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Cone único funciona? O que determina o sucesso clínico?

há 4 horas
18 min de leitura
Banner azul com dente em 3D e texto: A Nova Era do Cone Único; fala de obturação baseada em cimento (SBO).


A técnica de cone único deixou de ser simplesmente uma alternativa rápida às técnicas de compactação e passou a integrar uma filosofia de obturação baseada na associação entre cones correspondentes ao preparo e cimentos de alto desempenho, especialmente os hidráulicos de silicato de cálcio. Estudos laboratoriais mostram limitações importantes em canais ovais e maior dependência do cimento. Entretanto, as melhores evidências clínicas disponíveis não demonstram inferioridade consistente em relação às técnicas aquecidas. O ponto central não é perguntar se o cone único “funciona”, mas compreender em qual anatomia, com qual preparo, qual cone e qual cimento ele funciona de maneira previsível.

A técnica de cone único pode produzir resultados clínicos semelhantes aos de técnicas de compactação ou termoplastificação quando o preparo, a desinfecção, a seleção do cone, o limite apical e o cimento são adequados. Revisões sistemáticas recentes e um ensaio clínico randomizado com acompanhamento de cinco anos não demonstraram inferioridade clínica do conceito de obturação baseada em cimento de silicato de cálcio. Entretanto, cone único depende mais do cimento para preencher as discrepâncias entre um cone circular e uma anatomia frequentemente irregular, tornando a seleção do caso e a interação entre técnica e material particularmente importantes.

Infográfico azul-escuro com dente e cone de cimento turquesa, texto diz: A técnica de cone único funciona? Sim.

Cone único funciona?

A resposta curta é:

Sim.

Mas essa resposta é insuficiente.

A pergunta realmente importante é:

Por que funciona — e em quais condições deixa de ser uma escolha tão racional?

Durante muitos anos, a técnica de cone único foi considerada uma forma simplificada de obturação.

Um cone.

Cimento.

Sem compactação lateral.

Sem aquecimento.

Sem downpack.

Sem backfill.

Essa simplicidade levou a uma conclusão intuitiva:

uma técnica mais simples necessariamente deveria produzir uma obturação inferior.

Mas a Endodontia mudou.

Os instrumentos mudaram.

Os cones mudaram.

E, principalmente:

os cimentos mudaram.

O cone único contemporâneo não deve ser analisado simplesmente como a repetição da técnica de cone único utilizada décadas atrás.

O que você vai aprender

Pergunta

Resposta central

Cone único apresenta bons resultados clínicos?

Sim

É inferior às técnicas aquecidas?

Não foi demonstrado clinicamente

Produz mais cimento ao redor da guta-percha?

Geralmente sim

Isso é necessariamente ruim?

Depende das propriedades do cimento e da anatomia

Funciona melhor em canais circulares?

Geometricamente, sim

Canais ovais são uma limitação?

Sim

Cimento biocerâmico tornou o cone único mais viável?

Sim, conceitualmente e clinicamente

Cone matched garante adaptação?

Não

Técnicas aquecidas preenchem melhor irregularidades?

Frequentemente sim em estudos laboratoriais

Melhor preenchimento laboratorial significa maior sucesso?

Não necessariamente

O cimento pode substituir a guta-percha?

Não

Existe técnica universalmente melhor?

Não


Infográfico azul comparando O Dogma Histórico e Sealer-Based Obturation: vários pontos brancos vs um centro, com texto explicativo.

O cone único antigo e o cone único contemporâneo não são exatamente a mesma filosofia

Historicamente, a obturação endodôntica foi construída em torno de um princípio:

maximizar guta-percha e minimizar cimento.

Isso fazia sentido.

Muitos cimentos tradicionais apresentavam limitações relacionadas a:

  • solubilidade;

  • contração;

  • estabilidade dimensional;

  • propriedades mecânicas.

Quanto maior a massa de guta-percha e menor a película de cimento, teoricamente menor a dependência de um componente potencialmente menos estável.

Dentro dessa lógica, técnicas como:

  • condensação lateral;

  • compactação vertical aquecida;

  • continuous wave

buscavam aumentar a proporção de guta-percha dentro do canal.

O cone único inverte parcialmente essa relação

Na técnica contemporânea de cone único:

um cone principal ocupa o centro do preparo.

Ao redor dele permanece uma interface.

Essa interface será preenchida predominantemente pelo:

cimento endodôntico.

Portanto, comparativamente a determinadas técnicas de compactação:

a técnica de cone único tende a ser mais dependente das propriedades do cimento.

Esse é um ponto essencial.

Cone único não é simplesmente:

“usar menos guta-percha.”

É alterar a relação volumétrica entre:

guta-percha e cimento.

Foi aí que os cimentos hidráulicos mudaram a discussão

Os cimentos à base de silicato de cálcio apresentam propriedades diferentes de muitos materiais históricos.

Entre elas:

  • reação hidráulica;

  • boa biocompatibilidade;

  • bioatividade em determinadas condições;

  • escoamento;

  • interação com umidade;

  • estabilidade dimensional favorável em vários testes.

Isso favoreceu o conceito conhecido como:

sealer-based obturation — SBO

ou obturação baseada em cimento.

Nesse modelo, o cimento não é interpretado apenas como uma película mínima entre guta-percha e dentina.

Ele assume participação maior no sistema obturador.

Infográfico odontológico com dente em corte e setas, sobre o papel do núcleo sólido; fundo azul escuro e texto técnico.

Mas “sealer-based” não significa “sem guta-percha”

Esse ponto é fundamental.

Se o cimento possui excelentes propriedades, poderia surgir a pergunta:

Por que não preencher todo o canal apenas com cimento?

Porque a guta-percha continua cumprindo funções importantes:

  • núcleo sólido;

  • controle de extensão;

  • redução do volume total de cimento;

  • estabilidade;

  • possibilidade de remoção;

  • referência radiográfica;

  • auxílio no retratamento.

Portanto:

sealer-based obturation não significa sealer-only obturation.

A guta-percha continua sendo parte essencial do sistema.

O mecanismo do cone único é extremamente simples

Após:

  • preparo;

  • irrigação;

  • protocolo final;

  • secagem;

  • seleção do cone;

aplica-se o cimento e insere-se um único cone principal até a extensão planejada.

Não há:

  • cones acessórios;

  • espaçador;

  • compactação lateral;

  • downpack;

  • injeção de guta-percha.

Essa simplicidade traz vantagens clínicas evidentes.

Quais são as vantagens?

Menor sensibilidade técnica

A quantidade de etapas é menor.

Isso reduz oportunidades para erros operacionais.

Rapidez

A obturação pode ser realizada em menor tempo.

Isso não é apenas conforto operacional.

Menor tempo também pode significar menor período de exposição do sistema durante a obturação.

Reprodutibilidade

Quando preparo e cone são adequadamente selecionados, o procedimento pode ser altamente padronizado.

Menor aplicação de forças laterais

Não utilizamos repetidamente espaçadores produzindo forças laterais sobre as paredes.

Não exige aquecimento

Isso simplifica equipamentos e execução.

Mas simplicidade não é sinônimo de inferioridade

Esse é um preconceito importante.

Em Medicina e Odontologia:

mais complexo não significa automaticamente melhor.

Uma técnica deveria ser julgada por:

  • segurança;

  • previsibilidade;

  • resultado clínico;

  • indicação.

Não pelo número de etapas.

Slide em fundo azul mostra cone circular em canal oval, com diagramas brancos e turquesa e textos sobre desafio geométrico clínico.

O verdadeiro desafio é geométrico

Imagine um canal perfeitamente circular.

O preparo produz um espaço aproximadamente circular.

Inserimos um cone circular.

A relação geométrica pode ser favorável.

Agora imagine um canal oval.

O cone continua circular.

Temos inevitavelmente:

CONE CIRCULAR

dentro de:

CANAL OVAL.

As regiões não ocupadas diretamente pelo cone precisarão ser manejadas principalmente pelo cimento.

É por isso que anatomia importa tanto no cone único

Nos artigos anteriores demonstramos que:

matched taper não significa matched anatomy.

Mesmo um cone fabricado para determinado sistema não reproduz toda a geometria real do canal.

No estudo de Deng e Abbott de 2025, mais de um terço do espaço do canal permaneceu não ocupado diretamente pelos cones correspondentes aos instrumentos.

Consequentemente:

cone único não é uma técnica baseada em contato integral entre cone e dentina.

É uma técnica baseada na associação:

cone + cimento.

E isso necessariamente produz problema?

Não.

O erro seria assumir que:

qualquer espaço ocupado por cimento representa automaticamente falha.

Isso dependerá de:

  • propriedades do cimento;

  • espessura;

  • existência de vazios;

  • estabilidade;

  • anatomia;

  • controle microbiológico.

Uma camada maior de um cimento dimensionalmente estável pode comportar-se de maneira diferente de uma camada igualmente espessa de um material mais solúvel ou sujeito à contração.

Por isso:

não podemos avaliar a técnica sem avaliar o cimento.

Técnica e cimento formam um sistema

Esta é uma das mensagens mais importantes deste artigo.

Não existe:

melhor técnica

isoladamente.

Assim como não existe:

melhor cimento

isoladamente.

Existe:

combinação técnica + cimento + anatomia + preparo.

Isso ficará ainda mais importante quando chegarmos ao bloco específico dos cimentos.

Infográfico azul com dois dentes: Laboratório (Micro-CT) e Realidade Clínica, ilustrando o paradoxo da evidência.

O que mostram os estudos laboratoriais?

Aqui, as técnicas aquecidas frequentemente apresentam vantagem.

Revisões de estudos laboratoriais encontram, em determinadas situações:

  • maior quantidade de guta-percha;

  • menor espessura de cimento;

  • melhor preenchimento de irregularidades;

  • menor ocorrência de determinados gaps;

  • melhor preenchimento de canais ovais.

Uma revisão de 2022 comparando técnicas termoplastificadas com cone único utilizando cimentos à base de silicato tricálcico encontrou vantagem das técnicas termoplastificadas para gaps e vazios em parte dos estudos.

Portanto:

laboratorialmente, a técnica aquecida pode preencher determinadas anatomias de maneira mais homogênea.

Isso é real.

Então a técnica aquecida deveria ter maior sucesso clínico

Parece lógico.

Mas aqui aparece uma das questões mais interessantes da Endodontia baseada em evidência:

melhor desfecho substituto não significa necessariamente melhor desfecho clínico.

Encontrar:

  • menos vazios;

  • maior preenchimento;

  • mais guta-percha;

  • maior penetração tubular

não significa automaticamente:

  • mais cicatrização;

  • menor periodontite apical;

  • maior sobrevivência do dente.

O prognóstico depende de muito mais que a geometria da obturação

Para que uma diferença laboratorial produza diferença clínica, ela precisa ser biologicamente relevante.

O resultado endodôntico depende também de:

  • diagnóstico inicial;

  • carga microbiana;

  • preparo;

  • irrigação;

  • canal não localizado;

  • extensão apical;

  • qualidade restauradora;

  • integridade estrutural;

  • condições periodontais.

Por isso, pequenas diferenças entre técnicas podem ser clinicamente superadas pelo peso de outras variáveis.

E o que mostram os estudos clínicos?

É aqui que a discussão muda substancialmente.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Journal of Endodontics em 2024 avaliou tratamentos e retratamentos realizados com:

cone único + cimento de silicato de cálcio.

Foram incluídos cinco estudos.

A taxa combinada de falha foi aproximadamente:

6,8%

com intervalo de confiança de 95% entre aproximadamente 3% e 12%.

Mais importante:

quando comparada a outras técnicas e materiais, não houve diferença estatisticamente significativa na taxa de falha clínica/radiográfica.

Isso sustenta uma conclusão importante:

o cone único com cimento de silicato de cálcio é uma estratégia clinicamente válida.
Slide com gráfico de barras sobre prova clínica de 5 anos; CWC 75,8% e SBO 78,3%, sem diferença significativa.

E agora temos acompanhamento de cinco anos

Em 2025 foi publicado um dado ainda mais importante.

Seog e colaboradores acompanharam por cinco anos pacientes originalmente randomizados para duas estratégias:

Grupo 1

Continuous Wave of Condensation + AH Plus

Grupo 2

Sealer-Based Obturation + Endoseal TCS

No acompanhamento médio de aproximadamente 62 meses, não houve diferença estatisticamente significativa entre as técnicas.

Pelo critério menos restritivo:

CWC: 81,8%

SBO: 87,0%

Pelo critério mais rigoroso:

CWC: 75,8%

SBO: 78,3%

Nenhuma diferença significativa.

Esse resultado é extremamente importante

Porque confronta diretamente a hipótese:

“Se a técnica aquecida preenche melhor, deve apresentar mais sucesso.”

Pelo menos nesse ensaio clínico de cinco anos:

não apresentou.

Isso não prova que as técnicas sejam idênticas em todas as situações.

Mas demonstra:

diferenças morfológicas de obturação não se traduzem necessariamente em diferenças clínicas mensuráveis.

Mas precisamos olhar criticamente o estudo

Esse é o nível Referência EndoToday.

O ensaio teve uma limitação relevante:

dos 93 dentes iniciais, 60 foram recuperados para avaliação aos cinco anos.

Ou seja, a taxa de acompanhamento foi aproximadamente:

64,5%.

Perdas de acompanhamento podem introduzir viés.

Além disso, o número final de dentes avaliados foi relativamente pequeno.

Portanto, o estudo é muito importante.

Mas não encerra a discussão.

E a revisão sistemática também possui limites

A meta-análise de 2024 encontrou apenas:

cinco estudos elegíveis.

Isso ainda representa uma base clínica relativamente pequena.

Especialmente quando comparada às décadas de utilização de técnicas convencionais.

Portanto, nossa conclusão precisa ser:

A evidência clínica atual é favorável e não demonstra inferioridade do cone único com cimentos de silicato de cálcio.

Não:

“Está definitivamente provado que é igual ou melhor em qualquer situação.”

Essa diferença é ciência.

E nos canais ovais?

Aqui precisamos voltar à anatomia.

O material-base EndoToday já apontava corretamente esta limitação: estudos laboratoriais demonstram espaços maiores nas extensões de canais ovais quando utilizamos um cone único, frequentemente ocupados principalmente por cimento.

Imagine:

        DENTINA
     ┌───────────┐
     │           │
     │    ●      │
     │           │
     └───────────┘
          ↑
       CONE

Em um canal oval, o cone circular não consegue ocupar toda a extensão lateral.

Isso é geometria.

A pergunta não é se haverá cimento

Haverá.

A pergunta é:

Quanto cimento haverá, em qual região e com quais propriedades?

Essa será uma discussão específica posteriormente:

Quanto cimento deve existir dentro do canal?

Porque uma obturação de cone único pode apresentar:

  • película muito fina em uma parede;

  • grande massa de cimento em uma extensão oval;

  • contato do cone apenas em determinados pontos.

Cimento não é necessariamente um problema — vazio é diferente

Outra distinção importante:

espaço preenchido por cimento

não é igual a:

espaço vazio.

O primeiro contém material obturador.

O segundo representa ausência de material.

Estudos que avaliam micro-CT precisam distinguir corretamente:

  • guta-percha;

  • cimento;

  • vazio.

Portanto:

menos guta-percha não significa necessariamente mais vazio.

Pode significar:

mais cimento.

Mas maior volume de cimento aumenta nossa dependência do material

E aqui está a limitação.

Quanto maior o volume de cimento:

mais importantes tornam-se propriedades como:

  • estabilidade dimensional;

  • solubilidade;

  • porosidade;

  • presa;

  • resistência à lavagem;

  • interação com umidade;

  • retratabilidade.

Por isso, utilizar cone único com qualquer cimento apenas porque a técnica é fácil seria um erro.

Cone único + AH Plus funciona?

Pode funcionar.

A técnica de cone único não pertence exclusivamente aos cimentos hidráulicos.

Mas o raciocínio histórico de minimizar espessura de cimentos resinosos faz com que grandes massas de AH Plus sejam menos coerentes com a filosofia tradicional desse material.

Por isso, técnicas que aumentam a proporção de guta-percha podem ser atraentes com determinados cimentos.

Mais uma vez:

técnica e material devem conversar.

Cone único + silicato de cálcio é diferente

Nos cimentos hidráulicos contemporâneos, aceita-se maior participação do cimento no sistema.

Esse foi um dos fatores que impulsionaram a popularização do cone único.

Mas cuidado:

aceitar maior volume não significa desejar volume ilimitado.

Um cone adequadamente selecionado continua importante.

Por que o cone continua importante?

Porque ele:

  • controla extensão;

  • limita o volume de cimento;

  • desloca o cimento ao longo do canal;

  • oferece núcleo sólido;

  • melhora controle radiográfico;

  • facilita remoção futura.

Portanto:

o cimento não deve transformar uma prova de cone ruim em uma obturação aceitável.
Slide odontológico mostra cone frouxo e cimento azul, com texto sobre risco de extrusão apical e instabilidade.

Cone frouxo + muito cimento não é o objetivo

Esse erro tornou-se particularmente comum com a chegada dos chamados “biocerâmicos”.

O raciocínio:

“O cimento é excelente, então basta colocar qualquer cone.”

é incorreto.

Um cone excessivamente frouxo pode aumentar:

  • espessura do cimento;

  • risco de extrusão;

  • instabilidade;

  • dificuldade de controle apical;

  • volume de material a ser removido futuramente.

O objetivo continua sendo:

cone dimensionalmente compatível + quantidade racional de cimento.
Infográfico odontológico em fundo azul com 3 cenários de prova do cone; dente e cones, com orientações de ajuste e cautela.

Matched taper ajuda — mas já sabemos seus limites

No artigo anterior demonstramos:

matched taper ≠ matched anatomy.

Mesmo assim, cone correspondente continua sendo uma ferramenta muito útil na técnica de cone único.

Porque aproxima:

  • D0;

  • taper;

  • geometria.

Isso melhora eficiência.

Só não garante adaptação perfeita.

E o tug-back?

Também já sabemos:

tug-back é evidência de contato, não evidência de selamento.

Na técnica de cone único, alguma estabilidade do cone é desejável.

Mas transformar tug-back extremo em requisito pode levar a:

  • cone excessivamente grande;

  • travamento no terço médio;

  • dificuldade de assentamento.

Portanto:

adaptação racional

é mais importante que:

cone mecanicamente preso.

O limite apical torna-se particularmente importante

No cone único, especialmente com cimentos de alto escoamento, o controle apical é crítico.

Um cone:

  • pequeno;

  • frouxo;

  • ultrapassando o limite

associado a cimento fluido pode aumentar risco de:

extrusão apical.

Por isso, tudo que discutimos anteriormente sobre:

  • D0;

  • calibração;

  • comprimento;

  • localizador;

  • limite apical

converge aqui.

A técnica de cone único expõe a qualidade das etapas anteriores

Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes.

A técnica é simples.

Logo:

há menos procedimentos de obturação capazes de mascarar um preparo inadequado.

Se o cone não encaixa, precisamos perguntar:

  • o preparo está correto?

  • o cone corresponde?

  • houve calibração?

  • existe interferência?

  • qual é a anatomia?

Não existe compactação posterior para “corrigir” tudo.

Em quais canais o cone único parece mais lógico?

Do ponto de vista geométrico, especialmente em:

  • canais relativamente circulares;

  • preparos de conicidade definida;

  • anatomia simples;

  • boa correspondência cone/preparo;

  • controle apical adequado.

Nessas situações, a técnica pode ser:

  • rápida;

  • previsível;

  • simples;

  • biologicamente coerente.

E em quais situações eu questionaria mais sua indicação?

Especialmente em:

  • canais amplamente ovais;

  • grandes irregularidades;

  • istmos extensos;

  • canais achatados;

  • discrepância importante entre cone e preparo;

  • ápices muito amplos;

  • situações em que grande massa de cimento será inevitável.

Isso não significa:

“cone único é contraindicado em todo canal oval.”

Significa:

a anatomia aumenta a dependência do cimento e deve fazer parte da decisão.
Infográfico azul da matriz EndoToday: Anatomia, com três canais e textos sobre geometria e conduta.

Canais ovais representam uma questão especialmente importante

Estudos com micro-CT mostram repetidamente que nenhuma técnica preenche perfeitamente esses sistemas.

Até técnicas aquecidas deixam:

  • vazios;

  • regiões não ocupadas;

  • interfaces.

Portanto, não deveríamos comparar:

cone único imperfeito

com:

técnica aquecida perfeita.

Essa segunda técnica perfeita não existe.

A comparação correta é:

qual estratégia maneja melhor determinada anatomia e isso produz diferença clinicamente relevante?

Técnica aquecida pode ter vantagem anatômica

Sim.

Quando a guta-percha é termoplastificada:

  • aumenta o fluxo;

  • aumenta deformabilidade;

  • pode ocupar melhor extensões;

  • pode adaptar-se melhor às paredes.

Esse é um benefício físico real.

Especialmente em:

  • canais ovais;

  • irregularidades;

  • istmos acessíveis ao material.

Mas novamente:

vantagem anatômica não equivale automaticamente a vantagem prognóstica.

Preencher uma irregularidade não significa limpá-la

Esse princípio continua sendo central.

Uma técnica aquecida pode empurrar guta-percha para uma reentrância.

Isso produz uma imagem impressionante.

Mas não sabemos, apenas pela obturação, se aquela região estava:

  • livre de biofilme;

  • adequadamente irrigada;

  • biologicamente controlada.

Por isso:

preenchimento tridimensional não é sinônimo de desinfecção tridimensional.

A técnica de obturação não pode corrigir irrigação insuficiente

Nenhuma técnica.

Nem cone único.

Nem condensação lateral.

Nem continuous wave.

Nem injeção termoplastificada.

Se o sistema permanece infectado:

obturar melhor não elimina automaticamente a causa biológica da doença.

Esse é o princípio que precisa governar toda a trilha.

E o risco de fratura radicular?

A técnica de cone único utiliza pouca ou nenhuma pressão de compactação lateral.

Teoricamente, isso reduz um componente mecânico associado a técnicas que utilizam espaçadores.

Mas devemos ter cautela antes de transformar isso em vantagem clínica comprovada.

Fratura vertical possui etiologia multifatorial:

  • quantidade de dentina remanescente;

  • preparo;

  • forças oclusais;

  • restauração;

  • anatomia;

  • procedimentos restauradores.

Portanto:

não há base suficiente para afirmar que cone único previne fraturas radiculares clinicamente.

E a dor pós-operatória?

A literatura contemporânea não demonstra diferença consistente de grande magnitude em dor apenas pela escolha entre cone único e técnicas aquecidas.

O material, extrusão, diagnóstico e condição periapical podem exercer maior influência.

Portanto:

escolher cone único apenas para reduzir dor pós-operatória não possui fundamento robusto.

E a extrusão de cimento?

Como o cone único frequentemente utiliza cimentos com bom escoamento e maior volume relativo, existe preocupação com extrusão.

A prevenção depende de:

  • limite apical;

  • seleção do cone;

  • quantidade de cimento;

  • método de inserção;

  • anatomia foraminal.

Biocompatibilidade não deve ser usada como justificativa para perder controle.

O grande problema do marketing “biocerâmico”

Muitas vezes a equação é apresentada assim:

cimento biocerâmico + cone único = obturação superior

A literatura não permite essa conclusão.

Podemos afirmar:

é uma combinação clinicamente válida.

Não:

é universalmente superior.

Essa diferença precisa ser mantida.

Slide azul sobre obturação endodôntica: Desconstruindo Dogmas da Obturação, com Mito e Evidência em listas comparativas.

O RCT de cinco anos é uma evidência contra o dogma — não a favor de outro dogma

O estudo de Seog et al. mostra que SBO com cimento de silicato de cálcio apresentou resultado semelhante ao continuous wave com AH Plus.

Isso enfraquece a afirmação:

“cone único é inferior.”

Mas não justifica a nova afirmação:

“cone único é melhor.”

O dado mais correto é:

nenhuma superioridade clínica foi demonstrada entre as duas estratégias naquele estudo.

Revisão sistemática de 2024 reforça isso

A meta-análise de Sabeti e colaboradores encontrou:

falha combinada: 6,8%

para:

cone único + cimento de silicato de cálcio.

Comparado a outras técnicas/materiais:

sem diferença significativa.

Isso coloca a técnica firmemente dentro das opções baseadas em evidência.

Mas o horizonte temporal ainda importa

Cinco anos é muito mais relevante que:

  • seis meses;

  • um ano.

Mas dentes tratados endodonticamente podem permanecer em função por décadas.

A evidência de:

10, 15, 20 anos

para técnicas contemporâneas com cimentos hidráulicos ainda é naturalmente mais limitada.

Portanto:

temos evidência clínica favorável de curto e médio prazo, com dados emergentes de cinco anos, mas ainda menos evidência de muito longo prazo.

E a retratabilidade?

Esse é outro ponto que o entusiasmo com o cone único frequentemente ignora.

Se o tratamento falhar:

precisaremos remover:

  • cone;

  • cimento.

A guta-percha é relativamente removível.

Alguns cimentos hidráulicos podem permanecer:

  • em túbulos;

  • irregularidades;

  • região apical.

Portanto, a técnica de hoje também deve ser julgada considerando:

o retratamento de amanhã.

Teremos um artigo específico sobre isso.

Matriz EndoToday — quando o cone único faz mais sentido

Situação

Compatibilidade com cone único

Canal relativamente circular

Alta

Preparo com cone correspondente

Favorável

D0 adequadamente controlado

Favorável

Cimento apropriado para técnica sealer-based

Favorável

Canal oval

Maior dependência do cimento

Istmos extensos

Limitação anatômica

Cone excessivamente frouxo

Desfavorável

Ápice amplo/reabsorvido

Exige maior controle

Grande discrepância cone/preparo

Reavaliar

Necessidade de grande massa de cimento

Reavaliar material/técnica


Matriz de decisão clínica EndoToday


CENÁRIO 1 — Canal circular + matched cone + cimento hidráulico

Cone chega corretamente

  • D0 controlado

  • extensão correta

  • boa estabilidade

Conduta:

Cone único é uma escolha altamente racional.


CENÁRIO 2 — Canal oval moderado

Cone centralizado

  • espaços laterais esperados

Pergunta:

O cimento escolhido possui propriedades compatíveis com maior participação volumétrica?

Conduta:

Cone único ainda pode ser utilizado, mas com consciência de sua dependência do cimento.


CENÁRIO 3 — Canal amplamente oval ou achatado

Grande discrepância entre:

cone circular × anatomia.

Considerar:

  • técnica aquecida;

  • estratégia híbrida;

  • maior participação do cimento;

  • anatomia específica.

Não existe uma resposta universal.


CENÁRIO 4 — Cone muito frouxo

Não concluir:

“o cimento resolve.”

Conduta:

Reavaliar:

  • D0;

  • calibração;

  • cone maior;

  • preparo.


CENÁRIO 5 — Cone não chega

Não instrumentar automaticamente mais.

Investigar:

  • interferência lateral;

  • taper;

  • discrepância dimensional;

  • cone deformado.


CENÁRIO 6 — Periodontite apical bem controlada

Se:

  • preparo adequado;

  • irrigação adequada;

  • condições favoráveis;

  • cone corretamente selecionado;

a presença de lesão não constitui motivo para evitar a técnica de cone único.

O que a evidência NÃO permite afirmar


“Cone único é uma técnica inferior”

Não sustentado clinicamente.


“Cone único é tão bom que a anatomia não importa”

Falso.


“Cimento biocerâmico compensa qualquer adaptação ruim”

Não sustentado.


“Cone frouxo é aceitável porque o cimento fará o selamento”

Não deve ser objetivo.


“Técnica aquecida é clinicamente superior porque produz menos vazios”

Não demonstrado universalmente.


“Mais guta-percha significa automaticamente maior sucesso”

Não demonstrado.


“Sealer-based obturation significa que a guta-percha não importa”

Falso.


“Cone único é ideal para toda anatomia”

Não.

Força da evidência — síntese EndoToday

Afirmação

Confiança

Cone único com cimento de silicato de cálcio apresenta resultados clínicos favoráveis

Moderada/boa

Meta-análise não demonstra maior falha que outras técnicas

Moderada

RCT de 5 anos não demonstrou diferença versus continuous wave + AH Plus

Boa, porém estudo único e com perdas de seguimento

Cone único tende a utilizar maior volume relativo de cimento

Alta plausibilidade + evidência laboratorial

Técnicas aquecidas podem preencher melhor irregularidades

Boa evidência laboratorial

Técnicas aquecidas produzem maior sucesso clínico

Não demonstrado

Canal oval aumenta a discrepância cone/anatomia

Alta

Cimento utilizado modifica o desempenho da técnica

Alta plausibilidade

Matched taper garante adaptação completa

Não

Cone frouxo + grande massa de cimento é objetivo clínico

Não

Existe uma técnica universalmente superior

Não


Slide em azul sobre endodontia, com dois cortes de dente e textos sobre falha e sucesso da obturação.

O grande erro é perguntar simplesmente “qual técnica é melhor?”

Essa pergunta ignora:

  • anatomia;

  • preparo;

  • cimento;

  • operador;

  • retratabilidade;

  • controle apical.

A pergunta melhor seria:

Qual técnica apresenta melhor relação entre simplicidade, controle, anatomia e propriedades do material neste caso?

Isso é tomada de decisão.

Técnica simples pode ser excelente — quando a indicação é correta

Não há mérito clínico em utilizar uma técnica complexa apenas porque ela é complexa.

Da mesma maneira:

não há mérito em utilizar cone único apenas porque é rápido.

A técnica deve ser escolhida porque:

é adequada à situação.

A decisão não deveria começar pelo equipamento

Não pense primeiro:

“Tenho System B.”

ou:

“Tenho cimento biocerâmico.”

Pense:

  • qual é a anatomia?

  • qual foi o preparo?

  • quanto espaço o cone ocupará?

  • qual será o papel do cimento?

  • preciso termoplastificar?

  • qual é meu controle sobre a técnica?

Só depois escolha o método.

A técnica não compensa a biologia

Esta é provavelmente a conclusão mais importante de todo o bloco.

Um canal:

bem desinfectado + corretamente obturado por cone único

pode ter resultado excelente.

Um canal:

mal desinfectado + magnificamente termoplastificado

pode fracassar.

Por isso:

a técnica importa. Mas ela entra depois da biologia.

Implicação clínica

Antes de escolher cone único, pergunte:

  • o canal é circular, oval ou achatado?

  • qual foi o instrumento final?

  • o cone realmente corresponde?

  • o D0 foi controlado?

  • a extensão está correta?

  • o cone está estável?

  • quanto cimento provavelmente existirá?

  • qual cimento será utilizado?

  • esse cimento funciona bem em maior volume?

  • haverá risco aumentado de extrusão?

  • como seria o retratamento se necessário?

Se essas perguntas forem respondidas adequadamente:

cone único deixa de ser uma simplificação e passa a ser uma estratégia.
Gráfico odontológico com dente e cone endodôntico, fundo azul, texto: O Sistema Define o Sucesso.

Conclusão

A técnica de cone único funciona.

Essa afirmação hoje pode ser sustentada clinicamente.

A revisão sistemática e meta-análise disponível encontrou baixa taxa combinada de falha e nenhuma diferença significativa quando comparada a outras estratégias.

Um ensaio clínico randomizado com acompanhamento de cinco anos também não demonstrou inferioridade da obturação baseada em cimento de silicato de cálcio em relação ao continuous wave com AH Plus.

Mas isso não significa que:

  • anatomia deixou de importar;

  • qualquer cone serve;

  • qualquer cimento serve;

  • grande volume de cimento seja irrelevante;

  • técnicas aquecidas não possuam vantagens físicas.

O cone único funciona quando existe coerência entre:

ANATOMIA+PREPARO+CONE+CIMENTO+LIMITE APICAL+CONTROLE MICROBIOLÓGICO

Portanto:

O sucesso do cone único não está no fato de usar apenas um cone. Está na qualidade do sistema que construímos ao redor dele.

E isso nos leva à próxima pergunta.

Se o cone único contemporâneo apresenta bons resultados clínicos:

a condensação lateral ainda tem alguma indicação?

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Tela azul com FAQ, Perguntas Frequentes e Base científica. Respostas claras., com ícone de interrogação.

Perguntas frequentes


A técnica de cone único funciona?

Sim. Evidências clínicas contemporâneas mostram resultados favoráveis, especialmente quando associada a cimentos de silicato de cálcio e corretamente indicada.

Cone único é inferior à obturação aquecida?

Não existe evidência clínica robusta demonstrando inferioridade universal. Técnicas aquecidas podem apresentar vantagens laboratoriais de preenchimento, mas isso não tem se traduzido consistentemente em maior sucesso clínico.

Qual foi a taxa de falha encontrada na revisão sistemática?

Uma revisão sistemática e meta-análise de 2024 encontrou taxa combinada de falha de aproximadamente 6,8% para tratamentos e retratamentos realizados com cone único e cimentos de silicato de cálcio.

Existem dados de longo prazo sobre cone único?

Já existem dados de cinco anos. Um ensaio clínico randomizado publicado em 2025 não encontrou diferença significativa entre obturação baseada em cimento de silicato de cálcio e continuous wave com AH Plus.

Cone único utiliza mais cimento?

Em geral, pode apresentar maior participação volumétrica do cimento do que técnicas que compactam ou termoplastificam maior quantidade de guta-percha.

Mais cimento significa pior obturação?

Não necessariamente. A relevância depende das propriedades físico-químicas do cimento, da espessura, presença de vazios, anatomia e estabilidade do material.

O cone pode ficar frouxo quando utilizamos cimento biocerâmico?

Um cone excessivamente frouxo não deve ser o objetivo. O cimento não substitui o controle dimensional do cone nem o controle apical da obturação.

Cone único é adequado para canais ovais?

Pode ser utilizado, mas canais ovais apresentam maior discrepância entre o cone circular e a anatomia, aumentando a dependência do cimento e podendo favorecer técnicas diferentes em alguns casos.

Técnicas aquecidas preenchem melhor canais irregulares?

Em muitos estudos laboratoriais, sim. A termoplastificação aumenta a capacidade da guta-percha de adaptar-se a irregularidades, embora essa vantagem não demonstre automaticamente maior sucesso clínico.

Cimento de silicato de cálcio tornou o cone único uma técnica diferente?

Ele modificou significativamente sua filosofia. Esses cimentos são mais compatíveis com o conceito de obturação baseada em cimento e com maior participação do material na interface.

Cone único com AH Plus pode ser utilizado?

Pode, mas a técnica precisa considerar as propriedades do cimento. A lógica histórica de cimentos resinosos favorece maior controle sobre sua espessura.

Existe uma técnica de obturação universalmente superior?

Não. A melhor escolha depende de anatomia, preparo, cimento, controle técnico, experiência do operador e condições clínicas.

Referências essenciais

  1. Sabeti MA, Karimpourtalebi N, Shahravan A, et al. Clinical and radiographic failure of non-surgical endodontic treatment and retreatment using single-cone technique with calcium silicate-based sealers: a systematic review and meta-analysis. Journal of Endodontics. 2024. doi: 10.1016/j.joen.2024.03.007.https://doi.org/10.1016/j.joen.2024.03.007

  2. Seog M, Kwon SK, Kim DH, et al. Five-year outcomes of root canal treatment comparing sealer-based obturation with calcium silicate-based sealer to continuous wave of condensation: a randomized controlled trial. Journal of Endodontics. 2025. doi: 10.1016/j.joen.2025.02.001.https://doi.org/10.1016/j.joen.2025.02.001

  3. Girelli CFM, Lacerda MFLS, Lemos CAA, et al. The thermoplastic techniques or single-cone technique on the quality of root canal filling with tricalcium silicate-based sealer: an integrative review. Journal of Clinical and Experimental Dentistry. 2022. doi: 10.4317/jced.59387.https://doi.org/10.4317/jced.59387

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Sobre o autor


Marco Aurélio Gagliardi Borges de terno azul e gravata azul claro, com expressão neutra, braços cruzados. Fundo preto.

Prof. Dr. Marco Aurélio Gagliardi Borges é cirurgião-dentista, especialista, mestre e doutor em Endodontia. Professor de pós-graduação e autor da EndoToday, atua na interface entre prática clínica, ensino e produção de conteúdo técnico-científico, com foco em diagnóstico, tomada de decisão e Endodontia baseada em evidências. Seus artigos buscam traduzir a literatura científica em conteúdo aplicável, claro e clinicamente relevante para cirurgiões-dentistas em diferentes níveis de formação. Saiba mais sobre o autor: quem somos.


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