Caso clínico: biopulpectomia no 46 com nódulo pulpar ocupando a câmara — acesso ultrassônico seguro
- Endotoday

- há 23 horas
- 6 min de leitura
Contexto clínico
Paciente 58 anos, dente 46, com queixa de dor intensa, localizada. O diagnóstico clínico estabelecido foi de pulpite irreversível. A principal dificuldade do caso não foi o diagnóstico, e sim o acesso endodôntico previsível, pois a câmara pulpar encontrava-se amplamente comprometida por uma calcificação.
📌 Guia completo do tema: antes do caso, recomendo a leitura do protocolo completo (diagnóstico diferencial, sinais no RX/CBCT e checklist anti-perfuração).
➡️ Acesse aqui: Nódulos pulpares: diagnóstico no RX e protocolo de acesso seguro
Queixa principal
Dor intensa e localizada (compatível com quadro de inflamação pulpar significativa, com alta probabilidade de hiperalgesia).
Diagnóstico
Diagnóstico pulpar: Pulpite irreversível
Decisão clínica: Biopulpectomia (remoção completa do tecido pulpar vital inflamado)
Racional EndoToday: em pulpite irreversível com dor intensa e localizada, a biopulpectomia bem executada tende a ser a conduta definitiva mais previsível para interrupção do estímulo nociceptivo, desde que o acesso e a instrumentação sejam conduzidos com segurança.
Achados radiográficos (Galeria abaixo)
A radiografia inicial evidenciou câmara pulpar tomada por um nódulo pulpar, com ocupação ampla e obstrução das entradas dos canais.
Interpretação prática
Este padrão radiográfico geralmente significa:
mapa pulpar “apagado” na visualização direta;
maior risco de “perseguição” das entradas sem referência;
aumento significativo do risco de perfuração iatrogênica se a remoção for feita com desgaste rápido e pouco seletivo.
Desafio técnico do caso
O objetivo não era “remover calcificação”, e sim:
recuperar o mapa pulpar com previsibilidade,
expor entradas de canal com mínimo desgaste,
executar o procedimento definitivo (biopulpectomia) com segurança.
Planejamento e decisão operatória
Por que não priorizar fresa?
Fresas podem ser úteis, mas em cenário de câmara tomada por calcificação há um risco clássico:
desgaste direcional excessivo,
perda de referência do assoalho,
e perfuração, especialmente quando a anatomia está mascarada.
Por que ultrassom como escolha principal?
Optamos pelo ultrassom endodôntico por permitir:
remoção seletiva e controlada,
progressão lenta com inspeção contínua,
menor chance de “escavar” assoalho sem referência.
Sequência clínica (passo a passo)
1) Anestesia
Anestesia com articaína 4% para controle efetivo da dor e estabilidade durante acesso e remoção da obstrução.
2) Abertura coronária
Abertura coronária orientada para exposição completa da câmara, garantindo:
visualização,
controle de profundidade,
e preservação da estrutura remanescente.
3) Isolamento absoluto e antissepsia do campo
Isolamento absoluto (lençol de borracha).
Antissepsia com clorexidina 2%.
4) Irrigação inicial da câmara
Irrigação com hipoclorito de sódio 2,5% para limpeza inicial, redução de carga orgânica e melhora de visibilidade.
Remoção do nódulo pulpar com ultrassom (protocolo EndoToday)
Remoção do nódulo pulpar com ultrassom (protocolo EndoToday)
Equipamento e parâmetros
Ultrassom: Optymus (CVDentus)
Ponta: diamantada T1F-E (CVDentus)
Potência: nível 4
Irrigação: máxima
Princípio de segurança: potência moderada + irrigação máxima = melhor controle térmico, remoção progressiva e menor risco de dano iatrogênico.
Técnica operatória (passo a passo)
Iniciar pela interface (periferia), não pelo centro.A remoção começa contornando a transição entre a parede da câmara e a borda do nódulo, criando um “descolamento periférico”. Isso evita empurrar a calcificação para regiões críticas do assoalho.
Priorizar as regiões proximais (mesial/distal).O desgaste seletivo tende a ser mais previsível nessas regiões, com melhor controle direcional e menor probabilidade de perda de referência anatômica.
Redobrar cautela em vestibular e lingual.Nessas áreas, a abordagem deve ser deliberadamente mais conservadora:
menor pressão,
movimentos curtos,
pausas frequentes para inspeção sob magnificação.
Criar espaço para liberação (“efeito salto”).Com irrigação contínua e desgaste progressivo, forma-se um espaço ao redor da calcificação até que ela se desloque e libere o acesso às entradas dos canais.
Inspeção final do assoalho e confirmação do mapa pulpar.Após a remoção:
irrigar novamente a câmara (NaOCl 2,5%),
aspirar detritos,
inspecionar sulcos e entradas,
restabelecer referências anatômicas antes de prosseguir com a biopulpectomia.
✅ Erros evitados (anti-acidente)
Não “cacei” entradas de canal com desgaste cego: primeiro recuperei o mapa pulpar.
Não ataquei o centro do nódulo: realizei descolamento periférico para liberação controlada.
Não usei potência alta sem controle: mantive potência moderada + irrigação máxima, com inspeções frequentes.
Não insisti em vestibular/lingual sem referência: reduzi pressão e aumentei pausas para reavaliação.
Biopulpectomia — protocolo EndoToday
Objetivo: remover completamente o tecido pulpar vital inflamado (pulpite irreversível), controlar a dor e estabelecer condições biológicas e mecânicas para modelagem, desinfecção e obturação previsíveis — com foco em segurança, especialmente em dentes com câmara calcificada/nódulo pulpar.
1) Princípios de segurança (antes de entrar no canal)
Campo limpo e seco (isolamento absoluto, vedação periférica adequada).
Controle de visão: magnificação/iluminação, sem “progredir no escuro”.
Acesso conservador, porém completo: teto removido totalmente; assoalho preservado.
Sem pressa na negociação: em casos com calcificação, “forçar” é a principal via de iatrogenia.
2) Irrigação inicial e controle do conteúdo orgânico
NaOCl 2,5% na câmara (como você já descreveu) para:
dissolução orgânica inicial,
redução de carga microbiana,
facilitar a remoção de remanescentes pulpares.
Ação mecânica suave: aspiração + renovação frequente da solução.
Regra EndoToday: irrigação é “ação contínua”, não um evento pontual. Renove sempre após qualquer etapa que gere detritos.
3) Localização de entradas e negociação inicial (patência “inteligente”)
Após liberar o mapa pulpar (com ultrassom), priorize:
identificação de sulcos do assoalho,
confirmação de entradas sob visão,
negociação inicial delicada.
Como negociar com segurança (sem citar limas específicas):
Use instrumento manual fino com lubrificante/quelante (ex.: EDTA gel) para:
explorar a entrada,
ganhar percurso inicial,
evitar bloqueios por compactação de detritos.
Movimentos curtos, sem carga apical: exploração + progressão milimétrica, com irrigação intercalada.
Erro comum: tentar “abrir caminho” com força. Em pulpite, a dor pode pressionar a tomada de decisão — mas, tecnicamente, a solução é controle, não velocidade.
4) Glide path (via de deslizamento) — a etapa que evita travamentos
Objetivo: criar um trajeto contínuo e suave até o comprimento de trabalho, reduzindo risco de:
desvios,
degraus,
fratura por fadiga torsional,
compactação de detritos no terço apical.
Estratégia EndoToday:
Glide path progressivo e irrigado, validando:
permeabilidade,
trajeto contínuo,
ausência de travamento.
Ponto de decisão: se houver travamento repetido, pare e reavalie (irrigação, recapitulação suave, lubrificação e confirmação de direção), em vez de insistir.
5) Determinação do comprimento de trabalho (CT)
Estabeleça CT com localizador apical (preferencialmente) e confirme radiograficamente quando necessário, sobretudo em:
anatomias atípicas,
dúvida de referência,
alterações apicais.
EndoToday: CT correto + glide path estável = metade do sucesso da biopulpectomia em casos difíceis.
6) Estratégia de instrumentação (sem “inventar” sistema)
Como você não especificou ainda qual sistema utilizou após a negociação, aqui vai o protocolo conceitual (que você pode adaptar ao seu sistema real):
Modelagem em progressão controlada, mantendo:
irrigação ativa e renovada,
recapitulação periódica,
prevenção de acúmulo de detritos.
Evite “salto” de calibres/limas sem glide path consolidado.
Se o canal for estreito/calcificado:
priorize avanço gradual,
mantenha controle de torque (se motorizado),
aumente frequência de irrigação/recapitulação.
7) Irrigação durante e após instrumentação (sequência prática)
Durante o preparo:
NaOCl 2,5% com renovação frequente, especialmente:
após cada avanço significativo,
após qualquer sensação de bloqueio/travamento.
Após a modelagem (finalização da limpeza):
Faça uma fase final de irrigação com:
NaOCl renovado (tempo de contato adequado),
e quelante (EDTA) quando indicado para remoção de smear layer,
seguida de nova irrigação (para remover resíduos do quelante).
8) Secagem e próxima etapa (dependendo de sessão única ou múltipla)
Como o seu texto ainda não definiu se o caso foi concluído em sessão única, deixo a conduta “bifurcada” (você escolhe a que se aplica):
Sessão única: após limpeza e secagem, seguir para obturação.
Múltiplas sessões: após limpeza e secagem, medicação intracanal e selamento provisório.
Erros evitados (checklist anti-acidente)
Evitar desgaste rápido “em direção ao canal” sem mapa pulpar definido.
Evitar potência elevada sem irrigação efetiva.
Evitar insistência em vestibular/lingual sem referência clara.
Evitar “cavar” a câmara em profundidade sem reavaliações.
Lições do caso
Nódulo pulpar não é o problema — o problema é perder o mapa pulpar.
Ultrassom é estratégia de segurança, não apenas ferramenta de remoção.
Em pulpite irreversível, a biopulpectomia é previsível, desde que o acesso seja controlado.
A abordagem periférica com liberação progressiva reduz risco iatrogênico.
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🎯 Lições do caso em 30 segundos
Nódulo pulpar raramente explica a dor: o diagnóstico (pulpite irreversível) guia a conduta — o nódulo define a complexidade do acesso.
Em câmara “apagada”, ultrassom é estratégia de segurança: desgaste seletivo + irrigação contínua reduzem risco de perfuração.
O objetivo não é “remover calcificação”: é recuperar o mapa pulpar, localizar entradas e só então avançar para a biopulpectomia com previsibilidade.
➡️ Quer o protocolo completo (diagnóstico diferencial, quando indicar CBCT e checklist anti-perfuração)?
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