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IA na Endodontia - Guia 2026

Atualizado: 16 de jan.


“Este guia é a versão expandida e auditada do debate ‘IA vai superar o endodontista?’, agora atualizado para 2026 com metodologia, auditoria e checklist.”


Uma análise técnica, clínica e ética sobre o presente e o futuro

Versão 2026.1 — Atualizado em 14/01/2026


A Inteligência Artificial (IA) está mudando rapidamente a forma como analisamos imagens, organizamos dados clínicos e planejamos procedimentos em endodontia. O erro mais comum é confundir desempenho em tarefas específicas (por exemplo, detectar radiolucências em radiografias) com a capacidade de executar o tratamento endodôntico real sob variabilidade anatômica, imprevisibilidade clínica e responsabilidade ética.

selo

Este guia foi escrito para endodontistas, clínicos gerais e pós-graduandos que desejam um posicionamento maduro: usar IA onde ela agrega, reconhecer limites, reduzir riscos (falso-positivo, viés e automação acrítica) e manter rastreabilidade e governança (incluindo LGPD).

Como auditamos IA no EndoToday (Guia 2026)

Este guia adota um princípio simples: IA é ferramenta assistiva. A saída algorítmica só é incorporada quando passa por auditoria técnica, clínico-radiográfica e ético-legal, com rastreabilidade. A decisão final permanece humana.

Protocolo em 3 camadas (use em qualquer RX/CBCT):

  • Camada 1 — Técnica (entrada): qualidade da imagem, protocolo de aquisição, artefatos e compatibilidade com a tarefa proposta.

  • Camada 2 — Clínica (plausibilidade): coerência com anamnese, testes e exame objetivo; risco de falso-positivo por sobreposição/artefato; indicação de confirmação adicional quando aplicável.

  • Camada 3 — Ética e LGPD (governança): minimização de dados, transparência ao paciente quando aplicável, política de retenção/segurança e registro do uso da ferramenta.

Regra prática: se não for auditável, não é clínico; é opinião algorítmica.

1. Onde a IA já é forte hoje (e por quê)


1.1 Interpretação de imagens (RX e CBCT)

O campo mais consistente da IA em endodontia hoje é a análise de imagem: triagem de radiografias e CBCT, detecção de achados sugestivos, segmentação e mensurações assistidas.

Valor clínico realista:

  • Ganho de velocidade em tarefas repetitivas (triagem e marcações).

  • Apoio à consistência do “olhar” em cenários específicos.

  • Potencial didático ao explicitar padrões e comparar com referências.

Limite que precisa estar explícito (para evitar hype):Acurácia diagnóstica não é sinônimo de utilidade clínica. Mesmo quando a IA tem bom desempenho em estudos, a generalização depende de qualidade de dados, validação externa e controle de viés.


1.2 Suporte ao planejamento e à decisão (CDSS)

Além de imagem, cresce o uso de IA como suporte ao planejamento: organização de hipóteses, sugestões de condutas possíveis e checagens de consistência entre sinais, sintomas e imagem.

Delimitação essencial:A IA propõe; o clínico valida. A responsabilidade permanece humana e a adoção segura exige rastreabilidade (versão, logs e documentação mínima).


2. O que a IA (ainda) não faz: executar o procedimento endodôntico

A execução do tratamento endodôntico, em ambiente clínico real, exige competências humanas que não são reproduzidas por IA isolada:

2.1 Sensibilidade tátil e propriocepção

Ajustes milimétricos baseados em resistência, vibração, travamento e microvariações de torque sustentam decisões preventivas (evitar transporte, degraus, perfurações, fraturas).

2.2 Variabilidade anatômica real

Istmos, deltas apicais, curvaturas severas, calcificações e reabsorções exigem microdecisões contínuas e personalizadas.

2.3 Julgamento clínico holístico

Condições sistêmicas, medicações, prognóstico restaurador, custo/benefício e preferências do paciente exigem decisão contextual e ética clínica.

2.4 Relação humano–paciente

Comunicação, empatia, consentimento esclarecido e confiança são dimensões não delegáveis.



3. Robótica odontológica: o que existe e o que falta para a endodontia

A robótica é mais viável em tarefas padronizáveis. Em endodontia, a realidade é mais restrita.

  • Em implantodontia, há sistemas de navegação/assistência com uso clínico em alguns mercados.

  • Em endodontia, o avanço mais palpável é o acesso guiado (especialmente em calcificações), ainda predominantemente em cenários pré-clínicos/in vitro.

  • A autonomia endodôntica encontra barreiras técnicas (háptica, variabilidade anatômica) e ético-legais (segurança e responsabilização).

Síntese: o caminho mais plausível é cobótica (assistência sob supervisão do especialista), não substituição.

4. Passo a passo do tratamento: onde a IA agrega (e onde não)

Diagnóstico e decisão de tratar

  • IA agrega: triagem mais rápida, alertas para achados sutis, checagens de consistência.

  • Humano é essencial: testes clínicos, diagnóstico diferencial e decisão terapêutica.

Planejamento de acesso coronário

  • IA agrega: simulações e estimativa de risco.

  • Humano é essencial: ajuste em tempo real guiado por tato/visão e manejo de imprevistos.

Comprimento de trabalho

  • IA agrega: estimativas por imagem/modelos e checagens.

  • Humano é essencial: validação multimodal (localizador + RX + sensibilidade tátil).

Instrumentação mecânica

  • IA agrega: recomendações (quando há sensores/dados) e alertas de risco.

  • Humano é essencial: estratégia adaptativa e controle motor fino.

Irrigação e ativação

  • IA agrega: organização de protocolo (volume/tempo).

  • Humano é essencial: segurança apical e leitura de resposta tecidual.

Obturação

  • IA agrega: sugestão de técnica conforme anatomia prevista.

  • Humano é essencial: controle tridimensional e correção imediata de falhas.

Controle de qualidade e follow-up

  • IA agrega: auditoria automática e detecção de mudanças ao longo do tempo.

  • Humano é essencial: avaliação clínica e decisões interdisciplinares.

IA Agrega

5. O “Endodontista Aumentado por IA” (workflow 2026)

Um pipeline prático e auditável:

  1. Aquisição padronizada de RX/CBCT (qualidade de entrada).

  2. Pré-leitura por IA (triagem/segmentação/marcações).

  3. Auditoria humana estruturada (técnica + clínica + LGPD).

  4. Decisão e execução com estratégia endodôntica e segurança.

  5. Auditoria pós-operatória e follow-up.

  6. Registro de discordâncias e desfechos para melhoria contínua (clínica e ensino).


pipeline de IA

6. Metodologia do Guia 2026

Este guia é um documento de orientação clínica e educacional (não é diretriz institucional). Ele foi construído a partir de:

  • Evidência científica revisada por pares (revisões sistemáticas/meta-análises e estudos relevantes).

  • Normas de transparência e reporte em IA/saúde (PRISMA 2020, CONSORT-AI, SPIRIT-AI, TRIPOD+AI, CLAIM 2024 e TRIPOD-LLM).

  • Documentos de governança profissional (FDI).

  • Marco legal brasileiro de proteção de dados (LGPD).

Pergunta norteadora: quais tarefas têm evidência de benefício com IA (imagem, triagem, mensuração, suporte ao planejamento), quais seguem dependentes de habilidades humanas (execução e julgamento contextual) e quais riscos éticos/legais precisam ser mitigados (viés, falso-positivo, automação acrítica, privacidade e rastreabilidade).


7. Auditoria clínica, ética e LGPD

Auditoria em 3 níveis (protocolo EndoToday):

Nível 1 — Técnica

  • A imagem está adequada (qualidade e artefatos)?

  • A tarefa está claramente definida (detecção, segmentação, mensuração, triagem)?

  • Existe rastreabilidade (versão do algoritmo, logs, data)?

Nível 2 — Clínica

  • O achado é coerente com anamnese, testes e exame objetivo?

  • Há risco de falso-positivo por sobreposição/ruído?

  • O sistema separa “achado” de “diagnóstico conclusivo”?

Nível 3 — Ética e LGPD

  • Dados minimizados e protegidos (controle de acesso, retenção, descarte)?

  • Transparência ao paciente quando aplicável?

  • Registro no prontuário quando a IA influenciar decisão (versão, saída, validação)?

LGPD — mínimo operacional:Se imagem/prontuário for processado por ferramenta de terceiros, estabeleça finalidade, base legal, minimização, anonimização/pseudonimização quando possível, retenção e segurança.


riscos da IA

8. Checklist prático (implementação em 7 dias)

  1. Padronize aquisição de RX/CBCT.

  2. Defina 3 tarefas permitidas para IA (ex.: triagem, segmentação, auditoria pós-op).

  3. Exija rastreabilidade (versão + logs).

  4. Institua “momento de auditoria” antes de aceitar a sugestão.

  5. Registre discordâncias e desfechos (material didático e científico).

  6. Faça revisão mensal de casos divergentes.

  7. Publique aprendizados sem dados identificáveis.



9. Uma análise técnica, clínica e ética sobre o presente e o futuro


Resumo executivo

A Inteligência Artificial (IA) já alcança desempenho notável em análise de imagens e suporte à decisão clínica em endodontia, porém não substitui a execução prática do tratamento. O futuro próximo aponta para o Dentista Aumentado por IA: profissionais que integram algoritmos e sensores para maior precisão, segurança e previsibilidade — mantendo o julgamento clínico, a responsabilidade ética e a destreza técnica como pilares insubstituíveis.


tabela de IA

10.Conclusão

A IA supera o humano em velocidade e consistência para tarefas específicas de análise de dados e imagens. Contudo, a execução endodôntica permanece dependente de habilidades humanas: sensibilidade tátil, adaptação anatômica, julgamento contextual e relação terapêutica. O futuro robusto é a sinergia: endodontista aumentado por IA, com auditoria, rastreabilidade e governança (incluindo LGPD), elevando segurança e previsibilidade sem terceirizar o ato clínico.

CTA final:Botão: Baixar checklist (PDF)Microtexto: 


Use em consultório e no ensino para reduzir viés de automação e fortalecer rastreabilidade.



Referências:


  • Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, Boutron I, Hoffmann TC, Mulrow CD, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021;372:n71. doi:10.1136/bmj.n71.

  • Liu X, Cruz Rivera S, Moher D, Calvert MJ, Denniston AK; SPIRIT-AI and CONSORT-AI Working Group. Reporting guidelines for clinical trial reports for interventions involving artificial intelligence: the CONSORT-AI extension. Nat Med. 2020;26(9):1364-1374. doi:10.1038/s41591-020-1034-x.

  • Cruz Rivera S, Liu X, Chan A-W, Denniston AK, Calvert MJ; SPIRIT-AI and CONSORT-AI Working Group. Guidelines for clinical trial protocols for interventions involving artificial intelligence: the SPIRIT-AI extension. BMJ. 2020;370:m3210. doi:10.1136/bmj.m3210.

  • Collins GS, Moons KGM, Dhiman P, Riley RD, Beam AL, Van Calster B, et al. TRIPOD+AI statement: updated guidance for reporting clinical prediction models that use regression or machine learning methods. BMJ. 2024;385:e078378. doi:10.1136/bmj-2023-078378.

  • Tejani AS, Klontzas ME, Gatti AA, Mongan JT, Moy L, Park SH, et al. Checklist for Artificial Intelligence in Medical Imaging (CLAIM): 2024 Update. Radiol Artif Intell. 2024;6(4):e240300. doi:10.1148/ryai.240300.

  • Gallifant J, Afshar M, Ameen S, Aphinyanaphongs Y, Chen S, Cacciamani G, et al. The TRIPOD-LLM reporting guideline for studies using large language models. Nat Med. 2025;31(1):60-69. doi:10.1038/s41591-024-03425-5.

  • Setzer FC. The Use of Artificial Intelligence in Endodontics. J Dent Res. 2024. doi:10.1177/00220345241255593.

  • Ourang SAH, Sohrabniya F, Mohammad-Rahimi H, Dianat O, Aminoshariae A, Nagendrababu V, et al. Artificial intelligence in endodontics: Fundamental principles, workflow, and tasks. Int Endod J. 2024;57(11):1546-1565. doi:10.1111/iej.14127.

  • Aminoshariae A, Kulild J, Nagendrababu V. Artificial Intelligence in Endodontics: Current Applications and Future Directions. J Endod. 2021;47(9):1352-1357. doi:10.1016/j.joen.2021.06.003.

  • Brasil. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).


faq

1) A IA vai “superar” o endodontista na execução do tratamento endodôntico?

No estado atual da tecnologia, não. A execução clínica depende de sensibilidade tátil, microdecisões contínuas e adaptação anatômica em tempo real, além de responsabilidade profissional e relação terapêutica, dimensões que não são reproduzidas por IA/robótica em consultório.

2) Em que a IA já é realmente forte na endodontia hoje?

Principalmente em interpretação de imagens (RX e CBCT), segmentação/mensurações e triagem de complexidade, além de atuar como suporte ao planejamento (sistemas assistivos). O valor clínico típico é padronização do “olhar”, redução de vieses e ganho de eficiência no planejamento inicial.

3) A IA pode determinar sozinha o diagnóstico pulpar e/ou periapical?

Ela pode sugerir hipóteses com boa performance radiológica em alguns cenários, mas não substitui testes clínicos, anamnese, diagnóstico diferencial e julgamento profissional.

4) A IA pode ajudar no planejamento do acesso coronário?

Sim. A tendência é auxiliar com simulações 3D, estimativa de riscos (ex.: perfuração/furca) e propostas de trajetórias mais conservadoras; porém, a execução exige ajuste intraoperatório conforme calcificações, dureza e feedback tátil.

5) A IA pode ajudar na determinação do comprimento de trabalho?

Pode apoiar com estimativas baseadas em CBCT/modelos preditivos e cruzamento com medidas, mas a decisão clínica robusta permanece multifatorial (localizador + RX + sensação tátil + morfologia foraminal).

6) Robôs farão instrumentação completa sem operador humano?

Em ambiente clínico real, não no curto prazo. O caminho mais plausível é a cobótica (robô assistindo/estabilizando) com supervisão e controle do especialista, especialmente por limitações atuais de haptics e segurança médico-legal.

7) A IA pode reduzir risco de fratura de instrumentos e iatrogenias?

Ela tende a contribuir com recomendações de sequência/RPM/torque e alertas preditivos com base em sinais de oscilação/torque e estimativas anatômicas. Ainda assim, a prevenção efetiva depende de estratégia e decisões táticas do operador.

8) Usar IA aumenta minha responsabilidade legal?

Aumenta a necessidade de documentação e rastreabilidade (logs, versões do algoritmo, parâmetros e justificativas). A responsabilidade final permanece com o cirurgião-dentista.

9) Quais cuidados éticos e de proteção de dados devo adotar ao usar IA?

É recomendável transparência/consentimento sobre uso de IA e governança de dados, com atenção à LGPD/GDPR, especialmente quando imagens e prontuários são processados por ferramentas de terceiros.

10) A IA pode “substituir” o endodontista entre 2030 e 2050?

O cenário mais consistente é aumentar (e não substituir): leitura de imagens mais rápida com métricas de confiança, motores com sensores e modelos preditivos em tempo real, navegação assistida e robótica colaborativa em tarefas específicas — sempre sob supervisão.

11) Como começar a integrar IA na endodontia de forma prática (sem modismos)?

Comece por um protocolo enxuto:

(1) validação humana sistemática das sugestões;

(2) checklists incorporando IA no planejamento;

(3) registro de parâmetros (torque/RPM) quando disponível;

(4) política de dados/consentimento;

(5) capacitação da equipe para interpretar limites e confiabilidade.


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