Irrigação não é apenas lavar o canal: por que modelagem, limpeza e desinfecção não são sinônimos
- Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges

- há 9 horas
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Modelagem, limpeza e desinfecção são objetivos relacionados, mas não são sinônimos no tratamento endodôntico.
A modelagem modifica mecanicamente a geometria do canal e cria espaço para os procedimentos subsequentes. A limpeza busca remover tecido pulpar, matéria orgânica, debris e outros resíduos. A desinfecção procura reduzir a carga microbiana e desorganizar biofilmes a níveis biologicamente compatíveis com o reparo.
Nenhum instrumento consegue tocar toda a superfície do sistema de canais radiculares. Por isso, a instrumentação isolada não é suficiente: a irrigação complementa a ação mecânica ao transportar soluções para regiões que as limas não alcançam diretamente.
Instrumentar cria espaço. Irrigar leva a química para onde a lima não chegou.
Resumo
O preparo endodôntico não deve ser entendido apenas como o ato de instrumentar um canal até determinado diâmetro ou conicidade.
O sistema de canais radiculares apresenta uma anatomia tridimensional complexa, composta por istmos, recessos, ramificações, canais laterais, deltas apicais, extensões de canais ovais e outras irregularidades que podem permanecer parcial ou totalmente fora do contato direto dos instrumentos.
A instrumentação é indispensável porque cria forma, remove parte do conteúdo intracanal e produz espaço para irrigação, medicação e obturação. Entretanto, modelar um canal não significa necessariamente limpá-lo e muito menos esterilizá-lo.
A limpeza resulta da interação entre ação mecânica, química e física. Já a desinfecção envolve a redução e desorganização da comunidade microbiana presente no sistema de canais.
É nesse contexto que a irrigação assume papel central: não como uma simples “lavagem”, mas como parte integrante do preparo químico-mecânico.
O que você vai aprender neste artigo
Pergunta clínica | Resposta clínica direta |
Instrumentar o canal significa limpá-lo? | Não. A instrumentação modela o canal e remove parte do conteúdo, mas áreas anatômicas podem permanecer sem contato direto com os instrumentos. |
Qual é a diferença entre modelagem e limpeza? | Modelagem é a modificação mecânica da geometria do canal; limpeza envolve a remoção de tecido, debris e matéria orgânica por ação mecânica, química e física. |
Limpeza e desinfecção são a mesma coisa? | Não. Limpeza refere-se principalmente à remoção de material; desinfecção envolve redução da carga microbiana e controle do biofilme. |
O objetivo do tratamento é esterilizar o canal? | Não. A esterilização completa do sistema de canais não é um objetivo clinicamente previsível; busca-se reduzir a infecção a níveis compatíveis com reparo. |
Por que os instrumentos não conseguem tocar todas as paredes? | Porque a geometria dos instrumentos não reproduz completamente a anatomia irregular e tridimensional dos canais radiculares. |
Quais áreas são mais difíceis de instrumentar? | Istmos, recessos, extensões de canais ovais, canais laterais, ramificações e deltas apicais estão entre as principais áreas de desafio. |
Qual é então o papel da irrigação? | Dissolver matéria orgânica, reduzir microrganismos, remover debris e transportar agentes químicos para áreas que não recebem ação mecânica direta. |
Um preparo apical maior resolve sozinho o problema? | Não. Pode favorecer acesso e troca de irrigante em determinadas situações, mas não elimina toda a anatomia não instrumentada e possui custo estrutural. |
Ativação substitui uma modelagem adequada? | Não. A ativação pode melhorar a dinâmica do irrigante, mas depende de um canal adequadamente preparado para permitir transporte seguro da solução. |
Qual é o conceito clínico mais importante? | A instrumentação cria as condições para a irrigação; a irrigação complementa as limitações inevitáveis da instrumentação. |

1. O erro começa na expressão “canal instrumentado”
Na prática clínica, existe uma tendência compreensível de utilizar o instrumento final como marcador de conclusão do preparo:
“Cheguei ao comprimento de trabalho com a lima final.”
Mas essa informação responde apenas a uma parte da pergunta.
Ela informa que determinado instrumento percorreu uma trajetória no interior do canal.
Não informa, necessariamente:
quanto da superfície interna foi tocado;
quanto tecido permanece em recessos;
se existem debris compactados em istmos;
se biofilmes permanecem em áreas inacessíveis;
se o irrigante alcançou adequadamente essas regiões.
Portanto:
um canal instrumentado não é automaticamente um canal limpo.
Essa diferença parece semântica, mas modifica profundamente a estratégia clínica.

2. O sistema de canais não possui a forma do instrumento
Uma lima endodôntica percorre uma trajetória predominantemente central dentro do canal.
Independentemente de sua:
seção transversal;
tratamento térmico;
taper;
cinemática;
flexibilidade;
desenho de lâmina;
ela continua sendo um instrumento com uma geometria definida.
O canal, entretanto, é uma estrutura biológica irregular.
Pode ser:
oval;
achatado;
assimétrico;
curvo;
ramificado;
conectado a outro canal por istmos;
apresentar recessos que se estendem muito além da área ocupada pela lima.
Estudos de microtomografia computadorizada demonstraram repetidamente que uma parcela variável da superfície radicular pode permanecer não preparada, dependendo da anatomia e da técnica utilizada.
O problema, portanto, não é necessariamente falha do instrumento.
É uma limitação geométrica.

3. Áreas não tocadas não significam necessariamente tratamento inadequado
Esse ponto merece atenção.
É incorreto interpretar qualquer área não instrumentada como prova de erro técnico.
Em muitos casos, simplesmente não é biologicamente ou estruturalmente possível fazer um instrumento tocar toda a superfície interna do sistema de canais sem remover uma quantidade desproporcional de dentina.
Imagine um canal fortemente oval.
Para que um instrumento circular toque simultaneamente toda a parede vestibular, lingual, mesial e distal, seria necessário ampliar o preparo até que sua circunferência alcance as maiores dimensões do canal.
O preço poderia ser:
desgaste excessivo;
enfraquecimento radicular;
transporte;
alteração da anatomia original;
maior risco de complicações mecânicas.
Assim, o raciocínio contemporâneo não deveria ser:
“preciso tocar tudo com a lima.”
Mas:
“preciso modelar o suficiente para permitir que a estratégia químico-mecânica atue de maneira eficiente e segura.”

4. O que é modelagem?
A modelagem — shaping — corresponde à modificação mecânica controlada da geometria do canal radicular.
Seus objetivos incluem:
criar acesso ao sistema de canais;
remover dentina de forma controlada;
estabelecer espaço para irrigação;
facilitar renovação das soluções;
permitir eventual medicação intracanal;
criar condições para obturação.
A modelagem deve preservar, tanto quanto possível:
trajetória original do canal;
posição do forame;
estrutura radicular;
anatomia relevante.
Portanto, modelagem é essencial.
Mas:
modelagem é meio, não objetivo biológico final.
5. O que é limpeza?
A limpeza está relacionada à remoção de material do sistema de canais.
Esse material pode incluir:
tecido pulpar vital;
tecido necrótico;
debris dentinários;
resíduos orgânicos;
componentes do biofilme;
smear layer, quando sua remoção fizer parte da estratégia.
A limpeza não é produzida exclusivamente pelas limas.
Ela resulta da integração entre três componentes.
Ação mecânica
Instrumentos cortam dentina, deslocam conteúdo e removem parte do tecido.
Ação química
Soluções irrigadoras podem dissolver matéria orgânica e atuar sobre componentes específicos.
Ação física
O movimento do líquido transporta material, promove troca da solução e remove debris suspensos.
Por isso:
limpeza é um fenômeno químico-mecânico, e não apenas mecânico.
6. O que é desinfecção?
A desinfecção possui outro objetivo.
Ela procura reduzir:
quantidade de microrganismos;
diversidade microbiana;
biomassa do biofilme;
condições favoráveis à persistência da infecção.
Isso significa que um canal visualmente limpo não é necessariamente microbiologicamente desinfectado.
E o inverso também merece atenção:
redução bacteriana não significa necessariamente que toda matéria orgânica tenha sido removida.
São desfechos relacionados, mas diferentes.

7. E esterilização?
Esterilização significa ausência de microrganismos viáveis.
Essa não é uma expectativa realista para o sistema de canais radiculares em condições clínicas.
A anatomia é complexa.
Os métodos de detecção possuem limitações.
Microrganismos podem permanecer:
em istmos;
no interior de túbulos;
em ramificações;
em áreas não instrumentadas;
protegidos por matriz de biofilme.
O objetivo biológico do tratamento é diferente:
reduzir e controlar a infecção a um nível que permita a resposta reparadora do hospedeiro.
Portanto, utilizar expressões como:
“esterilizamos o canal”
não representa adequadamente o que o tratamento endodôntico consegue demonstrar.
8. A anatomia determina o limite da instrumentação
A dificuldade aumenta principalmente nas regiões em que a anatomia se afasta de uma geometria circular simples.
Entre elas estão:
Istmos
Comunicações estreitas entre canais podem conter:
tecido pulpar;
tecido necrótico;
debris;
biofilme.
Uma lima percorre o canal principal, mas não necessariamente entra no istmo.
Canais ovais
Instrumentos tendem a atuar predominantemente na região central.
As extensões vestibular e lingual podem permanecer parcialmente não tocadas.
Recessos
Depressões da parede podem estar fora da trajetória mecânica.
Canais laterais e acessórios
Por definição, encontram-se fora do trajeto principal utilizado pelos instrumentos convencionais.
Ramificações e deltas apicais
A multiplicidade de pequenas vias anatômicas torna impraticável a instrumentação direta de todas elas.
9. É justamente aí que a irrigação passa a ter função biológica
Se a lima não consegue tocar determinada região, precisamos de outro mecanismo.
A irrigação pode contribuir por meio de:
Dissolução química
Principalmente de matéria orgânica quando é utilizado um irrigante com essa propriedade.
Ação antimicrobiana
Redução da carga microbiana e ação sobre componentes do biofilme.
Transporte físico
Movimentação de:
debris;
fragmentos de tecido;
produtos da instrumentação;
material orgânico suspenso.
Acesso às irregularidades
O líquido pode penetrar em regiões inacessíveis à geometria de um instrumento — desde que existam condições hidrodinâmicas adequadas.
Essa última condição é fundamental.

10. Colocar irrigante no canal não significa irrigar adequadamente
Existe outro erro conceitual.
O clínico pode preencher o canal com solução e considerar que ela atingiu todo o sistema.
Não necessariamente.
Existe diferença entre:
presença de solução
e
troca efetiva de solução.
A eficiência depende de fatores como:
profundidade da agulha;
calibre;
desenho da agulha;
espaço para refluxo;
diâmetro do preparo;
conicidade;
viscosidade;
velocidade de irrigação;
anatomia.
Portanto:
a química só funciona onde consegue chegar.
11. O conceito de preparo químico-mecânico
A expressão preparo químico-mecânico é particularmente adequada porque reconhece duas dimensões inseparáveis.
Mecânica
Instrumentação cria:
espaço;
geometria;
acesso.
Química
Irrigantes atuam sobre:
matéria orgânica;
microrganismos;
componentes específicos da smear layer.
Uma parte sem a outra é limitada.
Instrumentação sem irrigação deixa grande parte da biologia sem tratamento.
Irrigação sem preparo adequado apresenta limitações de transporte, renovação e acesso.

12. A instrumentação cria a infraestrutura da irrigação
Esse conceito conecta diretamente o cluster de Instrumentação ao cluster de Irrigação.
Quando fazemos:
acesso coronário adequado;
preparo cervical;
glide path;
modelagem;
ampliação apical racional;
não estamos apenas preparando espaço para a obturação.
Também estamos modificando a hidrodinâmica do canal.
Isso pode permitir:
maior penetração da agulha;
melhor refluxo;
maior troca de irrigante;
maior liberdade para dispositivos de ativação;
menor risco de travamento.
Assim:
a irrigação começa antes da primeira ativação.
Ela começa no planejamento da modelagem.
13. Então devemos aumentar sempre o preparo apical?
Não.
Essa seria outra simplificação.
Preparos apicais maiores podem favorecer determinados aspectos da irrigação.
Mas também removem mais dentina.
A decisão precisa equilibrar:
acesso químico × objetivo biológico × anatomia × preservação estrutural.
Uma lima maior não transforma automaticamente o sistema em um espaço completamente acessível.
Estudos de micro-CT mostram que mesmo após diferentes estratégias de preparo podem permanecer áreas não instrumentadas.
Portanto:
ampliar mais não significa necessariamente tocar tudo.

14. E a ativação? Ela resolve o problema?
Métodos de ativação podem melhorar a movimentação do irrigante e a remoção de debris em várias situações experimentais.
Entretanto, eles não devem ser interpretados como um substituto para:
acesso adequado;
preparo cervical;
modelagem;
renovação da solução;
irrigação segura.
Ativação é uma estratégia de potencialização.
Não uma correção universal para um preparo inadequado.

15. O alvo não é apenas a parede principal do canal
Uma endodontia excessivamente centrada no instrumento tende a visualizar o canal como um único tubo.
Biologicamente, o sistema pode ser muito diferente.
O problema pode permanecer:
no istmo;
no recesso;
no canal lateral;
no delta;
em uma extensão oval;
dentro da matriz do biofilme.
Isso muda a pergunta clínica.
Em vez de perguntar apenas:
“qual foi minha lima final?”
precisamos também perguntar:
“onde provavelmente ainda existe tecido, debris ou biofilme?”
Essa é a pergunta que inicia a irrigação racional.
16. Biofilme muda o conceito de desinfecção
Microrganismos em uma infecção endodôntica não estão necessariamente isolados e livres dentro do canal.
Podem organizar-se em biofilmes aderidos às superfícies.
A matriz extracelular e a organização espacial podem aumentar a tolerância da comunidade microbiana aos agentes antimicrobianos.
Isso explica por que:
matar uma bactéria em suspensão não é equivalente a desorganizar um biofilme dentro de uma anatomia complexa.
No próximo artigo da trilha, esse ponto será aprofundado.
17. O tratamento não precisa remover absolutamente toda bactéria para cicatrizar
Existe também uma interpretação extrema que deve ser evitada.
Se sabemos que:
instrumentos não tocam todas as superfícies;
irrigantes não alcançam perfeitamente todas as regiões;
biofilmes podem persistir;
seria possível concluir que sucesso seria improvável.
Mas sabemos clinicamente que tratamentos endodônticos adequadamente realizados podem resultar em reparo.
Por quê?
Porque o objetivo biológico não exige necessariamente eliminação absoluta de toda célula microbiana.
O tratamento precisa reduzir suficientemente:
carga;
diversidade;
nutrientes;
espaço disponível;
comunicação com o meio externo;
para que o equilíbrio passe a favorecer o hospedeiro.
18. Limpeza perfeita é diferente de tratamento biologicamente suficiente
Essa distinção é importante.
Um modelo experimental pode mostrar pequenas áreas de:
debris;
matéria orgânica;
bactéria residual.
Isso não significa automaticamente que o tratamento fracassará.
Da mesma maneira, uma imagem laboratorial extremamente limpa não garante sucesso clínico.
Entre o resultado laboratorial e o paciente existem vários fatores:
resposta imunológica;
carga microbiana residual;
localização da infecção;
qualidade do selamento;
anatomia;
restauração coronária;
tempo de acompanhamento.
Portanto:
mais limpo é desejável; mais limpo não é sinônimo automático de maior sucesso.
19. O conceito de “área não tocada” deve mudar a clínica, não gerar paranoia
Saber que existem superfícies não instrumentadas não significa tentar destruir mecanicamente toda a anatomia.
Significa reconhecer os limites do método.
E usar essa informação para melhorar:
irrigação;
renovação;
transporte;
tempo de contato;
seleção da solução;
ativação quando indicada;
segurança.
Esse é o valor clínico do conhecimento anatômico.
20. Matriz EndoToday — modelagem × limpeza × desinfecção
Processo | Objetivo principal | Como é obtido | Principal limitação |
Modelagem | Criar geometria adequada | Instrumentação mecânica | Não alcança toda a anatomia |
Limpeza | Remover tecido, matéria orgânica e debris | Instrumentação + irrigação + transporte do líquido | Áreas protegidas podem permanecer |
Desinfecção | Reduzir a carga microbiana e controlar biofilme | Ação mecânica + antimicrobiana + química | Esterilização completa não é previsível |
Irrigação | Levar ação química e física às áreas acessíveis ao líquido | Solução + sistema de entrega + renovação | Depende da hidrodinâmica e do acesso |
Ativação | Intensificar movimentação da solução | Energia sônica, ultrassônica ou outros métodos | Não substitui preparo e irrigação adequados |
21. Como transformar esse conceito em decisão clínica?
Antes de considerar o preparo concluído, pergunte:
1. A anatomia foi respeitada?
O canal foi modelado sem perda desnecessária de estrutura?
2. Existe espaço suficiente para irrigação?
A agulha consegue penetrar com liberdade e permitir refluxo?
3. O irrigante foi utilizado durante o preparo?
Ou apenas colocado no canal no final?
4. Houve renovação da solução?
Uma solução consumida não apresenta a mesma atividade química.
5. Onde provavelmente existem áreas não instrumentadas?
Istmo? Canal oval? Recesso? Região apical complexa?
6. O protocolo escolhido consegue atuar nessas regiões?
É aqui que entram química, transporte e eventual ativação.

22. Cinco erros conceituais que precisam desaparecer
“Instrumentei até a lima final, então o canal está limpo.”
Incorreto.A lima final informa a dimensão do preparo naquela trajetória, não a limpeza de toda a anatomia.
“Quanto maior a lima, mais limpo o canal.”
Simplificação.A ampliação pode favorecer determinados objetivos, mas aumenta remoção de dentina e não garante contato com todas as superfícies.
“Se usei hipoclorito, toda a anatomia recebeu hipoclorito ativo.”
Não necessariamente.A distribuição depende da dinâmica do fluxo.
“Ativação compensa qualquer preparo.”
Não.Ativação depende de espaço e de condições adequadas para movimentação da solução.
“O objetivo é esterilizar o canal.”
Não.O objetivo é controlar a infecção em nível biologicamente compatível com reparo.
23. Evidência laboratorial e decisão clínica
Grande parte do conhecimento sobre áreas não instrumentadas provém de:
micro-CT;
microscopia;
histologia;
modelos microbiológicos;
estudos ex vivo.
Esses métodos são fundamentais porque permitem visualizar aquilo que não conseguimos observar clinicamente.
Entretanto, a interpretação precisa respeitar a pergunta estudada.
Um estudo demonstrando 40% de superfície não tocada responde:
quanto da superfície recebeu ação mecânica direta?
Ele não responde automaticamente:
qual será a taxa de cicatrização desse dente?
Essa distinção será recorrente em toda a Trilha de Irrigação.

24. O novo raciocínio
O modelo tradicional poderia ser resumido assim:
encontrar canal → instrumentar → irrigar → obturar
Uma forma biologicamente mais completa seria:
diagnóstico → compreender anatomia → modelar com propósito → irrigar durante o preparo → renovar a química → alcançar áreas não instrumentadas → controlar a infecção → obturar
É uma diferença importante.
No primeiro modelo, a irrigação parece uma etapa.
No segundo:
a irrigação faz parte de todo o preparo.

25. O princípio que conecta instrumentação e irrigação
Instrumentação e irrigação não competem entre si.
Também não são procedimentos independentes.
A modelagem:
cria espaço para a solução;
modifica o fluxo;
favorece renovação;
permite inserção segura da agulha;
cria condições para ativação.
A irrigação:
complementa as regiões não tocadas;
dissolve matéria orgânica;
auxilia na remoção de debris;
participa do controle microbiano.
Portanto:
a lima cria o caminho. A química precisa percorrê-lo — e alcançar além dele.
Aplicação clínica — o que muda amanhã?
Ao concluir uma instrumentação, não pergunte apenas:
“Qual lima chegou ao comprimento de trabalho?”
Acrescente:
Quais paredes provavelmente não foram tocadas?
A solução consegue chegar até o terço apical?
Existe espaço para refluxo?
O irrigante permaneceu ativo e foi renovado?
Existe anatomia que justifique maior movimentação da solução?
Estou aumentando o preparo porque há necessidade biológica ou apenas porque desejo um número maior?
Essas perguntas transformam a irrigação de rotina em decisão clínica.
Continue na Trilha EndoToday de Irrigação Endodôntica
Este artigo faz parte de uma sequência estruturada para compreender a irrigação desde seus fundamentos biológicos até a tomada de decisão clínica.
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Biofilme e áreas não instrumentadas: qual é o verdadeiro alvo da irrigação endodôntica?
Se a instrumentação não consegue alcançar toda a anatomia, o próximo passo é compreender o que permanece nessas regiões — e por que uma bactéria isolada em laboratório não representa adequadamente o desafio de um biofilme endodôntico.

Conclusão
A instrumentação continua sendo um dos pilares do tratamento endodôntico.
Mas ela não deve ser confundida com limpeza completa.
O sistema de canais possui uma anatomia que ultrapassa os limites geométricos de qualquer instrumento.
Por isso:
modelagem, limpeza e desinfecção precisam ser compreendidas como processos distintos e complementares.
A modelagem cria espaço.
A limpeza remove matéria.
A desinfecção controla a infecção.
E a irrigação conecta esses objetivos ao permitir que a ação química alcance áreas nas quais os instrumentos não atuam diretamente.
A grande mudança conceitual é abandonar a ideia de que o canal termina onde a lima toca.
Ele não termina.
Há anatomia além do instrumento.
Instrumentar cria espaço. Irrigar leva a química para aquilo que a lima não tocou.

Perguntas frequentes
1. Instrumentar o canal significa limpá-lo?
Não. A instrumentação remove parte do conteúdo e modela o canal, mas áreas da superfície podem permanecer sem contato direto com as limas.
2. Qual é a diferença entre modelagem e limpeza?
Modelagem corresponde à alteração mecânica da geometria do canal. Limpeza envolve a remoção de tecido, matéria orgânica e debris por mecanismos mecânicos, químicos e físicos.
3. Limpeza e desinfecção são sinônimos?
Não. Limpeza está relacionada principalmente à remoção de material. Desinfecção busca reduzir a carga microbiana e controlar biofilmes.
4. É possível esterilizar completamente o sistema de canais?
A esterilização completa não é um objetivo clinicamente previsível. O tratamento busca reduzir a infecção a níveis biologicamente compatíveis com reparo.
5. Por que algumas paredes permanecem não instrumentadas?
Porque a anatomia radicular é irregular e tridimensional, enquanto os instrumentos percorrem trajetórias limitadas dentro do canal.
6. Quais áreas costumam ser mais difíceis de alcançar?
Istmos, recessos, extensões de canais ovais, canais laterais, ramificações e deltas apicais estão entre as áreas mais desafiadoras.
7. Aumentar o preparo apical garante que todas as paredes sejam tocadas?
Não. Preparos maiores podem aumentar contato e facilitar irrigação em algumas situações, mas não eliminam necessariamente todas as áreas não instrumentadas e aumentam a remoção de dentina.
8. Qual é o papel da irrigação nessas áreas?
A irrigação fornece ação química e física para dissolver matéria orgânica, reduzir microrganismos e remover debris de regiões acessíveis ao líquido, inclusive áreas não tocadas diretamente pelas limas.
9. A ativação substitui uma boa instrumentação?
Não. Métodos de ativação podem melhorar a movimentação do irrigante, mas dependem de acesso e modelagem adequados.
10. Por que a renovação do irrigante é importante?
Porque soluções como o NaOCl são consumidas durante sua reação com matéria orgânica. A renovação mantém solução quimicamente ativa disponível.
11. O que é preparo químico-mecânico?
É a integração entre a ação mecânica da instrumentação e a ação química e física da irrigação para modelar, limpar e desinfectar o sistema de canais.
12. Qual é a principal mensagem clínica?
A instrumentação cria as condições para a irrigação, e a irrigação complementa as limitações inevitáveis da instrumentação.
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Sobre o autor

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.
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Prof. Dr. Marco Aurélio G. Borges



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