anatomia previamente modificada.
Por isso, a indicação da lima não pode ser apenas mecânica. Ela também deve ser biológica.
A pergunta não é somente qual instrumento entra melhor neste canal?. A pergunta mais completa é: qual instrumento cria a forma mais adequada para que este diagnóstico seja tratado biologicamente?
Esse é o ponto que diferencia o preparo mecânico do preparo biologicamente orientado.

A curvatura não é apenas grau: é risco
Muitos profissionais avaliam a curvatura pelo ângulo. Mas o risco mecânico não depende apenas de quanto o canal curva — depende de onde curva, como curva e com qual raio.
Duas curvaturas com o mesmo ângulo podem gerar riscos completamente diferentes. Uma curvatura ampla e progressiva, com raio maior, tende a distribuir melhor o estresse sobre o instrumento. Uma curvatura abrupta, curta, com raio pequeno, concentra tensão e aumenta o risco de fadiga cíclica, transporte apical, formação de degrau, travamento, fratura e perda da trajetória original.
Por isso, a indicação perfeita precisa considerar a curvatura como fator decisivo, não como dado secundário.
Tipo de anatomia | Raciocínio de indicação |
Canal reto | Maior liberdade de sistemas, desde que haja respeito à estrutura dentinária |
Curvatura suave | Sistemas variados podem funcionar, com atenção ao acesso e glide path |
Curvatura moderada | Exige equilíbrio entre corte, flexibilidade e centralização |
Curvatura severa | Prioriza flexibilidade, menor taper e menor estresse mecânico |
Curvatura extrema | Exige máxima cautela, preparo conservador e controle contínuo |
Curvatura em S | Exige atenção a múltiplos pontos de tensão |
Tripla curvatura | Exige sensibilidade tátil, interpretação anatômica e, às vezes, TCFC |
A lima que parece excelente em uma curvatura suave pode ser completamente inadequada em uma curvatura extrema. Por isso, indicação vale mais do que preferência.

Flexibilidade não é sinônimo absoluto de superioridade
A flexibilidade do instrumento é uma propriedade extremamente importante, especialmente em canais curvos. Instrumentos mais flexíveis podem ajudar a seguir melhor a anatomia, reduzir o transporte, diminuir a tensão em curvaturas, preservar a trajetória e reduzir o risco de desvio.
Mas flexibilidade não deve ser tratada como virtude absoluta. Toda propriedade tem seu trade-off.
Uma lima muito flexível pode ser mais segura em determinado canal, mas apresentar menor sensação de corte ou exigir outra estratégia de ampliação. Uma lima mais rígida pode ser inadequada em curvaturas severas, mas ter boa eficiência em canais retos e amplos.
A pergunta correta não é qual lima é mais flexível?. A pergunta correta é: quanta flexibilidade este canal exige?
Essa é a lógica clínica. A propriedade não vale isoladamente — vale quando encontra a indicação correta.
Conicidade e diâmetro também são indicação
Não basta escolher o nome do sistema. É preciso pensar em conicidade e diâmetro apical.
A conicidade influencia o desgaste dentinário, a capacidade de irrigação, a resistência do instrumento, o risco de transporte, a pressão nas paredes, o risco em áreas de perigo, a facilidade de obturação e a preservação estrutural.
O diâmetro apical influencia a penetração da irrigação, a renovação do irrigante, a remoção de debris, a desinfecção apical, a adaptação do cone e o risco de desgaste excessivo.
Ampliar demais pode fragilizar. Ampliar de menos pode limitar a desinfecção. O clínico precisa buscar equilíbrio.
A pergunta não deve ser até onde o sistema consegue ampliar?, mas sim: até onde este canal deve ser ampliado para equilibrar biologia e estrutura?
Essa pergunta protege o dente. E proteger o dente também é parte do sucesso endodôntico.
O tipo de movimento também deve ser indicado
Rotatório, reciprocante, alternado ou híbrido não são religiões clínicas. São cinemáticas diferentes, com comportamentos diferentes, vantagens diferentes e limitações diferentes.
A rotação contínua pode oferecer eficiência, corte progressivo, sequência previsível e boa modelagem em canais bem indicados. O movimento reciprocante ou alternado pode reduzir o acúmulo de torque em determinados canais e simplificar sequências em alguns sistemas.
Mas nenhuma cinemática é perfeita.
A segurança não depende apenas do movimento — depende de anatomia, liga, taper, seção transversal, ponta, torque, velocidade, glide path, técnica, pressão aplicada, irrigação e experiência clínica.
O movimento deve servir ao caso, não à preferência do operador. Quando o clínico entende isso, ele deixa de defender sistemas e passa a defender critérios.

Glide path: a indicação começa antes do preparo
A escolha da lima de preparo depende da segurança do caminho que precede a instrumentação.
Por isso, o glide path é uma etapa essencial em muitos casos. Canais estreitos, calcificados, curvos ou com lima apical inicial pequena exigem atenção redobrada antes da instrumentação mecanizada.
O glide path ajuda a reduzir travamento, diminuir estresse torcional, melhorar a progressão, preservar a trajetória original, reduzir risco de fratura e facilitar a instrumentação subsequente.
Mas o glide path também deve ser indicado — nem todo canal exige a mesma estratégia. Alguns permitem progressão mais direta; outros exigem limas manuais finas, negociação cuidadosa, lubrificação, pré-curvatura e instrumentos específicos.
A pressa de chegar ao sistema principal pode custar caro. A segurança da lima principal começa na qualidade do caminho criado antes dela.

Matriz EndoToday: da preferência para a indicação
A escolha de um sistema deve seguir uma lógica estruturada. A Matriz EndoToday de Indicação pode ser resumida assim:
Anatomia → Risco mecânico → Objetivo biológico → Sistema indicado
Etapa | Pergunta clínica | Decisão gerada |
Anatomia | Que canal estou tratando? | Define complexidade inicial |
Curvatura | Qual é o ângulo e o raio da curvatura? | Define risco de transporte e fadiga |
Diâmetro inicial | Qual é a lima apical inicial? | Define necessidade de glide path e ampliação |
Diagnóstico | É polpa vital, necrose, abscesso ou retratamento? | Define objetivo biológico |
Estrutura dentinária | Quanto posso desgastar com segurança? | Define limite de conicidade e ampliação |
Irrigação | Qual forma preciso criar para irrigar melhor? | Define preparo biologicamente útil |
Sistema | Qual instrumento respeita essas exigências? | Define a indicação final |
Essa matriz reduz decisões impulsivas. Ela obriga o clínico a pensar antes de instrumentar. E, na Endodontia, pensar antes de cortar é uma forma eficaz de prevenir acidentes.

O perigo da preferência pessoal
Todo clínico desenvolve preferências ao longo do tempo. Isso é absolutamente normal.
Com a prática, alguns sistemas parecem mais familiares, mais confortáveis e mais previsíveis. O problema surge quando essa preferência se transforma em dogma — quando o clínico deixa de analisar o caso e passa a simplesmente aplicar o que já conhece.
O fato de o operador gostar de um sistema não significa que esse sistema seja o mais indicado para todos os canais. A frase "eu sempre uso esse" pode ser perigosa. Porque o canal não sabe qual sistema o clínico prefere. O canal apenas impõe sua anatomia. E a anatomia cobra coerência.
A maturidade clínica começa quando o profissional consegue dizer com convicção: este é meu sistema preferido, mas não é o mais adequado para este caso. Essa frase revela domínio. Não fraqueza.

Como aplicar a indicação perfeita na clínica
Antes de escolher o sistema, siga esta sequência:
Passo | Pergunta | Finalidade |
1 | Qual é o diagnóstico? | Definir objetivo biológico |
2 | Qual é a anatomia provável? | Identificar complexidade |
3 | Qual é a curvatura e o raio? | Estimar risco mecânico |
4 | Qual é a lima apical inicial? | Orientar glide path e ampliação |
5 | Há áreas de perigo? | Preservar dentina crítica |
6 | Qual ampliação é necessária? | Equilibrar irrigação e estrutura |
7 | Qual liga é mais adequada? | Ajustar flexibilidade e resistência |
8 | Qual movimento é mais seguro? | Escolher cinemática coerente |
9 | O glide path é necessário? | Reduzir risco de travamento e fratura |
10 | A irrigação compensará áreas não tocadas? | Integrar preparo e desinfecção |
Depois disso, a escolha da lima se torna mais clara. Não porque o caso ficou simples, mas porque o raciocínio ficou organizado.
Exemplos clínicos de indicação
Canal reto e amplo
Nesse cenário, vários sistemas podem funcionar bem. O foco costuma ser eficiência, ampliação adequada e preparo compatível com a irrigação. Mas atenção: mesmo em canais retos, é preciso respeitar a estrutura dentinária. Reto não significa livre para desgastar sem critério.
Canal moderadamente curvo
Aqui, a escolha precisa equilibrar capacidade de corte e flexibilidade. O glide path ganha importância. A conicidade deve ser analisada com cuidado. O risco de transporte já se torna mais relevante.
Canal severamente curvo
Nesse caso, a indicação muda completamente. A prioridade passa a ser preservar a trajetória original. Instrumentos mais flexíveis, menor taper, progressão cuidadosa e irrigação frequente tornam-se fundamentais. O objetivo não é provar que a lima chega — é chegar sem deformar o canal.
Canal oval
A lima não tocará todas as paredes. Portanto, a indicação do sistema deve vir acompanhada de estratégia de irrigação, ativação e, quando indicado, complementação mecânica. A pergunta não é apenas "qual lima preparo?" — é também "como vou desinfectar o que a lima não toca?"
Canal calcificado
O sistema principal não deve entrar cedo demais. A prioridade é localização, scouting, cateterismo, negociação e glide path. A indicação perfeita, aqui, pode começar com limas manuais finas e muita paciência clínica.
A melhor lima é a que respeita o caso
A melhor lima não é necessariamente a mais moderna. Nem a mais cara. Nem a mais flexível. Nem a mais rápida. Nem a mais popular.
A melhor lima é a que respeita a anatomia, a curvatura, o raio, a estrutura dentinária, o diagnóstico, o objetivo biológico, a necessidade de irrigação, o limite do operador e o prognóstico do dente.
Essa é a essência da indicação perfeita. Quando a escolha nasce dessa análise, o sistema deixa de ser uma aposta e passa a ser uma decisão. A diferença parece pequena. Mas na clínica, ela muda tudo.

Erros comuns na escolha das limas
1. Escolher pela marca
A marca não substitui diagnóstico anatômico.
2. Escolher pela moda
Nem todo sistema em alta é indicado para todo canal.
3. Escolher pela velocidade
Rapidez não é sinônimo de segurança.
4. Ignorar o raio da curvatura
O ângulo sozinho não explica o risco.
5. Usar taper excessivo em área de perigo
A remoção de dentina precisa ter justificativa clínica.
6. Não fazer glide path quando indicado
O sistema principal depende do caminho criado antes dele.
7. Usar lima rígida em curvatura severa
Isso aumenta o risco de transporte e fratura.
8. Achar que flexibilidade resolve tudo
Flexibilidade ajuda, mas não substitui irrigação, técnica e julgamento.
9. Não considerar o diagnóstico
Necrose, abscesso e retratamento não têm a mesma demanda biológica que polpa vital.
10. Tratar todos os canais com a mesma sequência
A padronização ajuda, mas a individualização decide.
Como este artigo se conecta à Trilha de Instrumentação Endodôntica
Este é o segundo artigo satélite da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday.
O primeiro artigo mostrou que instrumentar não é limpar. Este segundo aprofunda a filosofia central: não existe lima perfeita — existe indicação perfeita.
A partir daqui, os próximos artigos vão detalhar os critérios que sustentam essa indicação: anatomia, curvatura, raio, canais ovais, áreas de perigo, limas manuais, glide path, ligas NiTi, fadiga, ampliação apical, diagnóstico, movimento e matriz de indicação.
A trilha foi organizada para conduzir o leitor de uma pergunta superficial — qual lima é melhor? — para uma pergunta clínica mais madura: qual instrumento este caso exige?
Esse é o objetivo do EndoToday: formar raciocínio, não dependência de protocolo.

Conclusão
Não existe lima perfeita. Existe indicação perfeita.
Essa frase não é apenas um slogan. É uma forma de pensar a Endodontia.
A lima certa não é a que promete resolver todos os casos. É a que responde melhor à anatomia, ao diagnóstico, ao objetivo biológico e ao risco mecânico do caso. Quando o clínico entende isso, ele deixa de buscar segurança em uma marca e passa a construir segurança no próprio raciocínio.
A anatomia guia. O diagnóstico orienta. A irrigação define o objetivo biológico. A estrutura dentinária impõe limites. A lima executa. O clínico decide.
Essa é a essência da instrumentação endodôntica baseada em indicação. E é essa a filosofia que guiará toda a Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday.
Este artigo faz parte da Trilha de Instrumentação Endodôntica do EndoToday, uma sequência de estudos sobre anatomia, seleção de limas, limas manuais, glide path, ligas NiTi, ampliação apical, irrigação e indicação clínica dos sistemas mecanizados. |
Artigo anterior |
No artigo anterior, você entendeu por que a lima cria forma, mas não realiza sozinha a desinfecção do sistema de canais radiculares. |
Próximo artigo |
Anatomia do canal radicular e seleção de limas em Breve |
No próximo artigo, vamos aprofundar o primeiro critério de indicação: a anatomia. Antes de escolher o sistema, é preciso entender o canal. |
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FAQ — Perguntas frequentes sobre indicação de limas endodônticas
Existe uma lima endodôntica perfeita?
Não. Todo instrumento tem vantagens, limitações e indicações específicas. A melhor escolha depende da anatomia, do diagnóstico, do objetivo biológico e do risco mecânico.
O que significa “existe indicação perfeita”?
Significa escolher o instrumento mais coerente para determinado caso clínico, considerando anatomia, curvatura, flexibilidade, conicidade, diagnóstico e estratégia de irrigação.
A marca da lima é o critério mais importante?
Não. A marca pode representar um sistema com características específicas, mas o primeiro critério deve ser a anatomia do canal radicular.
Flexibilidade é sempre melhor?
Não. Flexibilidade é importante em canais curvos, mas pode não ser a prioridade em todos os casos. O mais importante é indicar a propriedade correta para a anatomia correta.
Sistema rotatório é melhor que reciprocante?
Não necessariamente. Rotatório e reciprocante possuem indicações, vantagens e limitações. A escolha deve ser baseada no caso, não em dogma.
O diagnóstico muda a escolha da lima?
Sim. Casos de polpa vital, necrose, lesão periapical, abscesso e retratamento possuem objetivos biológicos diferentes e podem exigir estratégias de instrumentação diferentes.
O glide path interfere na indicação do sistema?
Sim. Em canais estreitos, curvos ou calcificados, o glide path pode ser essencial para reduzir travamento, estresse torcional e risco de fratura.
A lima apical inicial influencia a escolha do sistema?
Sim. A lima apical inicial ajuda a compreender o diâmetro anatômico do canal e orienta a necessidade de glide path, ampliação e seleção do instrumento.
Posso usar sempre o mesmo sistema?
Não é o ideal. A padronização ajuda na rotina, mas cada canal exige análise própria. Usar sempre o mesmo sistema pode gerar riscos em anatomias desfavoráveis.
Qual é a principal mensagem clínica deste artigo?
A principal mensagem é que a lima deve ser escolhida pela indicação anatômica e biológica do caso. A melhor lima é a mais adequada para aquele canal, não a mais famosa ou mais recente.
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Sobre o autor

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.
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